Cuiabá registrou 967 acidentes de trânsito de 1º de janeiro a 12 de setembro deste ano, 66% envolvendo motociclistas, com um saldo de 51% de mortes. No estado, conforme a Secretaria de Segurança Pública (Sesp), foram 5.332 ocorrências de janeiro a julho envolvendo este mesmo público, com um total de 342 mortes.
O desrespeito às regras de trânsito somado a uma frota de veículos, que neste ano chegou a 556.612 carros e motos na capital e Várzea Grande, vem transformando ruas e avenidas em um campo de batalha, onde vence quem pode mais. Mas quando o tema é vida, o motociclista é o mais frágil e morre mais.
Para o presidente interino do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), José Eudes Malhado, que é servidor do órgão e acompanha a problemática, não há malha viária que consiga acompanhar uma evolução média na frota em 8% ao ano. Mesmo no período de crise o mercado automobilístico avançou, gerando desafios diários à gestão pública.
“Diante de um contexto de disputa de espaço, as motocicletas são o meio de locação mais fácil, barato e rápido, porém o mais propício a matar ou morrer. Grande parte desses condutores não está consciente dos riscos e por isso não respeita regras básicas: avançam sinal, ultrapassam pela direita, costuram por dentro sem observar o ponto cego dos carros”.
Na capital, as avenidas Fernando Correa e Miguel Sutil, por onde circulam entre 45 mil e 38 mil veículos diariamente, concentram o maior número de acidentes e infrações de trânsito. Os horários de maior fluxo de manhã, entre 6h30 e 8h30, e final da tarde, 17h30 e 18h30, intensificam os conflitos. Para os motoristas quase sempre muito apressados, respeitar o limite de velocidade é exceção e não regra.

com saldo de 342 mortes
O reflexo aparece no balanço da Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) que registrou 190.331 multas de janeiro a setembro deste ano, sendo 55% (105.460) por transitar acima da velocidade permitida. Na sequência estão avanço semafórico (25.830); estacionar em local/horário proibido (9.533) e na calçada (5.592); não usar cinto de segurança (5.366), e utilizar o celular (4.767). No ano passado, foram 355.847 multas.
Vida e morte
A dona de casa Francisca Rosane de Jesus, de 36 anos, sofreu um acidente em novembro do ano passado e desde então sua vida mudou radicalmente, pois perdeu os movimentos do braço esquerdo. Como a lesão do plexo braquial é irreversível e uma nova cirurgia traz muitos riscos de morte, agora ela enfrenta sessões de fisioterapia para se adaptar às limitações. “Apesar de ser muito difícil, sempre agradeço porque eu ou meu marido poderíamos ter morrido”.
Ela conta que estava no passageiro da moto pilotada pelo marido, Joelson Meira, 26, quando ambos foram arremessados para fora da Avenida Fernando Corrêa por uma caminhonete em alta velocidade, que não prestou socorro. Inconsciente, ele teve um coágulo no cérebro, mas já voltou a trabalhar. Agora, a ex-diarista teve duas paradas cardíacas, ficou 26 dias internada, 18 deles na unidade de terapia intensiva (UTI).
“Eu estava semi-inconsciente, caída no chão, mas conseguia ver a movimentação no meu entorno. Com a queda, meu braço praticamente se esfacelou e por sorte continuou preso pela pele, desde então, passei por enxertos na região onde ficam artérias importantes e por isso é um risco abrir de novo. O que posso dizer é que tudo ficou diferente, hoje eu sei que a vida não é um brinquedo e o trânsito um lugar muito sério, onde temos que ter responsabilidade e atenção, por nós e pelos outros”.
A fisioterapeuta da Policlínica do Coxipó, Nely Ormond, trabalha na reabilitação há 5 anos e confirma que 50% do público que chega é de acidentados do trânsito, a maioria motociclista que sofreu fraturas em membros superiores ou inferiores. Alguns casos, como da Francisca, são de difícil reversão, por isso é feita a readaptação. A média de tratamento é de três meses a um ano. “O perfil de quem chega geralmente é composto por homem na faixa etária de 20 a 40 anos, uma parte tem que repensar a questão profissional”.

uma lesão irreversível no braço esquerdo
Afastado há mais de um ano do trabalho, o soldador e pintor José Alves das Chagas, 42 anos, faz reabilitação para reverter uma lesão na perna esquerda, após sofrer três acidentes sucessivos, um deles, o mais grave, ao conduzir sua motocicleta. “Estava saindo do trabalho e indo para casa, perto do Pedra 90, quando um rapaz que dirigia embriagado me acertou, eu caí na pista, quebrei a tíbia e tive a perna esmagada”. Ele não vê a hora de sarar para retomar suas atividades normais. “Hoje fico dependendo da ajuda das pessoas, é muito difícil”.
Educar para a vida
Luciana Aguiar Melo é agente de trânsito desde 2012 em Cuiabá. Neste mês em que é comemorada a Semana Nacional do Trânsito, com ‘Dia D’ na terça-feira (25), ela tem feito visita a várias escolas públicas, privadas e filantrópicas para ensinar como as crianças devem se comportar no trânsito. “Elas ainda estão em tempo de internalizar as regras, entender que nossa postura no trânsito garante acima de tudo a vida, depois nos ajudam chamando a atenção dos pais”.
Apesar das ações realizadas pela Semob com o público adulto, Luciana explica que o impacto é muito menor, além disso, subtende-se que quem tirou a carteira de habilitação conhece bem as regras do Código Nacional de Trânsito. Mas na prática, os cerca de 200 agentes de trânsito se deparam todo tipo de irregularidade. “Hoje grande parte dos acidentes são provocados por uso de celular, por isso se tornou uma infração gravíssima”.
Paralelamente excesso velocidade associado à embriaguez. No caso das motocicletas, principalmente, a ultrapassagem pela direita é comum e provoca acidentes diariamente. Outra falha grave é quando a família prioriza comprar a moto, por ser mais barata que um carro, e depois se acomoda e não tira a CNH.
“É difícil de explicar isso a um adulto, que o uso de cinto de segurança atrás é tão importante quanto na frente, que apenas isso garante que os filhos, por exemplo, não sejam arremessados contra o para-brisa ou contra quem está na frente durante uma colisão, é um acessório vital. Não basta dizer ‘eu te amo’, tem que cuidar da segurança do seu filho”.
Para Luciana, as pessoas estão cada dia mais violentas no trânsito porque carregam todo o seu estresse e as angústias para o volante. Outra coisa marcante é a pressa, normalmente não se programam para sair mais cedo e isso muda completamente a postura diante das regras e dos demais motoristas e pedestres. “Essa falta de educação tem muito a ver com hábitos saudáveis e amorosos no trânsito, que comportem paciência, respeito e tolerância. Do que vale chegar antes, mas deixar de ser um cidadão de bem? Do que vale ir mais rápido se posso matar morrer? No começo é difícil viver respeitando as regras, mas depois, com o tempo, vira automático. Nossa maior esperança para mudar essa realidade são as crianças”.

diz que as crianças estão mais abertas a aprender as regras
Parar em fila dupla em contornos, em frente a escolas, furar fila, não respeitar faixa de pedestre, falar ao celular enquanto dirige, inclusive é muito comum flagrar motociclistas fazendo isso em plena luz do dia. Vagas de idosos e deficientes normalmente são usadas por pessoas comuns que alegam ‘só um minutinho’. É o famoso ‘jeitinho brasileiro’ de favorecimento próprio em detrimento do outro.
“Mesmo que alguém tenha errado com você e lhe trancado, por exemplo em uma vaga de estacionamento, não perca a paciência, ligue para o 118 (Ciosp), ou seja, busque ajuda, não se deixe levar pela raiva. Não vale a pena se envolver em um ato de violência porque nunca sabemos quem está do outro lado. Para nós, que somos autoridade, já é difícil, somos recebidos com cinco pedras na mãos, imagine uma pessoa comum”.
Direção defensiva
A maioria dos acidentes de trânsito, uma média de 64%, é causa pelo condutor, normalmente por dirigir sob o efeito de álcool ou outras drogas, ter postura imprudente (e trafegam em alta velocidade, por exemplo), demonstrar imperícia (falta de experiência ou conhecimento) e ainda ser negligente, que é falta de atenção e observação.
Conforme estatística do Detran Mato Grosso, apenas 6 % dos acidentes têm como causa os problemas da via e 30% se originam por problemas mecânicos; por isso adotar a direção defensiva é sem dúvida uma opção viável, porque traz técnicas de não ser afetado mesmo quando os outros fazem errado ou diante de condições adversas da vida.
O motorista defensivo não dirige apenas, ele está sempre pensando em segurança, tem uma postura pacífica, consciência pessoal e de coletividade, tem humildade e autocrítica. “Mesmo sem conhecimento especializado de mecânica, é possível evitar acidentes realizando um trajeto respeitando as regras, sem abusos com o veículo ou atrasos de horário, sem faltar com a cortesia devida, é muito mais uma postura interna, uma forma de viver”, explica o presidente do órgão estadual, José Eudes Malhado.
Algumas dicas importantes: redobrar a atenção em dias de chuva, mantenha a distância do veículo da frente, respeite a sinalização, cuidado nas ultrapassagens (nunca pela direta), faça revisões periódicas no seu veículo, evitar freadas bruscas, fazer curvas fechadas, não dirigir com sono.



