Atualmente, a Praça Ipiranga é um ponto de circulação intensa de pessoas, recentemente passou por obras de reforma em sua estrutura. O espaço ficou oito meses fechado e os investimentos para recuperação foram orçados em R$ 311 mil. Os trabalhos foram concluídos e a praça entregue novamente para uso da população no último dia 4 de junho.
A praça fica localizada em uma região que reúne um conjunto de construções tombadas pelo patrimônio histórico. Em virtude disso, todo projeto de intervenção precisa passar por um processo de aprovação do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Realizada pela prefeitura de Cuiabá, a obra não recebeu aprovação do Iphan. Segundo a instituição, porque o projeto não atendia aos parâmetros da normativa para a região e por isso foi embargada. Mesmo com esse parecer de reprovação, o Poder Executivo municipal ignorou as recomendações do órgão e realizou as obras.
Após a reabertura, a obra foi bastante questionada pelas autoridades e outros órgãos competentes. Embora a reforma tenha mudado para melhor o visual da praça, com paisagismo, troca de piso, reconstrução de calçadas, piso tátil, construção de banheiros, o trabalho realizado no local é alvo de protestos e indignação.
Uma análise técnica de reforma foi elaborada pela Secretaria de Estado de Cultura, após um pedido do promotor de justiça do Ministério Público do Estado de Mato Grosso na 29ª Promotoria de Defesa e da Ordem Urbanística.
Esse pedido de análise teve como objetivo a verificação de impactos visuais negativos que possam ter causado danos ao bem tombado.
No dia 24 de abril, três profissionais da secretaria (um engenheiro civil, Marcos Antônio Ferreira Sampaio, um engenheiro eletricista, Jonil Oliveira Jesus, e o arquiteto Robinson de Carvalho Araújo) elaboraram um laudo sobre a reforma.
O relatório apontou que alguns locais sofreram intervenções, como o revestimento cerâmico da pavimentação e a requalificação do chafariz utilizando elementos definidos como “falso histórico”.
Além disso, foi detectado que, no projeto apresentado pela prefeitura, os desenhos do calçamento e dos canteiros não são os mesmos. Houve também a construção de um banheiro. Todos esses fatores demonstram que houve alteração na hora de executar o projeto.
A construção de um banheiro pode até representar algo positivo para os frequentadores, mas essa obra alterou as características originais da Praça Ipiranga. Os técnicos consideram que essa construção acarreta movimentação de terra em camadas arqueológicas e que precisariam passar por análise específica devido ao tratamento. Foi considerado que essa construção causou obstrução na visão parcial de um prédio tombado, a antiga Iomat, onde já funcionou o primeiro Mercado Público da Cidade e atualmente funciona o Ganha Tempo.

O relatório também aponta que o chafariz sofreu intervenções em sua estética na recuperação do espelho d’água, que teve acabamento em ladrilho hidráulico amarelo em suas extremidades, considerado “um falso histórico” e que pode confundir os visitantes que não têm conhecimento técnico sobre o assunto, o que causaria uma confusão visual.
Um ponto de ônibus na Praça Ipiranga está em fase de construção. Toda a obra seria bem semelhante à existente na Praça Alencastro. Essa construção foi considerada como de grande proporção. A equipe técnica a considerou como uma barreira visual, alterando a ótica urbana, gerando um bloqueio da visão permanente da praça.
Não são apenas a Secretaria de Cultura e o Iphan que falam de todas essas divergências presentes nas reformas e que descaracterizaram parte da estrutura na histórica Praça Ipiranga. A historiadora Neila Barreto afirma que os trabalhos realizados pela prefeitura de Cuiabá foram uma tentativa de revitalização do local, mas isso não foi feito de forma adequada.
“Eles tentaram revitalizar, reformaram a praça, fizeram um banheiro, mas em minha opinião não é adequado”, comentou Neila.
Ainda de acordo com a historiadora, o banheiro até poderia ser construído para atender a população, mas isso deveria ser feito em outro ponto, em algum local nas proximidades da praça para não acarretar alteração na estrutura.
“O movimento da população deve ser livre em torno da praça para caminhar. Quando você coloca um banheiro no meio da praça, você coloca uma pedra no meio do caminho, interrompe o passeio do pedestre”, diz a historiadora.
Além disso, ela questiona de forma veemente as cores da pintura do chafariz, pois ter um monumento pintado em preto e dourado não representa absolutamente nada do passado e, diante disso, não houve recuperação para manter a característica original.
“Não existe naquele período o material da tinta, em minha opinião não houve um restauro, houve uma mutilação”, disse.
Além disso, a pesquisadora explicou que outras cidades do Brasil e até mesmo de outros países preservaram seus chafarizes da forma original, mas que isso não aconteceu em Cuiabá.
“Por que Minas Gerais preservou, por que o Rio de Janeiro preservou, por que Portugal preservou? Então, deve haver uma harmonia entre o novo e o velho”, comentou.
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