Olinda Altomare Opinião

“Rosa e Momo”

Há filmes que nos contam histórias. Outros nos oferecem encontros. “Rosa e Momo” é um desses encontros raros, que não chegam com alarde, mas permanecem como memória afetiva muito tempo depois dos créditos finais.
Baseado na obra A Vida Pela Frente, de Romain Gary, o filme dirigido por Edoardo Ponti nos conduz a uma cidade italiana banhada pelo mar, onde luz e sombra parecem dialogar o tempo inteiro. Ali vivem duas solidões que, à primeira vista, não teriam motivo algum para se aproximar: Madame Rosa, sobrevivente do Holocausto, e Momo, um garoto de rua inquieto, marcado pela ausência e pela desconfiança.
Ela carrega a memória da dor histórica.
Ele carrega a dor cotidiana do abandono.
O encontro entre ambos nasce de um gesto áspero — Momo a assalta. Mas o que poderia ser apenas mais um episódio de violência urbana transforma-se em oportunidade de redenção. Rosa decide acolhê-lo. E nesse gesto há algo profundamente humano: a escolha de interromper o ciclo da dureza com um ato de cuidado.
O filme não romantiza o sofrimento. Rosa é uma mulher marcada por traumas profundos. Sua história como sobrevivente do Holocausto não é explorada de forma espetacularizada, mas como presença silenciosa que molda seu olhar sobre o mundo. Ela conhece o abandono extremo. Conhece a desumanização. Talvez por isso reconheça no menino a urgência de ser visto.
Momo, por sua vez, é agressivo, resistente, desconfiado. Ele testa limites porque nunca os teve. Sua rebeldia não é maldade; é defesa. E é nesse embate entre a fragilidade envelhecida e a rebeldia juvenil que o filme encontra sua força.
A grande lição que “Rosa e Momo” oferece é simples e profunda: o amor, quando verdadeiro, é capaz de reeducar o coração. Não se trata de amor idealizado, mas de amor concreto, cotidiano, imperfeito. Um amor que impõe regras, que cobra responsabilidade, que ensina dignidade.
O amadurecimento de Momo acontece aos poucos, quase imperceptível. Ele aprende que ser cuidado implica também aprender a cuidar. Aprende que pertencimento não é fraqueza. Aprende que afeto não é ameaça. E Rosa, ao acolhê-lo, encontra também uma forma de continuar vivendo para além das sombras do passado.

Sophia Loren entrega uma atuação de rara grandeza. Sua Madame Rosa não é heroína idealizada. É mulher cansada, orgulhosa, às vezes dura, mas profundamente sensível. Loren atua com o olhar, com o silêncio, com a respiração. Há cenas em que quase nada é dito, e ainda assim tudo é comunicado. Sua presença em tela carrega décadas de experiência e humanidade. É uma interpretação madura, contida e absolutamente comovente.
Ibrahima Gueye, como Momo, oferece contraponto vibrante. Sua espontaneidade e intensidade tornam o personagem crível e complexo. A química entre os dois é orgânica, construída com delicadeza e tensão na medida exata.
Do ponto de vista técnico, o filme é conduzido com sensibilidade estética. A fotografia privilegia tons quentes e naturais, explorando a luz do litoral italiano como metáfora de esperança que insiste em atravessar a dor. O mar, sempre presente, parece representar essa vida que continua, mesmo quando tudo parece ter sido interrompido.
A câmera é íntima, próxima dos rostos, quase respeitosa. Não há excessos visuais. Tudo serve à emoção. A trilha sonora acompanha com discrição, ampliando sentimentos sem jamais invadir a narrativa. A música surge como respiração suave, reforçando o tom contemplativo da obra.
“Rosa e Momo” é, acima de tudo, um filme sobre segundas chances. Sobre como pessoas feridas podem, juntas, construir abrigo. Sobre como o passado, por mais doloroso que seja, não precisa determinar o futuro.
Em tempos de pressa, intolerância e descartabilidade afetiva, a obra nos recorda que amadurecer é aprender a transformar dor em cuidado. É compreender que ninguém é apenas o erro que cometeu. É perceber que o verdadeiro heroísmo talvez esteja em permanecer humano depois de ter conhecido o pior da humanidade.
Ao final, o que fica não é apenas a história de uma amizade improvável. Fica a sensação de que, enquanto houver alguém disposto a acolher, haverá esperança.
Um filme delicado, profundo e necessário.
Vale a pena assistir — e sentir

Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial. @aeternalente

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Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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