A morte do cachorro Orelha não é apenas a perda de um animal. É um acontecimento que fere a consciência coletiva e nos obriga a olhar, sem desvios, para a brutalidade que se manifesta quando a violência alcança um ser absolutamente indefeso.
Orelha não tinha como se defender, não representava ameaça, não provocava conflito. Sua existência era simples, guiada pelo instinto da confiança e pela fidelidade silenciosa que os animais oferecem ao mundo humano. Ainda assim, foi alvo de uma agressão extrema, praticada por adolescentes, o que torna o fato ainda mais inquietante.
Quando jovens são capazes de tamanha crueldade contra um ser vivo vulnerável, o episódio deixa de ser isolado e passa a ser um sinal de alerta.
O triste fato também chama a atenção para o tipo de comportamento que vem sendo reiteradamente observado entre alguns jovens, o que afasta qualquer tentativa de tratá-lo como episódio isolado. A repetição de atos de violência, especialmente contra seres indefesos, revela um padrão preocupante, que exige reflexão profunda e responsabilidade coletiva. Diante disso, impõe-se a indagação sobre qual sociedade estamos construindo e como desejamos que ela evolua, pois uma comunidade que tolera ou naturaliza a crueldade na juventude corre o risco de colher, no futuro, relações marcadas pela indiferença, pela agressividade e pela perda do valor essencial da vida.
Vivemos tempos difíceis, marcados por uma escalada de violência que atravessa todos os campos da vida social. Com inquietante frequência, assistimos a pais matando filhos, filhos matando pais, ao crescimento alarmante dos feminicídios e à atuação cada vez mais cruel das organizações criminosas, sinais claros de que a vida vem sendo, aos poucos, banalizada, esvaziada de seu valor mais fundamental.
A violência contra animais, sobretudo quando praticada de forma consciente, costuma revelar algo mais profundo: a ausência de empatia, o esvaziamento do senso de limite e a incapacidade de reconhecer o outro como digno de respeito — ainda que esse outro não fale, não reclame, não reaja.
Quem naturaliza o sofrimento de um animal aprende, perigosamente, a banalizar a dor alheia.
É inevitável levantar hipóteses sobre as origens desse comportamento. Uma delas repousa na falta de limites claros. Limites não como repressão cega, mas como referências éticas, afetivas e morais, capazes de ensinar que nem tudo é permitido, que há fronteiras que não devem ser ultrapassadas.
Quando o “não” deixa de existir, a violência encontra terreno fértil para crescer.
Outro ponto sensível é o acesso irrestrito à internet, muitas vezes sem qualquer supervisão. Ambientes virtuais que estimulam o ódio, a crueldade, a humilhação e a violência acabam funcionando como espaços de dessensibilização. O sofrimento passa a ser visto como espetáculo, desafio ou entretenimento, corroendo lentamente a capacidade de compaixão.
Não se pode ignorar, ainda, a possível ausência dos pais, não apenas a ausência física, mas a emocional. Pais distantes, exaustos ou alheios à formação ética dos filhos deixam lacunas que o mundo, nem sempre com boas intenções, se encarrega de preencher.
A educação do caráter não ocorre por acaso: ela exige presença, diálogo, exemplo e vigilância amorosa.
A morte de Orelha, portanto, não deve ser esquecida nem minimizada. Ela nos convoca a refletir sobre os sinais do que estamos deixando passar e sobre a urgência de reconstruir valores básicos de respeito à vida.
A violência contra um animal indefeso é, muitas vezes, o prenúncio de violências maiores.
Olhar para esse fato com seriedade não é apenas um gesto de justiça ao animal que se foi, mas um compromisso ético com o futuro da sociedade que desejamos construir.
Tempos difíceis e tristes.

