Foram 15 processos de habilitação recusados por não existirem profissionais interpretes capacitados nas autoescolas para atender pessoas com deficiências visuais, que resultaram na abertura de uma investigação por parte do Ministério Público Estadual de Mato Grosso contra o Departamento de Trânsito de Mato Grosso (Detran-MT).
A reclamação protocolada junto ao órgão foi formulada pela Associação dos Surdos de Cuiabá, que procurados por seus associados procuraram levar o âmbito até a justiça. Com a ajuda do interprete Alex da Silva Santos, o Circuito Mato Grosso conversou com o Presidente da Associação, José Roberto Bolonheis.

Ele informou que a Associação já havia notificado o Detran sobre a questão, mas cansados da falta de atenção, resolveram partir para o âmbito judicial.
“Às vezes as autoescolas informavam que tinham os interpretes, mas quando o aluno chegava para assistir a aula o profissional não estava apto para atendê-los. Eles chegavam a fazer as aulas teóricas, mas quando realizavam o teste eram reprovados. Assim eles viviam em um circulo vicioso”, explicou Bolonheis.
Eles explicam que quando uma pessoa cega vai fazer uma prova, ele tem um ledor que vai ler toda á prova para ele na íntegra. No caso do surdo é a mesma coisa. Ele precisa de um profissional qualificado para isso que o acompanhe durante todo o processo.
“Se no Detran não tem o profissional, eles [surdos] possuem uma Central de Interpretes, que podem ser solicitados. Atualmente são dez profissionais que atendem e que podem ser solicitados a qualquer momento”, contou o presidente.
Segundo José Roberto, já teve muitos associados que tiveram prejuízos e hoje estão parados nesse processo de habilitação no Estado, justamente pela falta de profissionais capacitados. Entre eles, as 15 pessoas citadas no processo aberto no Ministério.
“Isso é uma falta de respeito com a gente. Até agora ninguém deu um posicionamento. Poderíamos ter mais pessoas surdas habilitadas no Estado, mas não temos justamente por conta desse entrave que tem de não conseguir esse profissional”, lamenta.
De acordo com o vice-presidente de Esportes Elio Domelid Ferreira, os deficientes auditivos não querem um profissional para dar as respostas para ele na hora da prova. Eles querem um profissional que seja ético, que faça com qualidade todas as questões, respeitando a estrutura linguística para que eles consigam realizar as etapas como as pessoas sem necessidades especiais.
“Alguns pensam que se o interprete estiver auxiliando a pessoa surda, ele vai dar a resposta para ela. E não é isso. Isso é a falta de conhecimento. Já cansei de avisar, porque não compreendem como é feito a língua de sinais e a estrutura. É uma língua e esse profissional tem que ter, porque é um direito nosso ter um interprete auxiliando na hora da prova”, afirma Elio.
Tem muitos Estados em que a prova do Detran já é feita em língua de sinais, em Mato Grosso ela acontece em 11 municípios. Porém, a Associação explica que a língua de sinais da prova é feita por um interprete de São Paulo e que por isso há certa dificuldade na hora de realizar a prova por meio dos candidatos.

“Há muitos conflitos de referencias de sinais do regionalismo. Às vezes os sinais ali não são condizentes com o que nós utilizamos aqui. Até eles compreenderem o sinal feito pelo interprete o tempo necessário é maior. Então é importante que as provas sejam feitas em cima do sinal de vocabulário daqui”, avaliou João.
O presidente afirma que a única coisa que eles desejam é serem respeitados como qualquer cidadão sem necessidades especiais. “Nós somos capazes. Tem muitos surdos ai que estão habilitados, que são bons motoristas no trânsito. O direito nosso é igual o de outra pessoa qualquer”, finalizou.
Posicionamento Detran-MT
Em nota ao Circuito Mato Grosso, o órgão informou que para fazer a regulamentação do interprete de Libras para a formação de condutores, capacitou 25 servidores. Além disso, fez a previsão em concurso público para intérprete, onde seis foram aprovados no concurso realizado em 2015 e aguardam a nomeação.
De acordo com o Detran, foi implantado o vídeo em Libras para a realização da prova teórica nas unidades contempladas com provas digitais, que estão em 11 cidades polo no Estado. Onde a prova é impressa, o candidato tem o acompanhamento de uma servidora que tem o curso de intérprete.
E que uma equipe da Diretoria de Habilitação está trabalhando na regulamentação do interprete em Libras nas etapas do processo de formação de condutores sob a responsabilidade dos credenciados (Médicos, Psicólogos e Centro de Formação de Condutores) que será publicada ainda neste mês de agosto.



