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Dólar fecha estável apesar de alta global da moeda americana

Depois de operar em baixa firme pela manhã, o dólar ganhou força ao longo da tarde, acompanhando a onda de valorização da moeda americana no exterior, e passou a segunda etapa de negócios entre estabilidade e leve alta. Operadores afirmam que o real se comportou bem diante do tombo de mais de 2% da bolsa doméstica e do aumento do desconforto com o quadro fiscal, após aprovação de medidas no Congresso que elevam os gastos públicos.

Com mínima de R$ 5,2166 e máxima de R$ 5,2651, dólar à vista encerrou a sessão desta quarta-feira, 4, a R$ 5,2495 (-0,01%). A divisa tem variação de 0,04% nos três primeiros pregões de fevereiro, após recuo de 4,40% em janeiro – a maior desvalorização mensal desde junho de 2025, quando caiu 4,99%.

“O comportamento do dólar permanece muito atrelado ao exterior desde o início do ano. Vejo a taxa de câmbio em um nível relativamente baixo se for levado em conta o tamanho do nosso desafio fiscal”, afirma o economista-chefe da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, citando projetos no Congresso e iniciativa do governo que ampliam os gastos públicos.

Foram aprovadas no Congresso propostas que ampliam remuneração de servidores e criam novos cargos públicos com impacto orçamentário estimado em R$ 5,3 bilhões. O Senado também aprovou o programa Gás do Povo, que deve atender 17 milhões de famílias em todo o país.

Para o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, o real permanece até certo ponto imune a ruídos políticos e fiscais em razão da Selic elevada – que não apenas aumenta a atratividade do carry trade como pune o carregamento de posições em dólar – e do apetite externo por ativos emergentes.

Ele ressalta que o desconforto com a indicação do secretário de Política Econômica do ministério da Fazenda, Guilherme Mello, à diretora do Banco Central pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pouco se refletiu na taxa de câmbio, apesar do estresse provocado nos juros futuros. Reportagem da Reuters afirma que o presidente Luiz Inácio de Lula está inclinado a bancar a sugestões de Haddad para a diretoria do BC, que incluem também o economista Tiago Cavalcanti, professor de Cambridge e bem avaliado pelo mercado.

“O apetite do investidor estrangeiro por divisas emergentes tende a permanecer forte. Houve um fluxo recente muito grande para a nossa bolsa e para a renda fixa. Temos uma janela favorável que tende se manter pelo menos até a corrida presidencial começar a esquentar a partir de abril”, afirma Galhardo.

À tarde, o BC informou que o fluxo cambial foi positivo em US$ 5,086 bilhões em janeiro, após saída líquida de US$ 12,191 bilhões em dezembro, mês tradicionalmente marcado por aumento de remessas de lucros e dividendos ao exterior. Em janeiro, o canal financeiro apresentou entrada líquida de US$ 6,222 bilhões.

O sócio e fundador da Eytse Capital, Sergio Goldenstein, observa, em nota, que o maior apetite por ativos domésticos fez o real ter o melhor desempenho entre as moedas emergentes em janeiro, mês marcado pelo enfraquecimento global do dólar.

O índice DXY – que mede o desempenho da moeda americana no exterior – avançava 0,22% no fim do dia, ao redor dos 97,600 pontos, após máxima aos 97,730 pontos. Analistas afirmam que o Dollar Index apresenta uma recuperação temporária em meio a ajustes de posições após redução dos temores de perda de independência do Federal Reserve com a indicação de Kevin Warsh para a presidência do BC americano por Donald Trump.

Entre indicadores, pesquisa ADP mostrou revisão para baixo do número de vagas criadas no setor privado americano em dezembro, de 41 mil para 37 mil vagas. Já o índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) do setor de serviços medido pelo Instituto para Gestão da Oferta ficou estável a 53,8 em janeiro, em linha o esperado.

As atenções se voltam agora a divulgação de dados do mercado de trabalho que foram adiados em razão da paralisação parcial de quase quatro dias do governo americano. Amanhã, sai o relatório Jolts, com número de vagas abertas em dezembro. Já o payroll de janeiro será divulgado na próxima quarta-feira, 11.

Bolsa

No dia seguinte à retomada da renovação de recordes, o Ibovespa ameaçou nesta quarta-feira, 4, o que seria a sua maior queda livre desde o chamado “Flávio Day” – como ficou conhecido o dia do anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência da República, e o sismo resultante na precificação dos ativos. Se em 5 de dezembro passado, o índice da B3 mergulhou 4,31% naquele fechamento – após ter renovado recorde intradia na mesma sessão -, nesta quarta o ajuste negativo chegou a ficar perto de 3%.

Porém, com a melhora em Vale (ON +0,49%) em direção ao fechamento, o índice moderou a perda desta quarta a 2,14%, aos 181.708,23 pontos. Uma variação, que na mínima do dia (180.268,54), superava 5 mil pontos em relação ao nível de abertura, correspondente à máxima do dia, de 185.670,99.

Ao fim, foi a maior perda diária para o Ibovespa desde 16 de dezembro (-2,40%). O giro financeiro, como observado desde janeiro, permanece fortalecido na B3, a R$ 37,0 bilhões, refletindo o aumento da exposição do investidor de fora a Brasil, com a rotação de ativos desde os Estados Unidos. Após a realização de lucros desta quarta-feira, o Ibovespa limita o ganho da semana a 0,19% que coincide com o acumulado no mês de fevereiro. No ano, sobe 12,77% e, em 12 meses, agrega 45,20%.

Na B3, entre os maiores bancos, as perdas de Santander Unit ficaram em 2,70%, após a divulgação do balanço da instituição financeira, que abriu a temporada do quarto trimestre de 2025. Principal ação do segmento, Itaú PN caiu 3,29% – o banco divulga balanço, depois do fechamento da B3. Bradesco PN cedeu 3,23%. As gigantes de commodities mostraram resiliência maior ao movimento negativo, com destaque para Vale ON, principal papel do Ibovespa, conseguindo se descolar no fechamento. Petrobras cedeu 0,57% na ON e 0,16% na PN.

Na ponta ganhadora do Ibovespa, apenas sete das 85 ações que compõem o Ibovespa conseguiram escapar do campo negativo no fechamento, com Braskem (+1,95%), Porto Seguro (+1,51%), Rumo (+1,33%) e Suzano (+1,04%) à frente. No lado oposto, destaque para Raízen (-13,27%), Totvs (-12,89%), Hypera (-10,30%) e Cogna (-6,91%).

Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, os resultados do Santander, na abertura da temporada de balanços do quarto trimestre de 2025, destravaram uma correção em todo o setor financeiro, que se espalhou por outros segmentos, em sinal de alguma “exaustão” do forte e longo rali do mercado acionário brasileiro. “Outros papéis importantes no índice, como Petrobras, também mostraram recuo, embora mais modesto, em movimento de correção apesar da alta das commodities de referência na sessão”, acrescenta.

No quadro mais amplo, certa cautela também prevaleceu nas bolsas de Nova York neste meio de semana, com foco ainda voltado para os resultados de empresas americanas, em especial as do setor de tecnologia, sob escrutínio desde o fim do ano passado em meio a dúvidas quanto a uma bolha de IA. Por lá, o Nasdaq fechou o dia em baixa de 1,51%, à frente do S&P 500, que cedeu 0,51%, enquanto o Dow Jones subiu 0,53% na sessão.

“Há um movimento técnico em andamento ainda nos mercados dos Estados Unidos e, apesar da diversificação para emergentes como o Brasil representar uma fatia muito pequena do estoque alocado por lá, representa muito, em termos de fluxo, para a Bolsa daqui”, diz Higor Rabelo, especialista e sócio da Valor Investimentos, que acredita que o movimento de venda de ativos americanos e rotação global tende a continuar beneficiando o ingresso de recursos na B3.

Juros

A curva a termo percorreu o pregão desta quarta-feira, 4, com ganho de inclinação, ainda que a alta nos trechos mais distantes não tenha passado de 10 pontos-base ante os ajustes anteriores. A ponta curta, por sua vez, operou em estabilidade, com viés de baixa.

A dinâmica mais pressionada dos DIs do miolo e da parte longa da curva teve como pano de fundo o fortalecimento global do dólar, que inverteu o sinal negativo observado até a primeira etapa dos negócios.

Já no âmbito doméstico, agentes do mercado divergem sobre se o aumento nos prêmios de risco refletiu mais a questão fiscal, devido ao projeto de lei aprovado na terça-feira no Congresso que amplia a remuneração de servidores e cria cargos no Executivo, ou, novamente, mal-estar com a nomeação de Guilherme Mello para um dos cargos vagos na diretoria do Banco Central.

Segundo notícia da Reuters divulgada no fim da tarde de quinta, o presidente Lula se encaminha para confirmar a indicação, que deve se destinar à diretoria de Política Econômica, uma das mais importantes da autarquia.

Já com os negócios fechados, a Câmara aprovou um PL que abre 16,3 mil cargos no Ministério da Educação, 1.500 cargos no Ministério de Gestão e Inovação e cria um Instituto Federal em Patos (PB), com impacto orçamentário estimado em R$ 5,3 bilhões para 2026. A Casa ainda deu aval a outro projeto que traz gratificações para servidores do Congresso, em valor estimado de cerca de R$ 800 milhões.

Com os investidores digerindo os dois temas, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 avançou de 12,687% no ajuste anterior para 12,75% no fechamento. O DI para janeiro de 2031 aumentou de 13,079% no ajuste antecedente a 13,15%. Já o vértice negociado para janeiro de 2027 oscilou de 13,418% no ajuste a 13,405%, com apostas de redução de 0,50 ponto da Selic em março ainda ganhando terreno.

Segundo um profissional de renda fixa de uma grande gestora de recursos, que falou sob condição de anonimato, o impacto orçamentário do PL dos servidores é “inexpressivo”. Mas o conjunto de notícias do dia, com os ruídos fiscais e em torno da nomeação de Mello, somados a um ambiente externo de bolsas em queda e dólar para cima e, por fim, ajustes técnicos após um fechamento expressivo dos DIs em janeiro, seria condizente com a inclinação da curva na sessão.

“O mercado ainda não está confiante em um ciclo maior que 300 pontos-base de corte na Selic. Parece não ter um ‘trigger’ imediato para o mercado ir para 400 pontos-base de corte, por exemplo. Então qualquer ruído pode gerar alguma correção nos juros”, disse o participante do mercado.

Gestor de portfólio da Connex Capital, Gean Lima pondera que as movimentações na curva de juros desta quarta foram modestas. De qualquer forma, avalia que tanto a preocupação com o quadro fiscal quanto a indicação – agora não mais uma especulação – do atual secretário de Política Econômica da Fazenda para integrar o quadro de diretores do BC fizeram preço.

“O papel da diretoria a que Mello deve ser indicado é relevante, porque realiza todas as pesquisas econômicas e análises. É um cargo que tem um certo poder para influenciar outras cadeiras na diretoria do BC”, menciona Lima. Os investidores estão receosos devido à proximidade de Mello com o governo petista, que aumentaria o risco de interferência do Executivo em decisões da autoridade monetária, e em razão de sua orientação mais heterodoxa na economia.

Já um outro profissional do mercado, que falou de forma reservada à Broadcast sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, avalia que a sinalização expansionista vinda do Congresso parece ter sido mais relevante para explicar a abertura dos DIs médios e longos. Ele destaca, porém, que a variação nas taxas ficou praticamente em linha com a volatilidade diária. “Mas com 24 horas de volta do Congresso após recesso, já tivemos este sinal”, disse ele, referindo-se ao PL com impacto no orçamento público aprovado terça.

Estadão Conteudo

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