Cidades

Brasil joga na Rússia e Copa 2014 ainda traz tristeza e decepção

Uma vida em escombros metafóricos e reais. Assim tem vivido, depois de ter sido enredado em uma sucessão de erros do poder público, o senhor Benedito Addôr da Silva, 65 anos. Batizado aos pés da Igreja de Nossa Sra. do Rosário com o homônimo do santo da devoção de sua mãe, jamais imaginou que acabaria açodado pelo Estado, nos últimos 13 anos.

Para tentar arrancá-lo da casa na qual viveu por mais de cinco décadas, fizeram de tudo um pouco. Primeiro o impediram de a reformar. “Foi a primeira vez [2005] que o Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] veio aqui com um papel dizendo que eu não podia mais mexer na minha casa, porque ela entrou na classificação de casario histórico do centro de Cuiabá”.

Depois quiseram tirá-lo. “O mesmo Iphan autorizou indenização e demolição” após sete anos, sob o deslumbre do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) e a Copa da Fifa 2014. Junto com outras 15 famílias, passou a ser acuado por diferentes faces do Estado. Ora era o Iphan, ora era a Secretaria Extraordinária da Copa (Secopa), ora era a Secretaria de Cidades (Secid).

Todos a oferecerem migalhas pelas vidas passadas ali: R$ 179 mil até o ano passado. Menos de R$ 1 por cada um dos 183 metros quadrados da casa onde passou boa parte da vida e compartilhou dias e noites com a mãe, o pai e um irmão. Todos já falecidos.

Nos antigos 11 cômodos (uma parede caiu durante a última demolição, realizada pela Secid, no dia 27 de janeiro deste ano), viu ir embora a leveza da juventude, encarou a dureza da vida adulta (formou-se em economia pela Universidade Federal de Mato Grosso), cimentou amizade com gente como dona Maria Rita, sua vizinha de uma vida inteira, morta em decorrência das complicações de um AVC sofrido três dias depois da visita da representante do consórcio que cuidava das desapropriações, seis anos atrás.

“Disseram que a casa não era mais minha e eu teria de sair num prazo de 30 dias. Isso foi em 2012. Não vou esquecer nunca daquela manhã, pois fiquei atordoado, em choque. De tarde, encontrei dona Rita. Ela tremia. A mesma mulher falou pra ela o que tinha falado pra mim. Tentei tranquilizar, dizer que não era assim que as coisas aconteciam. Que tudo era só conversa, mas não adiantou. Ela continuou muito nervosa. Isso era uma sexta-feira. Domingo de manhãzinha, ela teve um AVC”.

Internada com o corpo paralisado pelo trauma, nunca mais saiu do hospital. Morreu semanas depois da visita da representante do governo. A intenção era informar a ela, seu Benedito e às outras seis famílias que viviam ali, próximo à Prainha, no centro velho de Cuiabá, em casas construídas legalmente por eles ou seus pais e avós, que o progresso chegara e que eles, suas casas, suas memórias, não poderiam mais permanecer por ali. Tudo havia de ser demolido, mediante uma indenização que subvalorizava os imóveis. Supostamente para construção do VLT de R$ 1 bilhão e nenhuma pessoa transportada até hoje, porque nunca terminado.

Seu Benedito Addôr é o último e talvez mais prejudicado habitante do conjunto de residências localizado em frente à igreja do santo que lhe empresta o nome. E é a ele que o idoso recorre, em busca de forças. “Eu fiz uma promessa pra São Benedito. Prometi a ele que se não roubassem o VLT, eu entregaria minha casa de bom grado. Depois prometi que se pelo menos arrumassem tudo, sairia e daria todo o dinheiro da indenização (se justa) à caridade. Nada disso aconteceu”.

À parte toda fé e devoção, seu Benedito vem sendo acossado por absurdos burocráticos tecidos em enredos capazes de confundir o próprio Franz Kafka. “O mesmo Iphan que disse que não podia sequer reformar a casa, depois disse que ela tinha de ser demolida. E ainda por cima dizendo que nunca emitiu parecer nenhum incluindo ela no patrimônio histórico. Inventaram até que jamais houve laudo, mas eu tenho eles aqui”, diz, mostrando dezenas de papéis e cópias de documentos oficiais.

Haitianos chegam a quase 5 mil e já são maioria de migrantes em Cuiabá

Eles começaram a aportar no Brasil em 2010, essencialmente no Estado do Acre. Inicialmente mal recebidos por lá, imediatamente começaram a migrar para Mato Grosso. Nesse mesmo ano, instalou-se por aqui um grupo de cerca de 300 deles, em busca do sonho por ocupação nas propaladas obras da Copa da Fifa 2014. Na bagagem, a esperança de dias melhores e a saudade dos parentes e amigos deixados dois oceanos pra trás.

De acordo com levantamento informal feito junto a números da Secretaria de Educação e da Associação em Defesa dos Migrantes Haitianos em Mato Grosso (ADMH-MT), em torno de 5,5 mil passaram pelo Estado nos últimos anos. Pelo menos 4 mil destes aqui permaneceram. Majoritariamente em Cuiabá e Várzea Grande.

O restante foi embora devido a fatores vários, como desemprego e até xenofobia. A vasta maioria vive essencialmente próximos à Pastoral do Migrante, nos bairros Carumbé, Planalto, Jardim Eldorado e Bela Vista. Nesses lugares, chegam mesmo a ter casas e alugar condomínios inteiros.

 

Para a Seduc (e a ADMH confirma), 80% deles vivem mesmo na região da Avenida dos Trabalhadores.

Uma das raras exceções é o professor de química Louidor Celandiou, 35 anos, atualmente trabalhando como pizzaiolo e morando no bairro Pedra 90, na extrema zona sul da capital. Ele vive aqui desde 2013. Como a vasta maioria da maior comunidade estrangeira de Cuiabá, chegou sozinho. Gastou à época US$ 5 mil entre passaporte e passagens aéreas e terrestres. Como todos que vivem distantes de casa, sentiu na pele a dor da saudade e da solidão.

“A esposa e a filha ficaram no Haiti. Só consegui trazer as duas quase um ano depois. Fui pra Guiana Francesa, onde nasceu minha filha. Foi difícil o início aqui”, explica ao Circuito Mato Grosso, dentro da Pastoral. Ele conta que ficou desestimulado quando pediram para ele revalidar seu diploma. “Queriam que eu estudasse mais dois anos para continuar como professor. Depois de já ter estudado seis anos?”, questiona.

Ele estava no local em busca de conseguir iniciar o processo de legalização dos documentos da filha. É todo elogios à maneira como é tratado e foi recebido pelos brasileiros daqui. Discriminação, diz, só aconteceu em Jundiaí. “Mas eram os italianos, não eram brasileiros”, fez questão de frisar.

Hoje com a vida estabilizada, lembra que o começo também foi difícil burocraticamente, pois há uma série de documentos, além da ansiedade natural de tentar a vida em uma terra estrangeira distante da de nascimento.

É a fase enfrentada nestes dias por Any Joseph, 22 anos, pintor de paredes. Vindo de Porto Príncipe há um mês, ainda não entende uma frase inteira em português. Explica em creole haitiano (devidamente traduzido por Celandiou) que é o segundo mar (o primeiro foi o do Caribe) enfrentado nestes tempos. E ele é inteiro feito de dificuldades. “São R$ 312 só para fazer seu Registro Nacional de Estrangeiro, já gastei quase tudo pra chegar até aqui”, conta.

A outra é o fato de o sistema estar sempre fora do ar quando vai aos órgãos responsáveis tentar obter os documentos. Dorme às vezes na casa de conhecidos, às vezes na Pastoral do Migrante.

O local é o abrigo preferencial de quem chega de outros países. Além de haitianos, pelo menos 96 venezuelanos já passaram por lá, além de dominicanos, senegaleses, nigerianos, peruanos, bolivianos e vários outros vindos da América Latina, América Central e África.

A Pastoral do Migrante tem 100 camas e oferece três refeições por dia, teoricamente só para os que estão hospedados. Na prática, quem chega em busca de abrigo ou refeição acaba sendo alimentado também.

Associação haitiana

Clérsius Monestine está em Cuiabá há cinco anos e é presidente da ADMH-MT. Conhece bem a saga do seu povo em busca da dignidade humana. E diz que muitos haitianos preferem vir para o Brasil porque daqui eles podem ir para outros lugares do mundo, como Canadá, Estados Unidos, França e Guiana Francesa.

Os quase 4 mil caribenhos permanecem em Mato Grosso, concentrados em Cuiabá e Várzea Grande. Destes, algo em torno da metade está desempregada. No entanto, com crise econômica e tudo, o movimento migratório ainda não cessou e praticamente todos continuam otimistas, na esperança de chegar e conseguir um emprego, uma casa, reconstruir sonhos.

Para o doutor em história social Daniel Almeida de Macedo, a convivência entre brasileiros e haitianos na capital de Mato Grosso impõe desafios de autoconfrontação à população cuiabana, rotineiramente apontada como hospitaleira a toda e qualquer gente. Ainda que para alguns haitianos não seja bem assim. Sob condição de anonimato, alguns poucos relatam casos de discriminação não só pela cor da pele, mas pelo simples fato de serem haitianos mesmo.

“Eles falam que haitiano devia ir embora, que tem muito aqui e não tem emprego nem mesmo pra brasileiro, que dirá pra haitiano”, conta um desses.

“Até que ponto somos capazes de nos abrir ao diferente, ao estrangeiro, ao outro? O migrante haitiano é um migrante econômico, migra em busca de emprego, de melhores condições de vida. Não pode ser culpado por sua própria condição de existência ou colocado em constante suspeição. Se for preliminarmente considerado um invasor, que usurpa lugares e políticas sociais, a pátria de esperança que é o Brasil se converte em terra inóspita para essas pessoas”, afirma Macedo em artigo.

Para além de dificuldades pontuais, como o desemprego comum a todos habitantes do Brasil, os haitianos têm convivido em harmonia com os brasileiros. Nos bairros onde se concentram em maioria, frequentam igrejas, possuem bares (onde servem inclusive comidas típicas), mercearias e umas espécies de misturas de lan houses e centrais telefônicas.

Nesses lugares, pelo telefone, Skype, WhatsApp ou Facebook, matam as saudades dos seus e buscam, nesses momentos, forças para superar as dificuldades e conseguir, enfim, trazer namoradas, esposas, filhos ou, em alguns casos, fazer o caminho de volta.

Dez anos de obras da Copa-2014 em Mato Grosso

O grande Mundial de Futebol que foi realizado no Brasil em 2014 e teve Cuiabá como uma das cidades-sede transformou a capital em um grande canteiro de obras. Na época, os projetos prometiam trazer modernidade ao transporte, ao trânsito e ao aeroporto. Quase dez anos depois do anúncio da capital como sede, a cidade ainda não se recuperou das promessas e a principal obra da Copa, o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), segue como uma cicatriz aberta entre Cuiabá e Várzea Grande.

Quatro anos após os jogos de 2014 e em plena Copa 2018, Cuiabá ainda tem diversas delas longe do término. O último relatório, emitido em 2016 pelo Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), mostra que o Ministério Público do Estado (MPE) e a Procuradoria Geral do Estado (PGE) ingressaram com ação civil pública contra uma das empresas responsáveis pela construção do Estádio Arena Pantanal, a Mendes Júnior, para corrigir imperfeições e falhas nas obras.

Estima-se que essa arena tenha apenas 98,4% de sua obra completa, apesar de já ter consumido R$ 670 milhões dos cofres públicos. Em despacho de 20 de abril, a juíza da Vara de Ação Civil Pública e Ação Popular Celia Regina Vidotti cobrou uma solução “célere e eficaz” acerca das “irregularidades” encontradas na Arena Pantanal cometidas pelo governo do Estado e a construtora Mendes Júnior.

Com custo inicial de R$ 1,477 bilhão, a construção do VLT está parada desde 2014. O modal é a obra inacabada mais cara de toda a Copa 2014. A previsão de finalização deste projeto ainda é um mistério.

A falta de estudo técnico e um imbróglio jurídico que culminou com a prisão do ex-governador Silval Barbosa, o executor das obras da Copa, e boa parte de seu staff, apontaram que cerca de R$ 18 milhões do projeto foram desviados para a corrupção. Depois do caos político gerado a partir da Operação Ararath, da Polícia Federal, que investiga esses crimes, os trilhos do VLT tornaram-se símbolo de um mito para a população.

Os vagões de R$ 900 milhões ainda aguardam para, um dia, transportarem os mato-grossenses que pagaram pelas obras através de seus impostos. Foram necessários três governadores (Blairo Maggi, Silval Barbosa e Pedro Taques) para finalmente existir um planejamento de quais seriam as obras realmente necessárias para a eventual instalação do modal. A surpresa (desagradável) é que grande parte dos gastos foi sem motivo algum a não ser desvios. 

Segundo avaliação do engenheiro civil José Picolli, secretário-adjunto de Cidades (Secid) e responsável pela montagem do projeto de obras do VLT, ao menos três grandes obras de mobilidade impostas por conta deste projeto eram desnecessárias. Duas delas já custaram mais de R$ 30 milhões ao erário.

As informações contidas no relatório da Secid sobre os projetos da Copa-214 apontam que uma nova licitação do VLT está em andamento. O governo não sabe informar qual o valor seria necessário para enfim concluir a obra. O próprio consórcio do VLT afirma que seriam necessários no mínimo mais R$ 1 bilhão para a conclusão do modal.

As desapropriações para o projeto foram os impactos sociais mais graves do VLT. Na época, os tapumes e desvios da obra impediram grande parte das cidades de Cuiabá e Várzea Grande de ter uma rotina normal. Centenas de lojistas foram prejudicados, muitos faliram. Duas associações de atingidos pela obra foram criadas à época.  A grande maioria até hoje não foi indenizada pelo poder público.

 Nem o TCE, nem a Secid nem o Ministério Público Federal retornaram aos questionamentos do Circuito Mato Grosso sobre a questão da indenização e desapropriações das obras da Copa-2014.

Avenidas e trincheiras nunca foram concluídas

O relatório do governo do Estado sobre os projetos da Copa-2014 revela que outras cinco obras que faziam parte do pacote não foram concluídas e estão paradas.

Os trabalhos da implantação da Avenida Parque Barbado está com 76,2% de execução. O trecho que liga a Avenida Fernando Corrêa à Avenida Brasília está praticamente finalizado, restando a pavimentação da rotatória.

A trincheira Engenheiro José Luiz Borges Garcia (Jurumirim/Trabalhadores) está 97,84% executada. Orçada em R$ 50,5 milhões, os trabalhos na Trincheira Jurumirim encontram-se paralisados. Atualmente, a secretaria trabalha em um levantamento técnico e ensaios de qualidade. O processo de retomada para serviços e conclusão da obra está em andamento com o Consórcio Sobeltar, responsável pela construção. Ainda não há prazo para a finalização e entrega total.  

Na Avenida 8 de Abril e no Córrego Manoel Pinto, as obras de readequação foram paralisadas há quatro meses pela construtora Engeglobal. A empresa alega que não foi possível terminar os trabalhos devido ao período chuvoso. Valor do contrato final será de R$ 26,71 milhões.

Os trabalhos na Avenida Jornalista Archimedes Pereira Lima (Moinho) estão 90% executados. Os serviços realizados pelo Consórcio Trimec-Hytec apresentaram diversas inconformidades, principalmente no pavimento. Além disso, houve aditivo de R$ 385 mil e a obra custará aproximadamente R$ 23,3 milhões.

 A reforma do Complexo Turístico da Salgadeira, situado na rodovia Emanuel Pinheiro (MT-251), em Cuiabá, fazia parte do pacote de obras para Copa de 2014 e foi concluída apenas em junho pelas secretarias das Cidades e Desenvolvimento Econômico (Sedec), por meio da adjunta de Turismo. A inauguração deve ocorrer nos próximos dias. A população aguarda há mais de oito anos para poder desfrutar do que já foi o balneário mais popular de Cuiabá.

Apenas parte das obras do Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, nos setores A e B, está finalizada. As obras contemplam as áreas de embarque e desembarque doméstico e embarque internacional. Resta a execução da reforma do setor C. Atualmente, apresenta cerca de 85% de obra concluída. Orçamento? R$ 85,1 milhões, também executado pela empresa Engeglobal.

Centros Oficiais de Treinamento

A Universidade Federal de Mato Grosso teve o Centro de Treinamento (COT) Professor Batista Jaudy construído nas dependências da instituição. O relatório aponta que a estrutura tem 82% das obras executadas. A edificação em questão foi retomada em abril de 2017 e tem orçamento estimado em R$ 17,25 milhões. O último trabalho realizado foi a concretagem do piso de atletismo para receber a pista emborrachada. Os trabalhos estão sendo de competência da empresa Engeglobal e seguem inconclusos.  

Se estivesse concluído, o local teria capacidade para receber 1,5 mil torcedores. Embora parte da obra esteja concluída, o espaço continua fechado aos estudantes da UFMT e à sociedade que usava o local para prática de atividades esportivas. 

O Centro Oficial de Treinamento Rubens dos Santos (Pari), em Várzea Grande, é outra obra da Copa 2014 completamente abandonada. Diferente do COT da UFMT, o local teve apenas 69,9% das obras construídas.

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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