Acontece em Cuiabá, no dia 10 de julho, a partir das 17h, um Ato em memória dos 20 anos da Chacina do Beco do Candeeiro, que tirou a vida dos adolescentes Adileu Santos, o Baby (13 anos), Edgar Rodrigues de Arruda, o Indinho, (14 anos) e Reginaldo Dias Magalhães, o Nado, (16 anos). O ato é organizado pela Associação dos Familiares Vítimas da Violência (AFVV) e pelo projeto "Psicanálise na Rua".
A professora Gabriela Rangel, do departamento de Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), idealizadora do projeto “Psicanálise na Rua”, em conversa com o Circuito Mato Grosso, relatou que o trabalho do grupo é dar amparo aos moradores que enfretam a situação de rua hoje em Cuiabá.
“A ideia do psicanálise na rua, é dar amparo aos que precisam, nós abrimos um consultório, alugamos o espaço, estamos fazendo uma pequena reforma, e vamos abrir um consultório de psicanálise para moradores em situação de rua, escutar as pessoas, estaremos de portas abertas, sem estado, sem instituições é uma equipe que se sustenta pela sua própria força”.
“Esse ato se solidariza com as vítimas da chacina do Beco do Candeeiro, pois é por essas vias que a gente chega a esses descendentes da chacina do beco, que hoje estão com 30 anos ou mais, e na época tinha entre 14 e 15 anos. Muitos deles foram testemunhas da chacina, você conversa e começa conhecer esses meninos, que são uma história viva na cidade”, completou Gabriela.
O policial militar Adeir de Souza Guedes Filho, de 49 anos, foi julgado, acusado de ter assassinado três adolescentes no Centro histórico de Cuiabá. O triplo homicídio ocorreu no dia 10 de julho de 1998, na Rua 27 de Dezembro, na região conhecida como Beco do Candeeiro.O assassino usou uma pistola para atirar nos quatro adolescentes. Um deles conseguiu fugir. O principal suspeito das execuções foi inocentado dos crimes em 2014.
Ela ainda explicou que o projeto se solidariza com todo o movimento de revolta da sociedade civil aconteceu há 20 anos atrás e culminou na escultura criada por Jonas Lima Corrêa Neto, que dedicou sua obra para que a Chacina não fosse esquecida.
“A AFVV ainda luta por justiça, esse processo corre, o acusado é absolvido, mas querem abriram um novo julgamento e tudo isso está na pauta da agulha do que é, esse pedaço do Centro histórico, para qual ninguém quer olhar. O Psicanálise na Rua se instalou justamente aí, e solidariza com a memória desse ato”, explicou a professora.
A professora Gabriela Rangel explicou que os casos de agressões contra moradores de rua ainda acontece constantemente na capital. Em conversa com as vítimas, estas relatam que apanham por coisas simples ou por simplesmente serem moradores de rua.
“Existem muitos relatos de violência por parte dos moradores do Morro da Luz, semanalmente ocorre violência, não precisamente por parte da polícia, e sim por seguranças de empresas privadas. As vítimas se queixam que o maior índice de violência é na Rodoviária de Cuiabá e na Praça Alencastro, mas existem outros”.
Outro caso, que a professora contou foi de um morador em situação de rua branco, com mais de 40 anos que relatou que apanhou do dono de uma padaria, só pelo fato de ter ido ao local pedir pão para comer.
“Ele contou que ao chegar ao local, o dono dessa padaria que volta e meia dá pão a alguns desabrigados o mandou esperar que iria pegar o alimento. Passado alguns minutos o empresário chamou o morador de rua e pediu que ele fosse pela garagem para pegar o pão, e no local pediu que a vítima entrasse para pegar o alimento. O desabrigado quando fez o solicitado pelo proprietário da padaria, levou um tapa na cara e ao reclamar e questionar o porquê da violência, levou outro tapa na face. O morador não é criminoso, ele cata latinhas, é um coitado e apanhou só por pedir um pão”, denuncia Gabriela.
O outro tipo de violência que constante, segundo a professora, é entre os próprios desabrigados.
“Eles brigam muito entre si, e algumas vezes por motivos fúteis, como já chegou história de moradores de rua que brigaram por causa simplesmente de uma unidade de cigarro, não era um maço, nem pacote, apenas um cigarro, houve troca de agressões. É uma passagem ao ato direto, eles não conseguem uma mediação na base da conversa, eles já partem para as vias de fato”, finalizou a professora.
A "Ato em memória dos 20 anos da Chacina do Beco do Candeeiro", terá intervenções junto às pessoas em situação de rua e apresentações artístico-culturais. Será uma noite de celebração à vida. Uma noite para todos os Babies, Indinhos e Nados que sofrem com a invisibilidade social e descaso do poder público.
Os organizadores convocam as pessoas a participar e engajar no projeto e dar amparo a essas pessoas.
Atualmente a Polícia Militar de acordo com Gabriela Rangel tem compreendido a necessidade de uma segurança integrada que pense na assistência social e na questão da saúde.
“Hoje a base da PM no Centro tem olhado com outros olhos, pois a segurança não é simplesmente descer a porra e pronto, é uma de equipamentos públicos que deveriam estar funcionando e não estão e não abordam essa população. Hoje quem aborda essa população é a PM e a companhia do Centro, que já tem o reconhecimento que não adianta ficar espantando como mosca esses moradores”.
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