Essa carta é uma confissão pública de fracasso. Faço-a somente em meu nome, porque não fui autorizado pelos outros fracassados a representá-los. Entretanto, ela deve ser entendida como lamento de toda uma geração. É uma carta triste como convém a um reconhecimento de culpa e à admissão de uma derrota.
Houve um tempo, acreditem—quando os homens ainda ocupavam lugar de destaque na hierarquia social — as mulheres sabiam cozinhar, preparavam petiscos para os maridos e, principalmente, os obedeciam. Estavam sempre em casa quando estes chegavam, faziam janta e não davam palpite em assuntos masculinos, de que não entendiam ou fingiam não entender.
Não duvidem, sei que parece absurdo, mentiras de velhos saudosistas, mas é a pura verdade. Pois foi essa situação de comando e liderança que nós, hoje na derradeira idade, recebemos de nossos pais. Era nossa obrigação mantê-la e não parecia nenhuma proeza, pois a coisa vinha nesse ritmo desde quando descemos das árvores e passamos a andar sobre duas pernas.
Observem, pobres herdeiros do nosso fracasso, o mundo que estamos lhes deixando, comparem-no com o do tempo de seus avós, chorem conosco. Nada será suficiente para purgar nossa culpa. Pegamos uma empresa redondinha, enxuta, sem nenhum conflito interno ou crise de autoridade e a entregamos falida, com os processos confusos, sem presidente e o que é pior, com remotas perspectivas de recuperação.
Tudo começou quando as mulheres decidiram frequentar faculdades. Lá descobriram que poderiam fazer tudo que homens fazem até melhor que eles. Quase tudo, porque algumas coisas elas não queriam aprender.
Na verdade, elas descobriram que era muito interessante desaprender algumas habilidades enquanto aprendiam outras. Pra que saber cozinhar se almoça no McDonald’s e pede uma pizza à noite? Qual a necessidade de ir ao mercado se pode mandar o marido? Dirigir o próprio carro é muito bom, mas pra que saber trocar pneus se tem o companheiro para fazê-lo? Este, na verdade, continua a ter outras funções insubstituíveis: matar barata atrás de móveis, tirar a lagartixa do banheiro, espantar a perereca do tanque…
Hoje as mulheres — vocês sabem — são maioria em quase todos os cursos universitários; tornaram-se profissionais liberais competentes; funcionárias públicas graduadas; empresárias destacadas. Disputam conosco as melhores vagas de trabalho, e, embora tenham diversos neurônios a menos, estão nos superando em quase tudo.
“Enfants de la Patrie” é hora da virada. Não permitam que as descendentes dessas espertalhonas que venceram seus pais sigam humilhando seus descendentes e mandando neles. Não aceitem que elas fiquem apenas com a parte do pacote que escolheram, vendam-lhes o pacote completo: que troquem o pneu furado, peguem sapo no closet, tirem o lixo do quintal…
Pensando bem — leitores machos — essa não deve ser uma boa ideia, quem não soube segurar a peteca não será bom conselheiro. É melhor deixar como está. Se elas se saírem bem dessas novas tarefas, vão achar que nós não temos nenhuma serventia; daí para descartar-nos é um pulo.
Todo cuidado é pouco, como não sabemos como ganhar delas, é melhor obedecê-las.
Renato de Paiva Pereira.

