Olinda Altomare Opinião

Questão de Tempo

Sob a aparência leve de uma comédia romântica, Questão de Tempo esconde uma reflexão delicada e profunda sobre o tempo, a família e o modo como escolhemos viver os nossos dias.

A narrativa acompanha Tim Lake, um jovem comum que descobre ter a capacidade de voltar no tempo. A princípio, esse dom parece um convite para corrigir erros, conquistar o amor e ajustar o destino aos próprios desejos. Contudo, o filme, com rara sensibilidade, vai deslocando o foco: o verdadeiro aprendizado não está em mudar o passado, mas em habitar plenamente o presente.

 A grande lição de vida que a obra oferece é simples e, por isso mesmo, poderosa: viver cada dia como se fosse único, atento aos pequenos gestos, às conversas banais, aos encontros que parecem insignificantes, mas que formam a substância da existência.

O filme ensina que o bem viver não depende de controlar o tempo, mas de olhar para ele com gratidão.

 Quando Tim aprende a viver cada dia como se já o tivesse revivido uma vez, descobre a beleza escondida na rotina, no riso cotidiano, no amor silencioso da família. É uma ode à presença, à atenção e à ternura.

É justamente nesse aprendizado sobre a delicadeza do cotidiano que, para mim, surge um dos momentos mais simbólicos do filme, revelador da importância dos pequenos gestos de agradar. No episódio do casamento, Mary surpreende Tim ao caminhar até o altar ao som de “Il Mondo”, de Jimmy Fontana. A escolha da canção, carregada de melancolia e beleza, transforma o instante em memória viva. Não se trata de grandiosidade, mas de cuidado; não é espetáculo, mas escuta. O gesto revela a sensibilidade de quem conhece profundamente o outro, de quem guarda na memória o que o emociona. Ali, o tempo parece suspenso não por magia, mas por afeto, ensinando que a felicidade, muitas vezes, habita os detalhes escolhidos com carinho e oferecidos em silêncio. Do ponto de vista técnico, Questão de Tempo é conduzido com elegância. A direção é de Richard Curtis, conhecido por seu olhar humano e afetuoso sobre as relações, o que se confirma plenamente nesta obra. Domhnall Gleeson entrega um protagonista sensível e contido, enquanto Rachel McAdams confere à personagem Mary uma doçura natural, sem excessos. O destaque emocional fica por conta de Bill Nighy, no papel do pai, cuja atuação é comovente pela simplicidade e pela verdade que transmite. A relação entre pai e filho é, talvez, o coração mais pulsante do filme.

A fotografia, assinada por John Guleserian, aposta em luz suave e enquadramentos acolhedores, valorizando ambientes cotidianos e reforçando a sensação de intimidade. Não há grandiosidade visual desnecessária; tudo é pensado para servir à emoção e à narrativa, como se a câmera também aprendesse a observar a vida com mais calma.

A trilha sonora cumpre papel essencial na construção do tom emocional,  contendo 26 músicas e trazendo nomes como The Killers, The Cure, Amy Winehouse, Nick Cave, Ellie Goulding e muito mais. Com canções delicadas e bem escolhidas, que dialogam com os estados de espírito dos personagens, a música não invade, apenas acompanha, tornando-se parte do tecido afetivo da história.

Ao final, Questão de Tempo não é apenas um filme sobre viagens temporais, mas sim um convite silencioso para desacelerar, para estar inteiro onde se está, para compreender que o verdadeiro milagre não é voltar no tempo, mas perceber que o agora já é suficiente.

 Uma obra que permanece no espectador como um lembrete gentil: a vida acontece, sobretudo, nos instantes que costumamos apressar.

Vale a pena assistir.

Olinda Altomare

About Author

Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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