Maria de Fátima* tem 37 anos e trabalha como copeira durante a noite, em Cuiabá (MT). Certo dia ela chegou em casa e seu marido a passou a acusar de traição e a afirmar que estava determinado a matá-la. Foram quatro anos de relacionamento com agressões físicas e verbais constantes, inclusive durante a gravidez, e ela não esperava que o limite fosse a tentativa de assassinato.
Durante visita na Casa de Amparo às mulheres vítimas de violência doméstica de Cuiabá, a equipe do Circuito Mato Grosso encontrou Maria que estava acolhida no local há apenas três dias e, com seu filho no colo, concordou em compartilhar como foi aquele dia de terror.
Em uma segunda-feira, Maria chegou do trabalho e por volta das 8h30 da manhã o seu companheiro, Ricardo Pereira*, 47 anos, pastor e desempregado, tentou enforcá-la três vezes com uma corda. A vítima o chutou, mas mesmo assim ele tentou esganá-la. Maria conta que via ódio nos olhos do agressor.
“Ele já tinha me batido antes. Me dava soco, pontapé, murro… Mas ao ponto de pegar uma corda, uma corda azul de elástico…Foi uma violência que durou até em torno de meio dia, até que consegui correr e pedir ajuda”, inicia seu relato.
Maria de Fátima conta que o companheiro ficava a acusando de traição. E após essa manhã inteira de agressão, um conhecido tentou ajudá-la e foi conversar com Ricardo, mas não adiantava. Ele estava disposto a cometer o assassinato.
“O ódio dele era incessante. Ele queria me matar de todo jeito”.
Por volta das 14h as coisas tinham se acalmado um pouco e ela foi tentar dormir, visto que havia passado a noite inteira trabalhando e não teve um descanso desde então, mas ele voltou a agredí-la. “Ele dizia ‘eu vou matar você, eu vou matar o seu filho, eu vou tacar (sic) fogo em você”.
Maria tem seis filhos, mas apenas os dois mais novos, que são gêmeos de dois anos, são frutos de seu relacionamento com o agressor. Ele cuidava bem dos filhos biológicos, porém agredia os que são apenas filho de Maria e também os ameaçava de morte.
“Ele pegou a corda de novo e disse que não ia fazer nada comigo. Era para eu ir ao fundo de casa e me suicidar. Ele disse ‘você mesma vai sujar suas mãos’”, relembra a vítima.
Ricardo Pereira então começou a agredir um dos filhos de Maria, até que ela entrou na frente e ele lhe deu um murro no rosto e novamente começou a acusá-la de adultério. “Tudo isso porque ele achava que eu estava traindo ele no serviço”.
Mais uma vez o agressor pegou a corda azul e foi para cima da vítima que o empurrou. Ele não desistiu, pegou uma faca. Ela conseguiu pegar os filhos, que estavam sendo ameaçados e fugir. Os gêmeos ficaram em casa.
Era por volta das 15h e ela sentou na rua com os filhos, sem saber o que fazer. Já era 19h30 quando um amigo da família foi tentar conversar com o agressor. Maria ficou preocupada com os menores e também foi para casa. Quando chegou na sala, Ricardo a olhou com ódio e disse “Não adianta! Eu vou matar essa mulher de todo jeito. Nem que eu vá preso seis meses, um ano, eu vou matar essa mulher de todo jeito”.

Maria e os filhos que estavam na rua decidiram ir tomar banho, enquanto o amigo tentava acalmar o agressor. Até que Ricardo pegou o celular de Maria, que estava descarregado, e novamente começou a agredí-la. Ele pegou uma pá, começou a correr atrás dela e queria o carregador do celular.
A vítima conseguiu fugir para a rua com os filhos. Seu amigo que até então estava tentando acalmar Ricardo, a mandou acionar a polícia. Enquanto isso, o agressor estava em casa com os filhos menores, quebrando tudo.
Por volta das 23h, ela foi para a Central de Flagrantes registrar o Boletim de Ocorrência e seus filhos foram levados para o plantão do Conselho Tutelar. Lá, Ricardo começou a acusar Maria de Fátima de fazer parte de uma facção criminosa.
Ela conta que isso era uma tentativa de impedir que ela ficasse com os filhos. Maria começou a se defender, contou que também era pastora, que trabalhava e que queria os filhos de volta.
Não teve jeito. Naquela madrugada Maria precisou voltar para a casa onde tudo aconteceu e os filhos ficaram sob custódia do Conselho Tutelar. A vítima relata que não conseguiu dormir. Maria de Fátima estava com medo de que a qualquer momento Ricardo invadisse a casa.
Logo que amanheceu ela começou a agir. A vítima precisava sair de casa, visto que o agressor iria passar por uma audiência de custódia ao meio dia e poderia ser liberto. Com uma amiga, ela foi ao Conselho Tutelar pedir novamente pela guarda dos filhos.
Ela compartilha que a coordenadora do Conselho não queria devolver as crianças e dizia que a razão era a falta de segurança de todos os envolvidos e as graves ameaças de Ricardo.
Maria de Fátima conseguiu ter os filhos de volta em seus braços, se encaminhou para a Delegacia, pediu proteção e foi encaminhada à Casa de Amparo de Cuiabá. Maria de Fátima e seus quatro filhos estão vivendo sob proteção do município e Ricardo segue preso.
O convívio violento
“Eu tento me conter, mas do nada eu começo a chorar, começo a relembrar a violência. Mês passado ele discutiu comigo por causa de uma mensagem de grupo de WhatsApp. Ele me deu um soco na boca e eu menti no trabalho que tinha caído de bicicleta”.
Ricardo é o terceiro casamento de Maria de Fátima. Ela tem seis filhos. Dois pares de gêmeos e um casal entre eles. Apenas os gêmeos de dois anos de idade que são filhos de Ricardo.
São quatro anos de relacionamento e desde o primeiro ano juntos ela recebia chutes, pontapés e puxões de cabelo. Durante a sua gravidez, há três anos, ele já tinha ciúmes de quando ela saia para trabalhar e a chutou. “Ele vivia achando que eu tinha outro homem e que estava traindo ele”, conta.
Após o episódio da gestação, ele pediu desculpas, mas as discussões voltaram após o parto. No final de 2018 até a agressão em julho de 2019, ele piorou. Aos poucos Maria cortou relação com familiares, vizinhos e amigos. Ricardo tinha ciúmes de qualquer um.

“Ele falava que mulher é vagabunda, que tem que morrer, que ficava procurando… Ele dizia que eu não estava obedecendo ele, que eu era uma mulher rebelde e que ele era o homem da casa. Ele queria de todas as formas que eu vendesse tudo e fosse embora para outro estado”.
Durante o relacionamento, apenas Maria de Fátima trabalhava e sustentava o lar. No primeiro ano de relacionamento, Ricardo pediu demissão e desde então nunca mais arrumou um emprego. Amigos da vítima contam que ele recusava trabalhos e mentia para Maria que não estava encontrando vagas.
“Ele brigava e falava ‘Você está me chamando de vagabundo? Eu não sou vagabundo’. Ele brigava sempre. Ele queria que eu ficasse sustentando ele. Ele queria me ver chegar e sair. Ele queria me monitorar. Queria me controlar em tudo”.
A vítima compartilha que frequentemente Ricardo ameaçava tirar os seus filhos e ainda dizia que a faria ser demitida. A vítima, inclusive, já parou os estudos por ciúmes do parceiro.
A violência não era apenas com a esposa. O filho dela de 12 anos era constantemente agredido pelo padrasto. Certa vez, a mãe deixou a criança ir a um parque do bairro em que moravam. Quando o menino ia sair o homem negou e ainda acertou socos em seu rosto. “Ele disse que estava ensinando o meu filho a respeitá-lo”.
Atualmente Maria esta acolhida na Casa de Amparo, cujo endereço é sigiloso, com acompanhamento de assistentes sociais. Seus filhos mudaram de escola e de creche e, para trabalhar, ela precisa de um local seguro.
“As crianças menores choram muito e sentem falta do pai. Hoje eu deito e levanto e parece que foi arrancado aquele peso de mim. Eu sai daquela prisão”.
O que diz a lei
A Lei Maria da Penha foi sancionada em agosto de 2006 e coíbe e previne a violência doméstica e familiar contra a mulher. A lei tem esse nome em homenagem a mulher que lutou para ver o seu agressor condenado. Além disso, ela serve para todas que se identificam com o sexo feminino, ou seja, heterossexuais, homossexuais e as transexuais.
Se encaixa na lei: a violência física: empurrar, chutar, amarrar, bater e violentar;
Violência psicológica: humilhar, insultar, isolar, perseguir, ameaçar;
Violência moral: caluniar, injuriar, difamar;
Violência sexual: pressionar a fazer sexo (mesmo dentro do casamento), exigir práticas que você não gosta, negar o direito de uso de qualquer contraceptivo;
Violência patrimonial: reter o seu dinheiro, destruir ou ocultar seus bens objetos, não te deixar trabalhar.
Disque denúncia: 180 – Central de Atendimento à mulher
190 para acionar a Polícia Militar
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* Foram utilizados nomes fictícios para proteger a identidade da vítima



