Opinião Renato Paiva

 Bônus e ônus da IA 

Baixei o aplicativo do ChatGPT em fevereiro de 2023, quando soube que já estava disponível no Brasil. Desde então, valho-me da IA diariamente para satisfazer as mais inusitadas necessidades e curiosidades pessoais.

No mundo dos negócios, a IA atingiu uma importância talvez igualável somente ao advento da internet, à invenção da máquina a vapor e do motor a combustão. Tal como as novidades que a antecederam, ela beneficia a muitos, mas privilegia as empresas que estão em condições tecnológicas e financeiras para sair na frente da disputa. Não há o que reclamar, porque o mundo capitalista é assim mesmo. É a prevalência dos mais aptos, aqui representados pelos mais ricos e mais espertos.

Entretanto, os eloquentes louvores ao uso comercial da IA têm destacado os vistosos sucessos das empresas gigantescas, esquecendo-se dos prejuízos que o uso dela causa aos médios e pequenos negócios espalhados pelo mundo. 

Esses comerciantes prejudicados que tinham ou têm suas lojas físicas pelas ruas das cidades travam uma luta desigual com a concorrência bruta do onipresente e-commerce.

A IA proporcionou uma extraordinária concentração de renda e poder empresarial nas mãos das ultra tecnológicas empresas de vendas. A Amazon, por exemplo, não produz nada e vende quase tudo. Ela administra os itens de uma infinidade de produtores e comerciantes, os quais produzem, selecionam, embalam e despacham os pedidos, deixando uma gorda comissão para a big tech. Esta só tem sistemas robustos de computadores e softwares sofisticados capazes de gerenciar com eficiência todas as fases do processo de venda, recebimento e entrega. 

Não é que ela obrigue os pequenos e médios empresários a participarem do sistema que comanda. Na verdade, as coisas caminham de tal forma que os parceiros, mesmo deixando parte do lucro com a administradora do processo, fazem de tudo para ter uma boa avaliação dos clientes para manterem o “privilégio” de participarem do grupo.

Com a IA, uma fábrica de calçados que antes vendia para centenas de pequenos comerciantes espalhados pelo país agora direciona seus produtos para o Mercadolivre.com. Não que esta fábrica não queira vender para os pequenos revendedores; o fato é que estes desistiram da luta porque é impossível concorrer com o e-commerce.

O iFood é um exemplo perfeito. Todos nós o usamos, e a facilidade que traz aumentou o consumo de alimentação fora de casa, além de ter dado empregos para muitos entregadores. Mas, para os pequenos restaurantes, criou-se uma dependência tão grande que, para sair dela, só optando por outra: o 99Food. Triste sina: “Escapando de Cila, cai em Caríbdis”.

A Uber, sem investir em carros e pontos, ocupou o lugar dos taxistas. Também as OTAs (Online Travel Agencies) não constroem hotéis ou resorts, mas vendem hospedagens e eventos no mundo inteiro, e os seus parceiros (ou seriam vítimas?), mesmo reclamando dos altos valores das comissões, preferem pagar a terem seus possíveis hóspedes direcionados para os que concordam com o pagamento.

Lojistas, taxista, donos de restaurantes, hoteleiros, livreiros etc. precisam conviver com este novo sistema que a IA criou e torcer para que se estabeleça uma concorrência entre as dominadoras para abrandar a opressão delas sobre os mais fracos. 

Renato de Paiva Pereira.

Renato Paiva

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