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No Oscar, atualidade de ‘O Agente Secreto’ reflete Brasil cindido, de ontem, hoje e sempre

Kleber Mendonça Filho é um grande artista brasileiro, e a obra dele fala por si. Grande alegria ver um produto da sensibilidade e do pensamento, como O Agente Secreto, atrair no Brasil milhões de espectadores às salas de cinema. E também reverberar no exterior, em festivais e agora no Oscar. Como o próprio Kleber ressalta, é enriquecedor ao Brasil, como a qualquer país com recursos para fortalecer o audiovisual, ter a oportunidade de se ver na tela.

Assisti duas vezes ao filme, e confesso que na segunda gostei ainda mais do que da primeira. Kleber é um diretor autoral, alimentado pelo melhor cinema, e se nota como ele constrói o prólogo, a eficiente cena do posto de gasolina, como a chegada do cavaleiro sem nome – ou melhor, com dois nomes, Marcelo e Armando, o fugitivo – a uma espécie de meio do caminho, um não lugar, do Velho Oeste.

Troque o cavalo pelo Fusca amarelo, o saloon pelo posto Esso, o taberneiro pelo frentista, e os homens sem-lei da Lei pela Polícia Rodoviária Federal (dos bloqueios nas estradas em 2022), tem-se o cenário do Western mítico transposto para o Brasil de Geisel em 1977. Nem faltaram os cocares indígenas, carnavalizados, a bordo de um Corcel de passagem pelo terreirão: uma cena, pode-se dizer, antropofágica.

A aridez é amenizada aqui pelo que parece ser a cana de açúcar verdejante do entorno, a riqueza pernambucana desde a Colônia, das oligarquias associadas à exploração e ao atraso ancestral. O cadáver debaixo do papelão, estendido havia dias sobre a terra poeirenta do posto, é o inquietante da cena, e a marca definitiva de que estamos no Western, de bons contra maus, e no qual a violência é sempre a resolução do conflito, seja no facão, no tiro ou no martelo imaginário de Marcelo/Armando.

Uma violência, como bem observa Kleber na cena, nem sempre produzida pelo Estado, mas incrustada na sociedade: o morto teria tentado assaltar o posto e foi rechaçado, e quem o matou fugiu para brincar o Carnaval e evitar o flagrante de todo modo improvável. O crime compensa desde que se leve a melhor no enfrentamento entre as partes – aquele mundo do cada um por si e Deus contra todos, hobbesiano, de homens lobo de homens.

Fica o medo da violência e perseguição inscrito na mente de Marcelo/Armando, que sentimos também ao acompanhar a bela e contida personificação de Wagner Moura do homem em fuga. Um dos muitos pontos fortes do filme, como também o uso recorrente da metáfora do tubarão: uma imagem que, salvo engano, aparece inclusive no suor da camisa do pistoleiro que persegue Marcelo/Armando, na cena do orelhão que precede o tiroteio final.

O mesmo pistoleiro andrajoso de olhar profundo que reage com altivez ao ser comparado, por um colega de profissão do Sul (um mauricinho bem vestido), a uma besta que carrega açúcar no porto, quando o boa pinta tentava regatear terceirização de serviço com o rústico local. Onde tudo se resolve na violência, e o atraso do Norte é produzido pela visão, o preconceito e o privilégio do Sul, a vingança não tardaria. E quem levaria a melhor seria o nativo altivo, conhecedor do lugar que habita, como o amálgama étnico da história ensinada pelas escolas nos anos 1970 que derrotaria o invasor holandês na Guararapes do século 17.

Ao longo do caminho – digo, do filme -, aprenderemos que Marcelo/Armando, nosso protagonista/herói, é um professor de universidade federal pública, com extensa formação, devolvida plenamente à sociedade na forma de pesquisa e conhecimento sobre inovação na área de mobilidade (fala-se em lítio e carro elétrico ali por 1974, ainda antes do Proálcool que os militares, a partir da cana, efetivariam para mitigar os efeitos da crise do petróleo de 1973, época em que o Brasil estava bem longe da autonomia em energia fóssil). Como memória, esquecimento e apagamento são subtextos recorrentes na obra de Kleber, não apenas em O Agente Secreto, mas também em outros belos filmes como Aquarius e O Som ao Redor, vale a lembrança.

Descobriremos que, de certa forma, o antagonista de Marcelo/Armando não será o regime militar em si – uma sombra sem dúvida repressora, visível sobretudo nos capangas que encarnam os policiais civis com os usuais vícios morais -, mas sim o empresário do Sul, um tipo caricato que atende pelo nome de Ghirotti: um paulista orgulhoso de sua origem familiar em Gênova, sujeito preconceituoso, sem sofisticação intelectual e aparentemente semiletrado, apesar do assento em conselho de estatal.

O filho de Ghirotti parece um tipo ainda mais imbecilizado, o que nos faz crer que a riqueza no Brasil se constrói pela conjunção promíscua entre público e privado com efeitos hereditários nada meritocráticos. O famoso uso do público em benefício privado, eternizado na transferência de dividendos intrafamiliares – e articulado em extensa rede de clãs, no interesse do andar de cima, por vezes em associações criminosas.

Esta me parece a única fraqueza relativa do filme, embora nem tanto assim, como os fatos do noticiário nacional recente indicam: a falta de ambiguidade moral. Os personagens são como tipos weberianos ideais, não exatamente gente de carne e osso. Mas, de qualquer forma, como limpidamente mostrou Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, o tipo weberiano ajuda a compreender o país. No filme, como em Ghirotti & filho, entre copos de uísque e a eliminação de rivais, em alguns momentos resvala um pouco para a caricatura. Não que a caricatura seja estranha à vida real. Sabemos que sim, no Brasil a caricatura vive e anda por aí, como temos observado nas reverberações e revelações mais obscuras – e violentas – do caso Master.

Contudo, tal jogo de bem versus mal – que tínhamos visto também em Bacurau, no combate direto entre nacional e estrangeiro – esfria um pouco a capacidade de adesão plena ao que está sendo mostrado na tela se não pertencemos a qualquer bolha, seja de esquerda ou de direita, e se buscamos algum matiz, as áreas de transição de cor, na tela ou na vida real. Nesse sentido, o filme pode ser lido como mais um capítulo na recente polarização do país. A aceitação ou não tende a refletir o lado do balcão em que se está – sabendo também que é possível se sentar no balcão, desde que permitam.

Conversando com amigos de visão progressista, há uma identidade total com o filme: a elite brasileira, extrativista por natureza, seria exatamente algo como Ghirotti, a personificação do inescrupuloso, inculto e predatório que ao fim conduz ao ato criminoso, custe o que custar. Gente de direita, imagino, deve ver o filme talvez como um produto típico da “refundação” do Brasil pós-Bolsonaro; o Brasil voltou! E nada melhor do que mais um filme no Oscar para provar isso – ambos, por sinal, sobre os anos 70 e o regime militar.

Estadão Conteudo

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