Cidades

Bombeiros de MT treinam cães para operações de resgate, busca e salvamento

O Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso conta com sete cães para atender ocorrências em Cuiabá e Várzea Grande, mas que também estão disponíveis para situações como o caso de Brumadinho – Minas Gerais. Eles ficam no 2° Batalhão (2°BBM) e o treinamento que dura à vida toda do animal, desenvolve aptidões específicas e acaba se tornando uma relação de brincadeiras e companheirismo entre condutores e cães.

Dentro do 2° BBM está o Núcleo de Operações de Busca, Resgate e Salvamento com Cães, o Nobresc, também conhecido como canil dos bombeiros.

“A gente tem a estrutura de um canil no quartel, mas o canil serve de apoio. Os cães são criados nas casas dos condutores, junto com a família e outros cães. A gente começou a observar um resultado melhor. O cão acaba sendo mais equilibrado, ele é mais sociável e interage melhor com pessoas e animais. Para o nosso trabalho isso é essencial”, conta o Major  BM Rafael Ribeiro Marcondes, do 2° BBM.

2° Sgt BM Dias e a Mel; Maj BM Marcondes e a Sheron; Sd BM Sampaio e a Atenas; 2° Sgt BM Everson e a Dara
(Foto por: Gabriel Philipe Neves)

O Major explicou ao Circuito Mato Grosso que a decisão de ter um cão parte do próprio bombeiro militar e, após essa decisão, eles passam por capacitações, ou seja, cursos técnicos que os orientam sobre o comportamento animal e eles precisam ter conhecimento de técnicas de condicionamento, já que são os próprios que treinam os cães.

“É uma situação atípica porque ainda não faz parte da formação básica de um bombeiro. A preparação dos cães acaba sendo uma matéria nova e os militares vão ter contato com ela em uma especialização”, narra o Major.

Além disso, o militar que se prontificou a ser condutor de um cão pode escolher a raça e o sexo do futuro pet. Após isso, é feita uma seleção dos filhotes e eles são selecionados para desenvolver três especialidades dentro da equipe. Entre elas são os cães que buscam restos mortais, cães de resgate que podem encontrar múltiplas vítimas e os que trabalham em buscas específicas, ou seja, ele trabalha na procura de uma pessoa perdida na mata, por exemplo.

“A gente sabe que cada ser humano tem um odor específico e o cão consegue reconhecer isso facilmente, ele vai atrás do odor que foi apresentado para ele. A gente coloca uma peça de roupa ou outra coisa dentro de um saquinho e esse saco e apresentado para o cão. Naquele momento ele vai entender que tem que procurar o odor que foi apresentado. Então pode ter passado outras pessoas, ele vai focar naquele odor e vai procurar aquela pessoa específica”, explica.

No caso dos cães com aptidão para o resgate de várias vítimas não é feito esse procedimento de apresentar o odor, pois geralmente não se sabe exatamente quem são as vítimas ou quantas são, e o cão vai procurar por qualquer pessoa e avisam com latidos, visto que geralmente ele pode estar fora do campo visual do condutor.

Dara e o seu condutor o 2° Sgt BM Everson 
(Foto por: Gabriel Philipe Neves)

No caso dos cães que vão trabalhar com a busca de restos mortais, Marcondes contou que é apresentado o odor que o conteúdo tem ao cão. Caso ele demonstre interesse, remexa e queira conhecer, essa já pode ser considerada a aptidão do animal.

Assim que o filhote sai da ninhada, já começa todo um trabalho de preparação, treinamento com situações que podem acontecer durante o trabalho e o cão é apresentado aos ambientes que ele vai trabalhar enquanto estiver na equipe. “Essa preparação vai para a vida toda do cão”, aponta Marcondes.

Após a fase inicial do treinamento que vai até cerca de 18 meses da vida de um cão de porte médio, ele realizará uma prova de certificação e junto de seu condutor eles serão avaliados. Caso sejam aprovados, ele conquistam o certificado e estão aptos ao trabalho oficial como binômio – nome dado à dupla.

“A certificação é basicamente uma simulação de uma situação real, dentro das especificidades. Ajuda a manter um controle de qualidade dos cães”.

Sobre o treinamento pela parte dos bombeiros condutores, o Major Marcondes relata que eles acabam considerando um hobbie e realizam por prazer, não apenas como trabalho.  “A gente consegue associar essa atividade que para um militar é prazerosa e conciliar com atividades essenciais dos bombeiros que é a utilizações desses cães em operações de busca e salvamento. Sempre que a gente precisa localizar a vítima para poder salvar, os cães são fundamentais e tem apresentado resultados fantásticos para essas situações”.

Marcondes conta que a carreira de um cão dos bombeiros pode durar em média 10 anos, caso não tenha sofrido acidentes ou doenças. “Na aposentadoria ele vira pet na vida do condutor, tem uma vida normal com a família e apenas deixa de trabalhar”.

O Major relata também que como os cães são criados pelos próprios condutores há custos que são pagos com o dinheiro pessoal do bombeiro, mas há alguns processos de licitação para custeio que esbarram em dificuldades burocráticas e algumas empresas fornecem apoio para alimentação e medicamento. Não se esquecendo de mencionar os bombeiros que tem formação em medicina veterinária e por vezes também ofertam esse suporte aos animais.

Entre relações

Entre os sete cães que ali treinam, está a Sheron que tem como tutor o Major Marcondes. Ela é um labrador de sete anos e foi o único animal do canil até 2017. Sheron já atendeu mais de 65 ocorrências e é especialista tanto para buscas de pessoas vivas em áreas urbanas e rurais, quanto para encontrar restos mortais. Inclusive, esteve na primeira equipe de Mato Grosso nas buscas em Brumadinho.

“Ela representa para a instituição esse início, representa toda a fase mais difícil. E é gratificante ver aonde ela chegou e os resultados que ela alcançou. É como eu costumo conversar com os militares, quando a gente vê o sucesso dos cães e dos condutores, a gente tem como o sucesso de um filho. A gente cria na família, tem o amor que a gente tem”, relata Marcondes.

A equipe também já conta com a certificada Dara, também labrador, de aproximadamente dois anos, que tem como condutor o 2° Sargento BM Everson e é especialista em rastreio, encontra vítimas pelo odor. Há também a Luna, três anos, da raça malinoa, conduzida pelo Soldado BM Luiz e que está apta para buscas por vivos em áreas rurais. E tem a Kiara, do Tenente BM Teodoro, labrador de cinco anos, que atualmente está nas buscas por segmentos de corpos em Brumadinho.

Ainda em treinamento e pela busca da certificação como binômios, estão as filhotes Mel do 2° Sargento BM Dias, Atena do Soldado Sampaio, ambas da raça labrador, e a Garmin do Sargento Sá e que é da raça American English Connhound.

No dia da visita da equipe do Circuito Mato Grosso ao Nobresc, estavam presentes a Sheron, Mel, Atena e a Dara, juntamente de seus condutores, e foi demonstrado como é o treinamento dos cães.

Atena "jogando verde" para o Soldado Sampaio durante o treinamento
(Foto por: Gabriel Philipe Neves)

Nas quatro demonstrações, bombeiros da equipe se escondiam e elas deveriam encontrá-los. Na primeira demonstração Sheron foi solta no campo dentro do 2°BBM, local com vários aparelhos de treinamento, e encontrou a sua vítima em questão de segundos. A mesma etapa foi feita com Atena, de sete meses, e ela levou mais tempo. A filhote rodou por todo o território, cheirava, conhecia e por um momento começou a latir para o lugar errado, como se indicasse que tinha encontrado a vítima, mas não tinha, por isso o Soldado Sampaio precisou incentivá-la a continuar a busca.

O Major Marcondes explicou que ela tentou jogar verde, pois os cães ganham recompensas e brincadeiras quando realizam seu trabalho, por isso é importante que durante o treinamento o condutor saiba onde a “vítima” está escondida para incentivar que o cão continue a busca e somente seja recompensando quando encontrar a pessoa.

Após esse primeiro modelo de treinamento, foram realizados mais dois. Nestes últimos bombeiros do quartel se esconderam no bairro em que fica localizado o 2°BBM, em Várzea Grande, e os cães deveriam localizá-los a partir do seu odor.

A demonstração iniciou com a Dara, já certificada, e ela foi conduzida pelo Sargento Everson. O bombeiro colocou o boné do companheiro escondido dentro de uma sacola e abriu para que Dara sentisse o odor. Após esse momento ela saiu do quartel em busca de sua vítima e o encontra no meio da mata próxima ao batalhão.

Mel é a próxima e também é uma filhote em treinamento e mais agitada para o início da busca. Guiada pelo seu condutor o Sargento Dias, dentro da sacola com o boné há pedaços de petiscos. Questionado, o Major Marcondes conta que isso é apenas para os filhotes e os incentiva a cheirar dentro da sacola.

Após todas as demonstrações, devemos ressaltar que os cães ganham recompensas, carinho e brincadeiras como forma de parabéns pelo achado, mas também é um incentivo ao trabalho. Marcondes explicou que isso também acontece em uma situação real, mas eles evitam fazer perto das vítimas, visto que seria estranho eles brincarem e festejarem algo com os cães, próximo a uma tragédia.

2° Sgt Dias acompanhando a Mel na busca pelo bairro
(Foto por: Gabriel Philipe Neves)

Brumadinho

O Sargento Everson Brandão Duarte, condutor da Dara, foi como chefe da primeira equipe dos bombeiros de Mato Grosso que foram atuar na busca por desaparecidos no soterramento da mineradora em Brumadinho – Minas Gerais. Ele foi acompanhado de mais dois binômios – dupla formada por militares condutores e cães, entre eles a Sheron.

“Foi a primeira experiência em um cenário daquele porte, com a imensidão que houve ali de vítimas. Um ambiente muito contaminado, com muita presença de odor humano, mas nossos cães superaram as expectativas. Os nossos cães encontraram oito segmentos de corpos”, conta o Sargento Everson que como bombeiro nunca havia se deparado com um caso como aquele.

Ele conta que ficaram auxiliando nas buscas por 15 dias e há todo um cuidado com os cachorros dos bombeiros lá no local de buscas. Há uma equipe de veterinários que avaliam os cães diariamente com exames e no final da tarde, após as buscas, eles tomam banho e são avaliados novamente.

O Major Marcondes conta que as equipes ficam em média de 15 dias na localidade e que a terceira já está em Brumadinho. Todas são compostas por três bombeiros, sendo dois condutores e mais dois cães.

Ele explica que estão sendo revezados cães de todo o estado, pois há canis em cidades como Sorriso, Barra do Garças e Jaciara, mas somente seis de todos estão habilitados para esse tipo de busca. Inclusive, a Sheron vai retornar para Brumadinho nesta última equipe, acompanhada pelo seu condutor.

“Os cães não são colocados em risco, embora a atividade seja de risco, há toda uma preocupação e acompanhamento deles, diariamente lá na operação”, explica o Major.

Já o Sargento Everson, que é o condutor da Dara, conclui ao dizer que que é muito gratificante poder trabalhar com um cão. “É um ente da família! Você respeita, cuida, sofre junto e sorri com as conquistas”.

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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