Encontro-o. Quarenta e tantos anos se passaram desde a última vez que nos vimos. Na época, tínhamos pouco mais de 30 anos, hoje estamos beirando os 80.
Ele está sentado em um sofá meio curvado pra frente, olhando a ponta do sapato. Demora a notar-me. Parece alheio, quase apático. Tem o porte abatido de quem não conseguiu ou nem tentou descartar pelo caminho, as tristezas que a vida acumula.
Lentamente, como convém a um ancião, levanta a cabeça. Põe os óculos e reconhece-me. Quer parecer alegre com o encontro por tanto tempo adiado. Esforça-se, mas não consegue. No máximo, resmunga com voz fraca uma frase emocionada, chamando-me pelo apelido de infância.
Conversamos essas coisas básicas: onde moram os filhos, quantos netos têm, permeadas de lembranças do passado. Milagrosamente, após tanto tempo, algumas estão preservadas.
Creio que esta cena – a percepção da decrepitude – é comum entre as pessoas que se separam por muitos anos, voltando a se encontrar na velhice.
Quando envelhecemos juntos, as pequenas e constantes modificações passam quase despercebidas. Assim, se tirarmos fotografias diárias de uma criança enquanto cresce e depois, comparando a foto de um dia qualquer com a do dia anterior, não notamos diferenças.
Também, nunca percebemos o dia exato em que um bebê vira criança, quando essa criança se transforma em adolescente ou moço. Nem quando se torna adulto ou velho. Mas se espalharmos sequencialmente as fotos em uma grande mesa e compararmos a fotografia do dia em que ela fez dois anos àquela em que completou cinco, notaremos imediatamente a modificação que os anos trouxeram.
Imaginem as pequenas mudanças diárias acumuladas durante 40 ou 50 anos aparecerem de repente na nossa frente!
Volto ao encontro que motivou esta crônica. Vendo-o de frente, assusto-me. Não é ele. Meu primo não era assim. Era um garoto bonito, um adolescente alegre, um jovem garboso. Como pode ter mudado tanto?
Esse que vejo é seu pai, meu tio, sem tirar nem pôr: magro, cabelos finos, brancos e ralos, cara encovada, ar triste, voz cansada. Agora ele se levanta e o faz com alguma dificuldade, apoiado no braço do sofá. Demora um pouco para fazer este simples movimento.
Então, me olha intensamente. Parece também admirado. Na hora não me ocorreu, mas com certeza – percebendo meu rosto enrugado, os gestos lentos, os cabelos brancos e a fala cansada – estava pensando o mesmo que pensei dele, certamente vendo em mim a figura do meu pai.
A imagem do encontro vai pro celular. Olho-a depois. Não tenho dúvida: a foto datada registra um impossível encontro do meu pai com o pai dele, que morreram há anos.
Confiamos nos espelhos em que nos olhamos todos os dias, mas eles são mentirosos. Tal qual as fotografias sequenciais, eles vão nos acostumando, lentamente, com a decadência inevitável.
O choque de realidade vem quando, incrédulos, olhamos na cara de um amigo que não vemos há 40 anos e deduzimos que ele também custa a acreditar no que vê.
Renato de Paiva Pereira


