Olinda Altomare Opinião

Tempo

Hoje ao ver nos cabelos do meu filho uma mecha de cabelos brancos, senti a areia do tempo escorrer por entre meus dedos.

Não foi apenas o sinal discreto da passagem dos anos, foi um chamado silencioso, quase sagrado, que me levou de volta a um tempo em que seus cabelos eram macios como manhã de primavera, e sua voz ainda tropeçava nas palavras, como quem aprende a nomear o mundo.

Lembrei-me, com doçura, da infância que ainda vive em mim como um retrato iluminado. Das tardes em que o riso ocupava todos os espaços da casa, das mãos pequenas mergulhadas na massa do pão caseiro, espalhando farinha pelo ar como se fosse neve inventada. Havia ali um tipo raro de felicidade, simples, inteira, sem pressa.

Recordei também das nossas brincadeiras, tão despretensiosas quanto eternas. Da “teia do homem-aranha”, que nos fazia gargalhar até perder o fôlego, e daquele sofá branco, tão orgulhoso de sua cor, que acabou vencido pelas marcas inevitáveis da infância vivida com intensidade. Hoje, penso que não era descuido, era vida transbordando.

E as músicas… ah, as músicas. Ainda posso ouvir, como um eco distante, nossas vozes entrelaçadas no caminho para a escola. Você sempre quis ir cedo, como quem tem pressa de viver. E lá íamos nós, cantando qualquer canção que coubesse naquele instante, transformando trajetos comuns em memórias eternas. O mundo parecia caber dentro do carro, e o tempo, esse mesmo tempo, parecia não existir.

Mas ele existia. E seguiu seu curso, discreto, firme, inevitável.

Hoje, ao olhar para você, já não vejo apenas o menino das mãos sujas de farinha ou do riso fácil. Vejo um homem que cresceu, que amadureceu, que construiu seus próprios caminhos com coragem e dignidade. Vejo alguém que assumiu o protagonismo da própria vida, com a serenidade de quem aprendeu, aos poucos, a ser.

E eu… eu mudei de lugar.

Se antes eu guiava seus passos, hoje me encontro na plateia mais privilegiada que a vida poderia oferecer. Assisto, com o coração cheio, cada conquista, cada escolha, cada gesto seu. E há um orgulho silencioso, desses que não precisam de palavras, que me envolve como um abraço.

Aquela mecha branca, que por um instante me assustou, agora me parece um símbolo. Não da perda do tempo, mas da sua passagem bem vivida. Da história que construímos juntos. Da beleza de ver a vida seguir, mesmo quando o coração insiste em querer guardá-la.

E talvez seja isso que acontece com todas as mães: esse instante em que o tempo se revela não como perda, mas como consagração. A sublime confirmação de que a maternidade cumpre seu destino ao ver o filho ganhar o mundo e a própria vida.

O tempo não escorreu em vão.

Ele floresceu.

@aeternalente

Olinda Altomare

About Author

Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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