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Fechar a Rádio Garças é isolar o Vale do Araguaia

A decisão de desativar o serviço de informação de voo conhecido como Rádio Garças, no aeroporto de Barra do Garças (MT), pode parecer, à primeira vista, apenas uma mudança técnica na gestão da navegação aérea. Não é. Trata-se de uma medida com consequências diretas sobre a segurança da aviação, o atendimento médico de emergência e o desenvolvimento econômico de toda uma região do país.

A Rádio Garças funciona por meio do chamado Serviço de Informação de Voo de Aeródromo (AFIS), prestado por operadores especializados que auxiliam pilotos com informações de tráfego, condições meteorológicas e coordenação operacional. A proposta da NAV Brasil é substituir esse sistema por um mecanismo automatizado de transmissão de dados. A promessa é de modernização. O risco, porém, é de retrocesso.

Sistemas automáticos são capazes de transmitir informações básicas, mas não substituem a capacidade humana de interpretar cenários complexos, avaliar situações de risco e orientar pilotos em momentos críticos. Em aeroportos de regiões interioranas, onde a infraestrutura é limitada e as operações podem envolver aeronaves de diferentes perfis, a presença de operadores humanos é parte essencial da segurança operacional.

A experiência recente da própria região demonstra isso. Durante os grandes incêndios florestais que atingiram o Vale do Araguaia em 2025, o aeroporto de Barra do Garças tornou-se base para operações aéreas de combate ao fogo. Em poucas horas, mais de 60 pousos e decolagens foram coordenados pela Rádio Garças, envolvendo aeronaves de combate a incêndio, voos comerciais e operações aeromédicas. O trabalho foi realizado sem incidentes. É difícil imaginar que um sistema automático teria capacidade de gerenciar uma operação dessa complexidade.

O impacto da decisão vai além da aviação. O aeroporto de Barra do Garças cumpre papel crucial no atendimento médico regional. UTIs aéreas utilizam regularmente a pista para remoções urgentes de pacientes em estado grave e transporte de órgãos para transplante. Muitas dessas operações ocorrem durante a madrugada ou em condições meteorológicas desafiadoras, momentos em que a presença de um operador de rádio pode ser decisiva para a segurança da missão.

A retirada desse serviço cria um cenário de incerteza operacional que pode comprometer justamente as operações mais sensíveis que são aquelas que envolvem salvar vidas.

Há também um aspecto econômico que não pode ser ignorado. Companhias aéreas que operam voos comerciais regulares costumam exigir níveis mínimos de suporte operacional nos aeroportos onde pousam. A ausência de um serviço de rádio pode inviabilizar ou desestimular essas operações.

Se isso ocorrer, o resultado será previsível com menos voos, menos mobilidade, menos investimento e maior isolamento logístico para uma região que já enfrenta desafios estruturais de integração com o restante do país.

O mais paradoxal é que essa decisão surge justamente em um momento em que o governo federal discute investimentos na melhoria da infraestrutura aeroportuária regional. Investir em pistas, equipamentos e terminais e, ao mesmo tempo, retirar serviços essenciais ao funcionamento do aeroporto não parece uma estratégia coerente de política pública.

Modernização tecnológica é bem-vinda e necessária. Mas modernizar não pode significar simplesmente retirar pessoas de sistemas que dependem da capacidade humana de análise e decisão.

A discussão sobre o futuro da Rádio Garças deveria envolver não apenas gestores da navegação aérea, mas também autoridades locais, operadores da aviação, representantes do setor produtivo e a própria sociedade regional. Fechar esse serviço não é apenas uma decisão administrativa. É uma escolha que afeta diretamente a segurança, a saúde e o desenvolvimento de uma das regiões mais importantes do interior do Brasil.

O Vale do Araguaia não pode ser tratado como um ponto distante no mapa. Para quem vive ali, o aeroporto de Barra do Garças é muito mais que uma pista de pouso. É uma porta de conexão com o país e, em muitas situações, uma porta de acesso à própria vida.

Antonio Horácio da Silva Neto é Juiz de Direito e Presidente da AMA – Academia Mato-grossense de Magistrados

Antonio Horácio da Silva Neto

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Antonio Horácio da Silva Neto é juiz de direito do Tribunal de Justiça de Mato Grosso e presidente da Academia Mato-grossense de Magistrados. Colaborador especial do Circuito Mato Grosso desde 2015.

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