Cidades

Obra do VLT expõe população mato-grossense

Yuri Ramires – Especial para o CMT

A não conclusão da obra do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em Cuiabá e Várzea Grande prejudicou comércio, pedestres e motoristas. As vias que estão com as obras paralisadas desde o ano passado carecem com a falta de sinalização e cuidados básicos para evitar acidentes. Medidas para minimizar a situação já foram projetadas, mas aguardam respaldo dos municípios.

A cidade industrial, onde os trilhos já estão instalados em boa parte da Avenida da FEB, apresenta o quadro mais preocupante. A sinalização, especialmente para o pedestre, é inexistente.  Se o modal já estivesse em funcionamento, certamente uma medida para facilitar a travessia teria que ser adotada.  Para atravessar, os pedestres esperam o fluxo baixar, e correm até o outro lado.

Aos motoristas, o trecho requer o dobro de atenção. A via ainda conta com diversos blocos de concreto que separam os trilhos do asfalto e, hora ou outra, um pedestre surge do meio deles para atravessar a rua. Com o espaço mais estreito das vias, uma manobra rápida pode resultar na batida em outro veículo ou até mesmo nesses blocos, conhecidos como “gelo baiano”.

Foi justamente esse fator que gerou a reclamação do taxista Carlos Henrique Batista Teixeira. Segundo ele, em horários de pico, não há alternativas aos motoristas devido ao congestionamento que se forma na rotatória do viaduto. Para ele, outro problema é a falta de acostamento.

O comerciante Guilherme Bianchin, 31 anos, afirma que o mais problemático e perigoso na situação toda é a falta de faixas de pedestres e sinalização. “O que gera perigo para quem está a pé, especialmente para os idosos e crianças que circulam pela região”, disse.

Além disso, não há mais pontos de ônibus na região que comportem os passageiros que aguardam o transporte. Em vez disso, apenas placas sinalizam que o local é um ponto, deixando os passageiros à mercê.

“As pistas estão sem iluminação adequada, faltam pontos de ônibus, o acabamento é precário e a gente ainda consegue ver resíduos da construção. Falta passarela, redutor de velocidade, por aí vai”, lembrou o comerciante.

Ele não poupou críticas, reafirmando que as obras do modal não trouxeram benefícios à cidade.  “A cidade ficou mais feia, gerando risco tanto para os pedestres quanto para os motoristas”.

A falta de uma estrutura com trilhos não faz com que a situação tenha menor impacto em Cuiabá, que conta com uma valeta de ponta a ponta em uma das avenidas mais movimentadas da cidade, a Tenente Coronel Duarte, mais conhecida como Prainha. Hoje, quem entra no eixo da via já tem conhecimento de que vai enfrentar congestionamento.

A situação se complica mais devido sua localidade, no meio do centro da cidade. Em horário de pico a situação pode sair do controle. Pedestres trançam uma linha entre os carros, passam sem olhar para os lados e, quando questionados, dizem que estão no seu direito.

Em uma das situações, uma senhora disse à reportagem que atravessava no local porque encurtava o caminho até seu destino final. “Se eu vou à faixa perco mais tempo”, disse. A situação exige paciência dos motoristas.

 Comerciantes em prejuízos

Não restam dúvidas sobre os prejuízos que comerciantes instalados nas rotas do modal sofreram desde o começo das obras, em 2012. Diante dessa situação de queda nas vendas, até mesmo a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) precisou intervir para buscar soluções ao setor.

Conforme Claudenir Weirich, gerente de pós-venda de um comércio na Avenida da FEB, a situação foi amenizada com a construção de um novo acesso à loja. “Tivemos 25% de quedas nas vendas. No bairro o aumento da circulação dos veículos gerou diversos buracos, que até hoje não foram arrumados”, disse. Segundo ele, uma das soluções para manter os custos foi investir no marketing da loja.

Na Prainha não foi diferente, os comerciantes buscaram, por diversas vezes, conversar com o prefeito Mauro Mendes, mas não obtiveram muitas respostas. Segundo o grupo de empresários, Mendes dizia que “não podia fazer nada”.

A revolta dos comerciantes não se dá apenas pela não conclusão das obras. Eles buscam alguma medida que amenize os impactos causados na região, principalmente devido à crise que se instalou no comércio.

Sócio proprietário em uma loja no centro, Assan Salin diz que foi contrário à instalação do modal desde o começo. “O menor prejuízo aqui deve ter sido de 30%”, lembrou. Segundo ele, quando o cliente lembra que a loja está localizada em um local cheio de obstrução, ele evita o acesso para não gerar problemas.

Solução temporária

Já está mãos das duas prefeituras, um projeto para atender ao pedido dos comerciantes e da população, visando à revitalização do canteiro do modal. A proposta atende as avenidas da FEB, Prainha e Historiador Rubens de Mendonça (CPA), com interferências provisórias e o recapeamento das vias.

Em Várzea Grande, entre o que está planejado há a abertura de um desvio que dará acesso à Rua Vereador Aberaldo de Azevedo, na entrada do Bairro Cristo Rei. Na mesma região, uma nova calçada será construída para atender os pedestres.

No canteiro central, desde a ponte Júlio Müller até o Aeroporto Marechal Rondon, apenas algumas intervenções paisagísticas serão realizadas, já que por lá já existem trilhos nas ruas.

Na Prainha, a ação vai facilitar o tráfego de veículos. Será feito um acesso até a Avenida Dom Bosco, por dentro do canteiro central do VLT. Entre a avenida e a Praça Ipiranga, o projeto prevê um estacionamento provisório.

Na Avenida do CPA, haverá interferências de paisagismo. No trecho próximo à Polícia Federal, por exemplo, haverá mudas de plantas da flora local. “Queremos ampliar o conceito ambiental e a necessidade de termos cada vez mais árvores em Cuiabá. A ideia é que as mudas sejam distribuídas de forma gratuita e que os interessados possam pegá-las livremente”, explicou o secretário de Estado de Cidades (Secid), Eduardo Chiletto.

Para que as ações sejam concretizadas, R$ 2,7 milhões estão sendo investidos no projeto. Desse total, R$ 1 milhão será gasto nas ações de paisagismo e R$ 1,7 nos serviços de recapeamento e tapa-buraco.

Conforme Chiletto, as interferências são provisórias e necessárias para amenizar os transtornos que a obra já causou à população. “Enquanto não há uma definição jurídica sobre a retomada das obras, a população não pode ficar desassistida, assim como os comerciantes também não”, finalizou.

Apesar de a proposta estar bem amadurecida, as prefeituras (de Cuiabá e de Várzea Grande) ainda não se posicionaram sobre o começo das intervenções. Conforme a Secid, o prazo de manifestação dos municípios termina no começo de setembro.

Modal da discórdia

O Governo do Estado recusou a proposta do Consórcio VLT e, por isso, não há previsão de retomada das obras. Ou seja, a população pode esperar por mais um bom tempo de atraso e do não funcionamento do modal. O VLT estava previsto para rodar no primeiro trecho – Aeroporto/Porto – em agosto de 2016.

O executivo estadual alega que a retomada das obras deve ser autorizada de forma responsável e transparente, para evitar situações de desgastes como vem acontecendo. Por isso, para comprovar as garantias legais da proposta apresentada pelo Consórcio VLT, um estudo foi pedido para analisar se os prazos e custos da obra estão dentro da conformidade.

Esse seria o segundo estudo pedido pelo Governo, uma vez que no começo da gestão, uma auditoria já havia sido feita no contrato firmado com a gestão anterior. Segundo a Procuradoria-Geral do Estado (PGE), “por mais que o Gabinete de Projetos Estratégicos se esforçasse para solucionar o impasse, o Consórcio VLT exigiu condições totalmente inapropriadas e destituídas do mínimo de fundamento lógico-jurídico”.

Na proposta do consórcio, há o adicional de tempo e de mais recursos financeiros. A obra avaliada em R$ 1, 4 bilhão – sendo R$ 1.066 bilhão já pago – não estaria com recursos suficientes para ser concluída. Fato que o governo diz repudiar e pontua que não quer pagar mais nada por ela.

Agora, a conclusão da obra, ou não, será definida pela Justiça Federal nos próximos meses. O Consórcio VLT foi procurado, mas não quis se manifestar acerca dos fatos. 

Confira detalhes da reportagem do Jornal Circuito Mato Grosso

 

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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