Texto e fotos de Valéria del Cueto
Não sei você, ando em modo sobrevivência em muitos sentidos. A começar pelo básico, o geral.
Não é fácil ser testemunha e personagem dos tempos atuais em que esse bombardeio de fatos, informações e contrainformações é constante.
Fico pensando: se é difícil para a geminiana racional e, acima de tudo, organizada que vos escreve, imagina para os nativos dos signos mais voláteis…
A realidade é que não dispomos de gavetinhas de memória para tantos dados e assuntos que nos perseguem durante as 24 horas do dia.
Alguns desses eventos já são previsíveis. Por exemplo: às sextas-feiras, no máximo aos sábados, Trump inventa uma novidade para ser assunto nos finais de semana.
Seu repertório é amplo. Vai do Papa aos extraterrestres, passando por querelas e quizumbas. Com direito a queixas, discussões e disputas com a Palestina, Venezuela, Cuba,o Irã… e, claro, nosso tão amado e rico Brasil.
“Soberania pouca, nosso pirão primeiro!” (Será que o homem mais poderoso da terra sabe o que é pirão?) Não faz diferença para quem jura que nariz de porco é tomada e quer ser e se fazer luz na base do tranco, ameaça e porrada.
Não sei você, mas andamos precisando é de tranquilidade e equilíbrio para resolvermos os nossos próprios problemas entre mais uma edição da Copa do Mundo de futebol e as eleições de novembro.
São tantos acontecimentos que brotam nas telas e redes sociais que nem a melhora do IDH foi merecidamente comemorada. Estamos numa posição no contexto mundial que nunca antes alcançamos!
Não sei você. Acho, só acho, que primeiro é preciso explicar à população em geral o que significa a sigla (mania de gestão que prejudica a compreensão popular).
IDH é o Índice de Desenvolvimento Humano. Como essa conquista pode sensibilizar essa massa cada vez mais desumana e cheia de opiniões definitivas?
Não sei você, apostaria na particularização dos exemplos. IDH é a rebimboca da parafuseta, mas a história de como a vida de dona Idalina melhorou e o porquê teria muito mais Ibope (olha que coisa antiga). Quer dizer, atualizando o vocabulário, engajamento, likes e compartilhamento.
Ninguém se espelha nem sente na pele o poder de alcance do IDH, já a conquista da vizinha… Ela pode provocar admiração ou inveja, dependendo da vibe do observador.
Não sei você. Sigo procurando rotas de fuga para essa loucurada geral.
É aí que a natureza me pega no contrapé e tira minha concentração do caderninho onde escrevo essa crônica, sentada na escada que dá acesso à ponte sobre o rio que murmura ali embaixo.
Enquanto escrevo, uma borboleta amarela passeia pela tampinha cor-de-rosa da garrafa de água que carrego pra todos os lados e por lá fica, dando pinta de sua exuberância, fazendo pose.
Largo de mão a caneta, fecho o caderninho e pego o celular para tentar registrar o desenho de suas asas enquanto acompanho seu descanso.
Pronto! Perdi a concentração. Ou melhor, desviei a atenção para um objeto mais interessante que Trump e as mazelas mundiais.
Não é toda hora que as borboletas ficam assim. A vida delas, normalmente, é borboletar inquietas e incessantemente. A nossa, tentar correr atrás para registrar essa beleza que dura tão pouco.
Parece brincadeira. A amarelinha ficou quieta até eu terminar de fotografar e chegar ao fim do parágrafo inspirado por ela e se picou…
Não sei você. Nem sempre tenho a sorte do acaso. Então, para sair deste buraco negro das notícias do dia a dia, borboleto em outras dimensões, quase sempre inesperadas.
Foi assim que fui parar no encontro de carros antigos da Volkswagen no pé da serra. Pensa num estacionamento imenso. Boa parte dele ocupada pelos mais variados modelos que fizeram parte da vida de tantos brasileiros.
O queridinho era o fusca. Um modelo que sobrevive no imaginário de boa parte da população.
Minha brincadeira, circulando entre os veículos, foi a de reconhecer os que tinham mais peças originais no meio de centenas de fuscas incrementados e modificados, alguns à venda.
Já fui a muitos encontros de motociclistas (veículo que mora no meu passado e nos meus sonhos aventureiros) e de carros vintages. Essa foi a primeira visita a uma reunião de modelos de automóveis antigos de uma única montadora.
Além dos fuscas também havia no local outros veículos da marca: variants, brasílias, TCs, TLs e muitas kombis. Com direito a stands vendendo peças e produtos raros dos modelos.
Não sei você, como se sentiria. Fui teletransportada para um mundo num tempo paralelo, onde tudo era mais fácil e, principalmente, durável. Como já foi a vida.
Por aqui, hoje, ela passa supersônica e, algumas vezes, não deixa rastros. Como no caso do teste do motor do foguete planejado para levar os homens ao espaço que explodiu outro dia…
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com
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