Gosto particularmente dos filmes em preto e branco. Há algo nessa ausência de cor que, para mim, nos obriga a olhar de outra maneira. Quando a imagem perde suas cores, somos convidados a perceber aquilo que está além da aparência: os gestos, os silêncios, os rostos, a luz, as sombras e, principalmente, aquilo que o filme deseja dizer. É como se, ao retirar a cor da imagem, o cinema nos pedisse para enxergar com mais atenção a essência da história.
Em Ainda Temos o Amanhã, essa escolha estética me parece ainda mais significativa, porque estamos diante de uma narrativa que fala justamente de um mundo em que muitas mulheres tiveram sua existência reduzida a papéis determinados por outros.
Dirigido por Paola Cortellesi, o filme nos leva à Itália de 1946, para dentro da vida de Delia, uma mulher submetida à violência doméstica, à pobreza, ao trabalho exaustivo e a uma sociedade na qual ser mulher significava, muitas vezes, obedecer, suportar e silenciar. Mas, por trás da história particular de Delia, existe uma transformação histórica muito maior: a conquista do direito de voto pelas mulheres italianas.
E é justamente nesse ponto que o filme deixa de pertencer apenas ao passado.
Há uma sequência que considero uma das mais bonitas e simbólicas da obra: o dia da votação. Mulheres de diferentes condições sociais aparecem exercendo um direito que acabavam de conquistar. Mulheres humildes, trabalhadoras, donas de casa, mulheres de diferentes origens e trajetórias caminham em direção às urnas. Naquele momento, suas diferenças parecem perder importância diante de algo maior: todas são cidadãs e todas têm uma voz.
A imagem é poderosa porque não mostra simplesmente mulheres votando. Mostra mulheres entrando na História.
Naquele 2 de junho de 1946, as italianas participaram pela primeira vez das eleições políticas nacionais. Votaram no referendo que decidiria entre monarquia e república e também escolheram os representantes da Assembleia Constituinte. Quase 13 milhões de mulheres foram às urnas.
E é impossível não pensar no contraste entre aquela imagem e a realidade que tantas daquelas mulheres haviam vivido. Durante gerações, a violência, a submissão e o silêncio foram tratados como parte natural da existência feminina. Muitas mulheres não tinham apenas sua voz política negada; tinham também sua voz dentro de casa, seu direito de escolha e, muitas vezes, sua própria dignidade submetidos à vontade de um homem. Por isso, o voto significava muito mais do que colocar uma escolha em uma urna: significava abrir um caminho para que a mulher pudesse começar a defender a própria existência, a própria dignidade e o direito de decidir sobre o seu destino. Era a passagem do silêncio para a voz, da invisibilidade para a cidadania.
Impossível assistir a essa cena hoje sem pensar no significado do voto como conquista. Especialmente quando, no presente, voltam a aparecer discursos questionando direitos que pareciam definitivamente incorporados à vida democrática.
É nesse aspecto que Ainda Temos o Amanhã ganha uma atualidade incômoda. O filme nos lembra que direitos não são elementos naturais da sociedade: eles são construídos, conquistados e, por isso mesmo, precisam ser compreendidos e preservados.
Aquelas mulheres que caminham até a urna não são todas iguais. Algumas são pobres, outras pertencem a classes mais favorecidas; algumas provavelmente têm pouca instrução, outras possuem maior acesso à educação. Mas naquele instante existe algo que as aproxima: todas têm o direito de escolher.
Para mim, essa é uma das imagens mais bonitas da democracia: pessoas de diferentes classes sociais e oportunidades podendo participar da mesma decisão.
Delia, entretanto, ainda precisa conquistar algo que vai além do voto. Ela precisa descobrir que sua própria vida pode lhe pertencer. Durante anos, aprendeu a aceitar a violência, a submissão e as limitações impostas pelo marido e pela sociedade. Sua transformação acontece quando começa a compreender que não precisa permanecer prisioneira do lugar que lhe foi destinado.
O filme fala, portanto, de uma liberdade que começa muito antes das grandes revoluções. Começa dentro de uma pessoa, quando ela percebe que tem o direito de desejar outra vida.
A fotografia em preto e branco reforça essa sensação de memória e de passado, mas também cria um interessante contraste: vemos um mundo sem cores justamente enquanto testemunhamos o nascimento de novas possibilidades. A trilha sonora, a direção e a maneira quase coreográfica com que algumas cenas são construídas equilibram a dureza do tema com momentos de humor e delicadeza.
Mas é a ausência de cor que continua me chamando a atenção.
Penso que o preto e branco nos obrigue a enxergar justamente aquilo que a cor poderia esconder: as diferenças entre luz e sombra, liberdade e opressão, silêncio e voz, passado e futuro.
E o filme nos faz perceber que essas fronteiras não estão tão distantes quanto gostaríamos de imaginar.
Quando penso naquelas mulheres diante da urna, penso também em quantas outras vieram antes delas e não tiveram esse direito. E penso nas mulheres que vieram depois, para quem votar se tornou algo tão cotidiano que já não parece uma conquista.
É justamente aí que mora o perigo do esquecimento.
Quando uma conquista se torna cotidiana, podemos esquecer o quanto ela custou.
Ainda Temos o Amanhã é, para mim, uma lembrança delicada e ao mesmo tempo firme de que nenhuma liberdade deve ser tratada como algo banal. O direito de votar não é apenas o ato de escolher um nome em uma cédula. É reconhecer que uma mulher é cidadã, que sua consciência tem valor e que suas decisões sobre o futuro da sociedade têm a mesma legitimidade que as de qualquer outro cidadão.
Aquelas mulheres de 1946 talvez não soubessem exatamente o que o futuro lhes reservava. Mas caminharam até aquela urna acreditando que poderiam participar dele.
E é por isso que o título do filme é tão bonito.
Ainda temos o amanhã.
Mas o amanhã nunca é garantido. Ele é construído por nossas escolhas, pela nossa memória e pela disposição de não permitir que aquilo que foi conquistado com tanta dificuldade seja novamente colocado em dúvida.
Para mim, essa é a maior mensagem que o filme nos deixa: não basta conquistar a liberdade. É preciso saber reconhecê-la, valorizá-la e lembrar todos os dias por que ela existe.
Vale muito a pena assistir.
@aeternalente

