Cidades

História de mulheres que param a vida pelo “amor” atrás das grades

Mulheres perdidamente apaixonadas, que vivem longe daqueles que amam por estarem separadas por grades e muros das prisões. É o amor que supera barreiras e dificuldades. Três delas conversaram com o Circuito Mato Grosso e falaram das dificuldades, humilhações, e o que as motiva ainda a continuar essa rotina. Nesta reportagem, o calvário de uma mulher que vai há 11 anos visitar o marido que está preso por tráfico e outros crimes, e a jovem de 21 anos que tem o pai agente penitenciário e visita o marido há dois anos. Mas por que elas não deixam essa vida?

Elas buscam forças para superar o preconceito e as adversidades para viver uma relação amorosa com assassinos, traficantes, assaltantes, estelionatários e outros tipos de criminosos que estão pagando pelo crime atrás das grades.  As esposas relatam as visitas à Penitenciária Central do Estado (PCE), antigo presídio do Pascoal Ramos, o maior do estado de Mato Grosso, atualmente com mais de 6 mil detentos, e os planos para o futuro com o amado.

D.P.S., 31, que visita o marido há 11 anos, conta que a vida de uma mulher de detento não é fácil. Ela diz que já passou por várias situações ao longo de mais de uma década que faz o trajeto para estar ao lado do homem que ama e com quem tem uma filha de 6 anos.

A jovem conheceu o marido antes de ele ser preso. Ambos trabalhavam juntos até os planos de crescimento irem por água abaixo com a prisão. Contra ele, crimes como tráfico e roubo. O julgamento e a prisão mudaram a vida de D.P.S., que passou a viver em função do homem que ama.

No começo, quando ia visitá-lo, a dificuldade era muito maior, pois chegava a dormir até dois dias em frente à PCE aguardando o momento de entrar na unidade prisional. “Improvisava barraca em frente ao presídio, tomava sereno pela madrugada e sol durante o dia. São situações difíceis que só que ama e tem muita fé em Deus é capaz de superar as dificuldades e humilhações que passamos e não desistir”, relata ela.

D.P.S. diz que algumas vezes acordava à meia-noite para preparar a comida para levar no dia de visita. “O único dia que os detentos podem comer algo diferente ou mais gostoso é justamente no dia em que os parentes vão visitá-los. Geralmente eles pedem carne, uma lasanha. E também sempre faço sobremesa”.

Depois de cinco anos visitando o marido na PCE, ela engravidou da única filha do casal, hoje com 6 anos. “Ela é muito apegada ao pai, sente muita falta. Agora que está ficando mais velha começa a entender a ausência. Nossa filha estuda durante a semana e quando tem visita na quarta-feira ela não tem ido, mas aos domingos vai sempre”.

O que ainda dá forças para continuar nesta vida é o amor, são os sonhos e planos ao lado do marido. “Sempre conversamos, planejamos o futuro. Ele não quer mais essa vida. afinal, 11 anos não são 11 dias. É uma grande lição e o erro não irá se repetir”. D.P.S. já pensou em desistir durante esses 11 anos, mas o amor falou mais alto.

“Uma vez cheguei a vender tudo que eu tinha e pensei em ir embora de Cuiabá, para a casa dos meus pais que moram no interior. Só que a nossa filha, que na época era muito nova, começou a passar mal, teve bronquite e febre por falta do pai. Aí voltei para cá e fui conquistando minhas coisas novamente. Hoje só penso no dia que ele puder sair da prisão para que possamos viver felizes juntos aqui fora”.

Atualmente D.P.S. recebe auxílio-reclusão pago pelo Estado, já que na época da prisão o marido dela estava trabalhando com carteira assinada. Além dessa quantia, ainda está recebendo o seguro-desemprego, as únicas duas fontes de renda dela para sustentar a casa.

Durante esse tempo ela informa que sofreu momento de tensão quando um agente penitenciário deu tiro de borracha em direção a ela, que desmaiou de nervoso.

Filha de agente penitenciário visita marido na cadeia

Já a jovem A.R.M., 21, começou a visitar o marido – que está preso há quatro anos – há pouco mais de dois anos. Quando ele foi para a cadeia, ela tinha apenas 17 anos e a visita não era permitida. O fato curioso é que o pai de A.R.M. é agente penitenciário e no começo sua mãe chegou a fazer um boletim de ocorrência para evitar que a filha entrasse no presídio para visitar o cônjuge.

“Meu pai é agente e é separado da minha mãe. Quando ele me viu no presídio pela primeira vez, perguntou: ‘o que você está fazendo aqui?’. Na hora eu não respondi, mas com o tempo ele descobriu. No começo foi mais difícil, porque minha família era contra o relacionamento e contra as visitas; hoje eles estão mais compreensíveis”.

Para A.R.M., quando se ama não há limites e barreiras para superar o amor. O marido dela também está preso por tráfico e roubo e irá para o regime semiaberto em 2020. Esse diz que esse será o grande momento de sua vida, já que vai poder estar ao lado do marido todos os dias, sem precisar passar por “constrangimento ou humilhação” para vê-lo.

Ela conta que a mãe não a ajuda financeiramente por questões com o marido, mas sempre que precisa comprar algo ele próprio dá o dinheiro para ela agilizar as coisas do lado de fora. De acordo com a jovem, o marido tem juntado dinheiro nesse tempo que está preso, e quando sair, ambos vão morar juntos e abrir algo para que possam trabalhar por conta própria.

“A maioria dos detentos quer mudar de vida, pensa em juntar dinheiro e abrir um negócio, trabalhar com lanches, vendas, alimentação, e ser autônomo, porque as empresas geralmente fecham as portas para ex-presidiários e acreditam que nunca uma pessoa poderá mudar. E aí, como é possível ter perspectiva de vida digna fora da cadeia com as portas fechadas?”.

Marido e o irmão estão presos

T.A., 30, toda semana está na porta da PCE. Numa semana para visitar o irmão e na outra, o marido. Ambos estão presos pelo crime de tráfico de drogas. As visitas são separadas por raios. Numa semana as visitas, às quartas e domingos, é para os raios 1 e 2, e na outra semana é para os raios 3 e 4. Aos sábados, a visita é para parentes de reeducandos do raio 5, “Shelder” e container. Por mês, cada detento tem direito a quatro visitas. O período para permanência no interior da PCE é das 8h às 16h.

O marido de T.A. deve deixar a unidade prisional e ir para o regime semiaberto no final do mês de julho; já seu irmão ainda deve ficar preso por mais uns dois anos. Dessa forma, a penitência dela de visita à PCE vai continuar.

“É difícil toda semana passar pela situação vexatória de revista, humilhações e outras dificuldades. Só quem tem parente lá sabe o que é passar por tudo isso”. Atualmente T.A. trabalha de atendente em uma lanchonete à noite, e nos dias que antecedem a visita – terça e sábado – o patrão costuma liberá-la do expediente para que possa descansar, acordar cedo e preparar as coisas para levar para o irmão ou para o esposo.

Para T.A., a parte mais difícil é a convivência com os agentes penitenciários. “Eles sempre nos acusam de sermos ‘bandidas’ por estarmos ajudando ou ao lado de alguém que está preso. É como se nós tivéssemos cometido o crime. Querem nos punir por ir visitar o marido, um parente ou filho que está preso, e sempre abusam do poder, fazem piadas ou mesmo nos colocam em outras situações desagradáveis”.

No começo, a mãe de T.A. pediu para fazer a carteirinha para visitar o filho que está preso, e outro que deixou a prisão na semana passada, porém ela não autorizou justamente para poupar a mãe da humilhação dos agentes e, por ser idosa, ficar exposta a certos tipos de situações, além do ambiente deprimente da cadeia.

Abusos durante a revista

De acordo com as entrevistadas, há muitas situações que ocorrem no presídio de que a imprensa e a sociedade não têm ciência, a exemplo de maus-tratos, violência, alimentação ruim entre outros.

“Na hora da revista pessoal, não é difícil encontrar casos de abusos de agentes que usam o detector manual conhecido como ‘raquete’, para agredir as visitantes. Elas batem com força com o objeto nas partes íntimas, nos seios da gente, o que acaba nos machucando, porém se falamos alguma coisa ou retrucamos, elas ameaçam nos tirar a carteirinha de visitante”.

A secretaria de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) regulamentou a Instrução Normativa em 16 de julho de 2014, que proíbe que os visitantes tirem a roupa, façam agachamentos, saltem e tirem as roupas íntimas. A utilização de espelho por agentes penitenciários também não é permitida, porém, segundo as visitantes, ainda há muitos casos de agentes que mandam fazer agachamento quando há desconfiança, e em alguns casos elas até tocam os seios das visitantes na visita.

Quanto a tirar roupa íntima, as mulheres relataram que tem agente que proíbe até a entrada na unidade pela cor da calcinha que elas estão usando. “O que é proibido acaba acontecendo, porém, para evitar represália contra os maridos, muitas mulheres passam por isso quietas”, comenta.

A alimentação fornecida pelo Estado também é questionada por elas, pois imagens da comida mostram o péssimo tipo de alimentação fornecida por eles. “Já teve casos de caramujo ser encontrado em alimentos que eles comem, fora que tem muitos que passam o dia sem comer pela péssima qualidade, e só se alimentam com suco ou bolacha”.

Segundo elas, por isso é tão importante a visita levar alimentos para o reeducando, pois é a única oportunidade que ele tem de se alimentar algo com qualidade. Elas ainda denunciam que o novo diretor da unidade prisional, que assumiu a PCE há menos de um mês, Bruno Henrique Ferreira Marques, cogita proibir as visitas de levarem comida para dentro do presídio.

Outra situação é a questão de saúde dentro do presídio. Muitos estariam doentes e sem medicamento ou atendimento médico. A mulher ainda denuncia que em uma revista feita por agentes penitenciários na cela do marido já sumiu o aparelho que mede a glicose no sangue e ninguém soube explicar onde foi parar, tendo ela que desembolsar aproximadamente R$ 300,00 para comprar um novo.

Filhos dos detentos

A falta de preparo dos agentes também é relatada nas denúncias feitas por elas, principalmente com relação aos filhos dos detentos que geralmente são xingados e passam por situações difíceis. “Eles são muito brutos e ignorantes, é muito comum agressão verbal em dia de visita, principalmente com filhos pequenos das visitantes, que eles pedem para segurar, para controlar, ao mesmo tempo em que estamos tirando o alimento para passar na esteira e ser revistado.

Por fim, elas questionam os valores abusivos cobrados no mercado que tem dentro da unidade. Lá se pode comprar arroz, feijão, azeite, refrigerante, chocolate, bolacha, entre outros, mas segundo elas o preço praticado é desproporcional à realidade do lado de fora.

“Eles cobram na Coca-Cola de 1,5L o valor de 10 reais, uma barra de chocolate custa 20 reais. Onde você encontra preços abusivos assim? Eles dizem que o dinheiro é revertido para os próprios presos, porém é tudo mentira. Quando eles querem ou precisam de alguma coisa, eles têm que tirar dinheiro do próprio bolso para conseguir. Muitos ali nem colchão têm para dormir”, relata uma das entrevistadas.

Sindspen defende agentes penitenciários

Em resposta às acusações contra os agentes penitenciários, o presidente do Sindicato dos Servidores Penitenciários do Estado de Mato Grosso, João Batista Pereira, informou ao Circuito Mato Grosso que os profissionais agem dentro da legalidade e do Procedimento Operacional Padrão (POP), para atendimento e revistas.

“Antes de mais nada, quero deixar claro que o sindicato não apoia nenhuma atitude desrespeitosa por parte dos servidores, seja contra visitas, advogados ou oficiais de justiça. Quando algum caso de abuso de agente chega ao nosso conhecimento, imediatamente pedimos medidas cabíveis à Sejudh, que sempre abre um processo administrativo (PAD) para avaliar a veracidade das informações”, disse o presidente.

João Batista Pereira

João batista ainda cita que Poliana (citada pelas mulheres na matéria) é uma agente muito competente e rígida, porém a rigidez da profissional é dentro dos princípios da legalidade, ela não faz vista grossa a nenhuma irregularidade que possa acontecer, o que, segundo ele, seria o motivo de reclamações das visitas.

Ele ainda revela que a revista é importante, pois geralmente em torno de 5% das visitas são apenas “mulas do tráfico”, ou seja, mulheres que criam um vínculo com algum preso forasteiro (como são chamados os detentos que não têm família ou parentes no estado) só para tentar entrar com droga e celular dentro da unidade.  

O presidente acredita que o manifesto e reivindicações por parte de algumas “cabeças” das mulheres é em função de que elas querem uma maior flexibilidade na entrada.

“Geralmente quando se troca a direção de uma unidade, as visitas com ordem dos próprios detentos começam a cobrar uma maior flexibilidade e afrouxamento nas revistas. O novo diretor tem feito um excelente trabalho e desde que assumiu as revistas nas celas estão sendo realizadas constantemente e mais de 100 celulares que estavam em poder dos presos já foram apreendidos”, argumenta ele.

Nos casos de abusos ele informou que a pessoa deve procurar a direção da unidade e relatar o ocorrido, para que alguma medida possa ser tomada e fiscalizada.

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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