Quando cuidar do outro também nos fere.
Há pessoas que passam a vida tentando salvar outras e, de tanto olhar para a dor alheia, acabam se esquecendo de olhar para a própria. Steve fala sobre isso, mas fala também sobre abandono, adolescência, violência, exaustão e sobre uma sociedade que, muitas vezes, prefere afastar aqueles que considera difíceis a tentar compreender o que existe por trás de seus comportamentos.
Dirigido por Tim Mielants e baseado no livro Shy, de Max Porter, o filme se passa durante praticamente um único dia em Stanton Wood, uma escola residencial destinada a adolescentes com sérios problemas de comportamento. No centro da história está Steve, interpretado por Cillian Murphy, diretor da instituição e um homem que tenta desesperadamente manter de pé não apenas a escola, ameaçada de fechamento, mas também os jovens que dependem dela, enquanto ele próprio começa a desmoronar.
Para mim, uma das maiores qualidades do filme está justamente em não construir uma história confortável sobre educação. Não há aqui aquele professor extraordinário que chega, pronuncia algumas palavras inspiradoras e transforma adolescentes problemáticos em jovens perfeitamente ajustados. Steve é muito mais duro e, talvez por isso, muito mais verdadeiro. Existem pessoas que carregam feridas tão profundas que amar, ensinar, orientar e oferecer oportunidades pode não ser suficiente para curá-las, e isso não significa que não valha a pena tentar.
Penso ser justamente essa uma das mais bonitas lições do filme.
Os meninos de Stanton Wood são agressivos, barulhentos, desafiadores e, algumas vezes, assustadores, mas o filme nos obriga a ultrapassar essa primeira camada. Por trás da violência existem histórias. Por trás da raiva existem rejeições. Por trás da insolência pode existir medo. E por trás daquele jovem que a sociedade rapidamente classifica como “problema” pode haver simplesmente alguém que passou tempo demais acreditando que não tinha importância para ninguém.
É nesse ponto que o jovem Shy se torna fundamental. Jay Lycurgo faz uma interpretação intensa e dolorosa de um jovem que parece oscilar o tempo inteiro entre querer ser alcançado e fazer tudo para impedir que alguém se aproxime. Shy carrega uma mistura de fragilidade e agressividade que torna impossível enxergá-lo apenas como vítima ou apenas como causador dos próprios problemas. Ele é humano, contraditório e profundamente ferido.
Essa é uma reflexão necessária quando pensamos em jovens considerados difíceis: comportamento também é linguagem. Nem toda dor sabe pedir ajuda educadamente. Algumas dores gritam. Outras agridem. Outras desafiam. E algumas se escondem atrás de uma aparente indiferença.
Ao mesmo tempo, Steve apresenta uma outra dimensão que me tocou particularmente: quem cuida também precisa ser cuidado.
Steve tenta resolver tudo. Administra conflitos, protege alunos, ampara funcionários, enfrenta a ameaça de fechamento da escola e procura manter alguma normalidade em um ambiente permanentemente à beira do caos. Só que existe um homem por trás da função, e esse homem está cansado.
Cillian Murphy consegue transmitir esse esgotamento de maneira extraordinária. Muitas vezes ele não precisa dizer nada. Está nos olhos, na respiração, nos pequenos movimentos, no esforço quase físico para continuar funcionando quando emocionalmente já parece não haver espaço dentro dele para carregar mais nada. É uma interpretação contida em alguns momentos e inquieta em outros, construída sobretudo nos detalhes. A crítica também destacou justamente essa capacidade do ator de manter Steve profundamente humano em meio ao turbilhão da narrativa.
Há nisso uma questão importante: costumamos admirar as pessoas que suportam tudo. Aquelas que resolvem, acolhem, organizam, trabalham, protegem e continuam caminhando e raramente perguntamos quanto custa ser permanentemente forte.
Ninguém consegue ser porto seguro para todos durante todo o tempo sem que, em algum momento, precise também encontrar onde repousar.
A fotografia de Robrecht Heyvaert compreende perfeitamente esse estado emocional. A câmera frequentemente acompanha os personagens de maneira próxima e inquieta, muitas vezes com movimentos de mão, produzindo a sensação de que estamos dentro daquela escola, quase sem espaço para respirar. Os enquadramentos fechados no rosto de Steve revelam o cansaço que as palavras tentam esconder. Não há uma preocupação em embelezar aquele universo. A imagem prefere a verdade, a proximidade e até certo desconforto.
A própria linguagem de documentário presente em parte do filme reforça essa sensação de realidade e também provoca outra reflexão interessante: existe enorme diferença entre observar alguém e realmente enxergá-lo. Uma câmera pode registrar um comportamento, mas não necessariamente conhece a história que o produziu.
A trilha sonora de Ben Salisbury e Geoff Barrow acompanha essa crescente tensão. Começa de maneira mais discreta e vai se tornando mais presente e perturbadora conforme o dia se desorganiza e os personagens se aproximam de seus limites. Há ainda uma seleção musical que dialoga com a energia dos jovens e com a época retratada, além da canção-tema interpretada por Little Simz, que também participa do elenco.
Tracey Ullman e Emily Watson completam um elenco que ajuda a dar humanidade à instituição, mas é principalmente na relação entre Steve e Shy que o filme encontra sua força emocional. São duas pessoas em posições aparentemente opostas — um adulto responsável por cuidar e um adolescente que precisa ser cuidado — e que, no fundo, estão tentando sobreviver às próprias dores.
E essa inversão me parece essencial.
Às vezes imaginamos que aquele que ajuda está inteiro e aquele que recebe ajuda está quebrado, mas a vida raramente é tão simples: Pessoas feridas também cuidam; Pessoas cansadas continuam trabalhando; Pessoas que parecem fortes podem estar lutando silenciosamente para não cair.
Steve também nos lembra de algo que considero cada vez mais importante: nenhuma pessoa deveria ser definida pelo pior momento de sua vida. Principalmente um adolescente. Há uma enorme diferença entre responsabilizar alguém por seus atos e concluir que aquela pessoa não merece mais qualquer possibilidade de futuro.
Educar também é acreditar naquilo que ainda não conseguimos enxergar.
Talvez nem todos os jovens de Stanton Wood consigam mudar. Talvez Steve não consiga salvar todos (Aliás, ninguém consegue). Há limites para o amor, para a educação e até para a nossa capacidade de ajudar. Reconhecer esses limites não diminui a importância de estender a mão.
Algumas vezes, aquilo que oferecemos não transforma imediatamente uma vida: pode apenas impedir que alguém se sinta completamente sozinho naquele dia.
E isso já pode significar muito.
Ao final, Steve não nos entrega respostas fáceis. Entrega algo mais incômodo e necessário: a percepção de que existem pessoas vivendo muito perto do limite sem que percebamos. Jovens cuja agressividade esconde abandono. Adultos cuja eficiência esconde exaustão. Pessoas que continuam desempenhando seus papéis enquanto, silenciosamente, começam a perder as próprias forças.
Por tudo isso penso que a mensagem mais bonita do filme está justamente na ideia de que ninguém deveria atravessar tudo sozinho.
Há momentos em que salvar alguém significa oferecer oportunidades, e em outros, significa simplesmente permanecer por perto. E há momentos em que precisamos ter humildade suficiente para compreender que aquele que sempre cuidou dos outros também pode precisar que alguém perceba seu silêncio e lhe pergunte, com verdadeiro interesse: e você, como está?
Porque cuidar é um gesto profundamente humano, mas permitir-se ser cuidado também é.
Vale muito a pena assistir.
@aeternalente


