Nacional

Em um ano, 1,2 milhão de trabalhadores geram renda em casa

Desde o primeiro trimestre de 2018, mais 1,2 milhão de pessoas passaram a usar a própria casa como local de trabalho. Já são 4,5 milhões de brasileiros nessa situação, de acordo com estudo da consultoria IDados a partir de estatísticas do IBGE. O crescimento é explicado principalmente pela crise prolongada do mercado de trabalho, que ainda gera poucos empregos formais, mas também reflete as facilidades trazidas pela tecnologia para eliminar o tempo e o dinheiro gasto com transporte e alimentação fora de casa. 

O teletrabalho ajudou a técnica em administração Karen Luz, de 24 anos, a aumentar a poupança da família para a casa própria. Com carteira assinada, trabalha remotamente para uma empresa de telecomunicações enquanto toca sua própria marca de doces artesanais. Ao passar a trabalhar em casa, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, deixou para trás a rotina diária de três horas no trem e no metrô para ir à empresa, no Centro. 

“O que ganho com os doces ainda não dá para os gastos. O mercado é bem oscilante, e preciso de estabilidade. Tenho meu filho que precisa de mim", diz Karen, que ainda cursa faculdade de Administração. 

Maioria por conta própria 

Ter um trabalho remoto com carteira assinada, como o de Karen, ainda é para uma minoria, apenas 1,1% do total de pessoas que hoje geram renda sem sair de casa. A maior parte dos que estão nessa situação é de trabalhadores por conta própria: cerca de 3,9 milhões. 

“O crescimento da informalidade explica boa parte do aumento do trabalho em casa. É um fator que pesa bastante", afirma Tiago Barreira, pesquisador do IDados, responsável pelo estudo. 

A maior parte dos que trabalham em casa ganha pouco (metade ganha menos de um salário mínimo) e não tem instrução (27,1%), mas a parcela de trabalhadores domiciliares com ensino superior está aumentando: subiu de 16,3% no início de 2018 para 19,3% no segundo trimestre deste ano. Também aumentou, de 4,8% para 6,1%, a participação dos que ganham mais de cinco salários mínimos com atividades realizadas em casa. 

O psicólogo João do Nascimento, de 24 anos, atendia em uma sala sublocada no Centro de Niterói, mas decidiu receber pacientes em casa para cortar o gasto com o aluguel. Também faz consultas por meio do computador: 

“Se continuasse a atender na sala, estaria hoje pagando para trabalhar. Depois comecei a atender via skype. Muitos pacientes até preferem on-line. Pretendo aumentar meus atendimentos virtuais, mas sem excluir o presencial”. 

Segundo Marcelo Neri, diretor da FGV Social, o avanço tecnológico facilitou o trabalho em casa, e o trânsito caótico das grandes cidades combinado ao alto custo do transporte também estimula essa opção. Ele cita a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), divulgada na semana passada pelo IBGE, que mostrou que o transporte passou a ser a maior despesa das famílias, superando alimentação. 

“E o computador com internet ainda está crescendo nas famílias”, observa Neri. 

Dois terços são mulheres 

A presença feminina entre os que trabalham em casa é maior: elas são 68,8%. Apesar de vantagens como a carga horária flexível, o procurador do Trabalho Rodrigo Carelli observa que há perdas na comparação com o emprego tradicional. Segundo ele, quem trabalha em casa tem menos proteção. Não há controle de jornada e o trabalhador ainda fica com o ônus de manutenção dos equipamentos que usa desde a reforma trabalhista: 

“O trabalho em casa é mais precário. Ainda há uma questão de gênero. Geralmente, são mulheres que fazem teletrabalho. Acumulam cuidados de filhos e idosos, da casa, cumprindo tarefas que a sociedade impõe. Assim, perpetuamos a sobrecarga delas”. 

Flávia Rissino já trabalhava remotamente como atendente de telemarketing em sua casa, em Itaboraí, na região metropolitana, mas acabou perdendo o emprego formal em 2016. Ela foi obrigada a mudar de atividade, mas manteve o local de trabalho. Ela já fazia doces para vender desde 2014, e essa passou a ser sua principal fonte de renda. 

“Fui demitida porque a empresa acabou com trabalho remoto, e eu não queria me deslocar todo dia. Como já fazia doces, resolvi continuar a trabalhar em casa”. 

Mas a crise também atingiu seu negócio. Após sentir uma queda de 40% nas encomendas, Flávia teve que procurar outra renda. Para manter as contas em dia e pagar a faculdade de Pedagogia, começou trabalhar como inspetora em uma creche. Ganhando um salário mínimo, ela percebeu outra oportunidade: usar o carro a caminho do trabalho para fazer transporte escolar. 

“As encomendas são muito instáveis, e a faculdade vence todo mês. Comecei a rota para pagar a faculdade. Hoje, o transporte e os doces são metade da minha renda", conta. 

O fim do home office na empresa de Flávia vai na contramão do que vêm experimentando grandes companhias. Segundo pesquisa da consultoria Mercer com 680 companhias no país, 35% já têm a opção de trabalho em casa em alguns dias da semana e 62% adotaram horários flexíveis. Segundo Nelson Bravo, consultor da Mercer, esse é um benefício que agrada os profissionais e ajuda a cortar custos. Os escritórios podem ter menos estações, já que empregados não vão todos os dias. 

“A procura por consultoria vem crescendo, desde 2017, com a reforma trabalhista, que regulou a situação. A oferta de teletrabalho atrai e retém funcionários, que não precisam gastar tempo no trânsito e têm mais flexibilidade na rotina", diz Nelson Bravo, consultor da Mercer. 

Redação

About Author

Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

Você também pode se interessar

Nacional

Comissão indeniza sete mulheres perseguidas pela ditadura

“As mulheres tiveram papel relevante na conquista democrática do país. Foram elas que constituíram os comitês femininos pela anistia, que
Nacional

Jovem do Distrito Federal representa o Brasil em reunião da ONU

Durante o encontro, os embaixadores vão trocar informações, experiências e visões sobre a situação do uso de drogas em seus