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‘Anaconda’, com Selton Mello, aposta em metalinguagem e humor para reimaginar clássico cult

“Ah não, outro remake?”. Foi essa a reação do cineasta Tom Gormican quando a Sony Pictures o procurou para fazer um novo longa-metragem de Anaconda. Mas foi justamente esse incômodo que levou o cineasta, conhecido pelo divertido O Peso do Talento, a encontrar um caminho diferente para a produção. “Decidimos encontrar nossa própria maneira cômica e única de entrar na história”, explica o diretor ao Estadão, em entrevista feita durante a CCXP25.

O resultado, que estreou em 25 de dezembro, está longe de ser apenas um remake do filme B de 1997, estrelado por Ice Cube, Jennifer Lopez e Owen Wilson. Em vez de simplesmente recriar aquela história, Gormican apostou na metalinguagem – uma característica marcante de seu trabalho anterior – para construir uma narrativa sobre quatro amigos (Jack Black, Steve Zahn, Paul Rudd e Thandiwe Newton) que viajam à Amazônia para rodar justamente uma nova versão de Anaconda.

“Acho que era uma ideia cômica muito engraçada colocar quatro pessoas inteiramente despreparadas para uma cobra gigante em uma posição onde suas vidas reais corressem perigo”, diz o diretor, que desenvolveu o roteiro ao lado de seu parceiro Kevin Etten. A proposta é fazer do cinema o próprio tema do filme: remakes, reboots e “sequências afetivas” viram alvo de piadas constantes, enquanto os personagens demonstram plena consciência de sua própria insignificância.

A abordagem cômica funciona especialmente porque Gormican entende o que é o original. “Nunca quisemos realmente refazer algo ou reiniciá-lo, então fizemos algo completa e totalmente original inspirado no filme”, afirma. “Eu não quero tocar no original, não quero tocar naqueles personagens, essas são ideias de outra pessoa e são tão boas e têm tantos seguidores”.

Selton Mello e o ambiente acolhedor

A grande surpresa brasileira do elenco é Selton Mello, que interpreta Santiago, dono de uma anaconda dócil que acaba envolvido na confusão toda. Para o ator brasileiro, a experiência de atuar em inglês foi facilitada pelo ambiente de trabalho. “Eu me senti muito confortável atuando em inglês, mas eu vou te falar por quê: o ambiente era agradável”, conta Selton ao Estadão. “O Tom tem essa coisa de gostar dos atores e de tentar fazer com que a gente fique à vontade e experimente coisas.”

O ator destaca que o clima descontraído com Jack Black e Paul Rudd permitiu até mesmo improvisos que ele não imaginava conseguir fazer em outro idioma. “Estava ali completamente à vontade na língua e um monte de coisa improvisada que eu não tinha ideia que eu conseguiria fazer em inglês”, revela.

Tom Gormican não poupa elogios ao ator brasileiro. “Cada diretor americano para quem mostramos este filme liga imediatamente e pergunta: ‘Quem é esse cara?’”, conta. “Alguns deles viram Ainda Estou Aqui e ficam tipo: ‘aquele é o mesmo cara?’.”

Questionado sobre possibilidades de carreira internacional, Selton brinca: “Estou esperando meu vilão do James Bond”.

Há ainda uma dimensão especialmente emotiva para Selton Mello em Anaconda: o ator dublou seu próprio personagem para a versão brasileira do filme. “Eu fui dublador profissional dos 12 até os 20 anos. Então eu passei toda a minha adolescência num estúdio de dublagem dublando astros internacionais: Sean Penn, Tom Cruise, Robert Downey Jr.”, relembra.

“Anos depois, eu entrei na tela e fui parar em um filme de Hollywood e agora eu tive a experiência de me dublar. E vou te falar, isso foi muito comovente, porque é como se fosse assim: eu estou vingando os dubladores”, emociona-se o ator. “Aquele menino foi longe. E isso é bonito de sentir. Eu agora olhei para a tela e não era mais um astro internacional, era eu mesmo.”

Entre acertos e tropeços

Anaconda não é perfeito. Rodado inteiramente na Austrália, o longa comete alguns deslizes, como a escalação da portuguesa Daniela Melchior para interpretar uma personagem brasileira, com direito a dublagem em cenas mais longas em português. A decisão causa estranhamento e levanta questionamentos sobre representatividade.

Ainda assim, o diretor se esforçou para trazer autenticidade brasileira ao projeto. “Acho que para nós o mais importante é que seja uma homenagem à Amazônia e que traga alguma autenticidade em termos da trilha sonora e da instrumentação que usamos”, explica Gormican. “Trazer nossos atores brasileiros favoritos para a mistura, para combiná-los com caras como Jack Black e Paul Rudd, parecia uma oportunidade incrível e espero que isso transpareça na produção do filme.”

O resultado é um filme que funciona como entretenimento honesto e apaixonado pelo cinema. Com um elenco afinado – destaque para Jack Black e Steve Zahn -, Anaconda entrega momentos de comédia genuinamente engraçados e uma reflexão sobre os desafios de realizar sonhos criativos.

“Fazer um filme é algo muito corajoso e vulnerável quando esse é o seu sonho”, pontua o diretor. “Todo mundo tem algo que teve medo de perseguir. E quando você está fazendo um filme, sempre parece que o perigo está logo ali na esquina.”

Estadão Conteudo

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