Cidades

Projeto Hora Estendida em creches divide opiniões

No dia 17 de abril a Prefeitura de Cuiabá iniciou o projeto piloto Hora Estendida, que tem o objetivo de implantar o programa em todas as creches e Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) na Capital. A proposta visa ampliar o horário de atendimento das unidades devido à incompatibilidade entre o horário da jornada de trabalho dos pais e o encerramento das atividades educacionais.

Em toda a Cuiabá, existem 51 creches municipais e 17 CMEIs, no entanto apenas nove unidades manifestaram interesse em aderir ao programa. O prefeito Emanuel Pinheiro (PMDB) adiantou que o funcionamento dentro do horário estendido deve ser implantado em todas as creches e CMEIs até o dia 1º de janeiro de 2018, por intermédio da Secretaria Municipal de Educação.

Luiz Jorge, diretor de Gestão da Secretaria de Educação de Cuiabá
Luiz Jorge, diretor de Gestão da Secretaria de Educação de Cuiabá

O período experimental encerra no próximo dia 17 de julho e a partir daí, segundo o diretor geral de gestão de educacional do Município Luiz Jorge, serão feitas avaliações do projeto. “A partir do projeto piloto vamos fazer os ajustes necessários para melhorar. Ele ainda está sendo formatado, não é um projeto pronto e acabado. O Hora Estendida está sujeito a inúmeras alterações conforme as necessidades identificadas”, afirmou.

Destinado apenas a pais trabalhadores, o programa exige critérios como a apresentação da carteira de trabalho e uma declaração assinada pelo empregador atestando o horário de entrada e saída.

Luiz Jorge explica que o programa visa atender e regularizar situações de crianças que ficavam em locais adversos ao de um local educacional. “Já acontecia de a criança ficar na creche após o horário convencional. Como os profissionais tinham de ir embora, ocorriam casos de a criança ser encaminhada ao Conselho Tutelar. Ou seja, a ideia é regularizar e institucionalizar esse plano da hora estendida”, justifica.

Normalmente as instituições iniciam o funcionamento às 6h e atendem até às 18h. Para garantir a estadia das crianças, houve um redimensionamento de uma hora e meia a mais na jornada de trabalho dos profissionais da unidade, alterando o horário de entrada e saída, o que garantiu o custo zero na proposta.  “Eles cumprem as 6 horas diárias de trabalho normal, sem que haja acréscimo em horas trabalhadas ou custo com pagamento de hora excedente”, pontuou Luiz.

Além da carga horária, a secretaria fez uma reestruturação pedagógica e alimentar para respaldar o direito da criança, com o intuito de propiciar o maior desenvolvimento educacional.

 

Diretora diz que projeto garante proteção à criança

O CMEI Oscar Amélito, no bairro Real Parque, é a primeira unidade que dispõe do programa, ainda no formato experimental. A adesão, conforme a diretora Ádila Terezinha Andrade, nasceu da necessidade apontada pelos pais da própria região, do bairro Real Parque, em Cuiabá.

“O projeto foi construído tanto pela equipe gestora como pelos pais que começaram a cobrar o programa. O Oscar Amélito levou para a secretaria uma vontade da comunidade, mas tudo partiu da base, da necessidade da comunidade”, afirmou.

Nesse período do projeto piloto, o CMEI já passou por duas avaliações. A unidade, que atende 240 crianças de até 5 anos de idade, iniciou o horário estendido com oito crianças. Hoje, são 14 crianças incluídas no programa. Apenas as crianças com idade até 3 anos participam desse regime integral.

Mesmo com esse quantitativo que aderiu ao programa, a diretora diz que diariamente cerca de cinco crianças acabam ficam dentro da Hora Estendida, isso por conta de mães que são diaristas e que em determinado dia precisam que a criança fique até mais tarde na creche.

“Não é que eles [os pais] querem deixar sua criança até às 19h30. Eles se organizam, ficam mais tranquilos nos seus trabalhos e quando chegam aqui encontram a criança bem, em sua rotina de atividades”.

A diretora afirma que o programa é uma forma de garantir a proteção e educação das crianças, uma vez que esses menores já ficavam na responsabilidade de outras pessoas no aguardo dos pais. “Os pais de uma forma ou de outra deixavam essas crianças com alguém. Acredito que o Hora Estendida não interfere na convivência familiar, aqui eu garanto que as crianças estão mais seguras, junto com uma equipe que, além de cuidar, faz o principal: educa”, frisou.

As observações de Ádila descrevem o cenário tranquilo e leve no período em que as demais crianças vão embora e ficam apenas as beneficiadas com o programa. “Não tem choro. O que nos chamou a atenção foi o interesse pela literatura que eles demonstraram. Como eles ainda não sabem ler, eles criam a própria história através das gravuras dos livros. Fazemos teatro de fantoches, danças e cantigas de roda. Está se desenvolvendo uma tranquilidade, serenidade, não há traumas”, disse.

Por conta deste horário a mais, foi realizada uma organização pedagógica, embasada na Política Nacional de Educação Infantil, com o acréscimo de uma refeição nesse período estendido.

Nos levantamentos foram apontados que 82% dos responsáveis pelas crianças são do sexo feminino; 70% não são casadas; 52% não possuem casa própria, além de outras situações; 64% possuem renda familiar inferior a dois salários mínimos, entre outros apontamentos das características socioeconômicas da comunidade.

Técnicos de Desenvolvimento Infantil de creche do Araés questionam projeto
(Foto: Luiz Henrique Menezes)

TDIs, preocupados com vínculo familiar, cobram discussão ampliada

Preocupados com a implantação da Hora Estendida, alguns profissionais se manifestaram contra o programa. O receio dos TDIs é apontado em relação às consequências que podem gerar à criança por ficar durante muito tempo longe dos pais.

A TDI Jaqueline Lei foi enfática ao observar que a Hora Estendida transfere toda a responsabilidade dos pais para as crianças.

“A gente percebe a falta que há de carinho e atenção, até mesmo o cuidado necessário do pai levar no médico seu filho. Inclusive no dia de folga os pais deixam os filhos na creche. A gente é obrigado a receber a criança porque isso é um direito dela, mas onde está o direito da criança de conviver com os pais?”, questionou.

Para os técnicos é de grande importância o vínculo afetivo dos pais com os filhos e, na falta dele, a criança pode ter seu desenvolvimento prejudicado. “É da convivência que nasce o amor. Uma criança que passa 13 horas longe dos pais, que vai em casa apenas para dormir, é uma forte candidata a, no futuro, deixar seus pais em um asilo”, alertou outra técnica.

De acordo com a pedagoga Wilza Carvalho, diretrizes como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Projeto Político-Pedagógico estabelecem que a criança pode ficar dentro da instituição educativa até às 18h.

“Observamos que podemos entrar nessa contradição entre instituição educativa e assistencialismo”, disse a pedagoga, ressaltando, no entanto, que não é contra o programa.

Creches devem guardar os direitos da criança

Doutora em psicologia da educação,
Daniela Freire, e professora da UFMT (Foto: Arquivo pessoal)

Tida como um dos fatores de desenvolvimento infantil, a creche é antes de tudo um direito que o Estado tem o dever de garantir como opção à família. No entanto a professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), doutora em psicologia da educação Daniela Freire, pontua que há critérios que determinam a qualidade da unidade que torna efetivo o desenvolvimento educacional, da linguagem, social, emocional e cognitivo da criança.

“A creche é um espaço de desenvolvimento infantil. Do ponto de vista técnico, ela é vista como um espaço educacional, já do histórico ela tem sido uma instituição de guarda e assistência. Isso porque as famílias deixam suas crianças na creche para que a mão de obra, em sua maioria, feminina, seja liberada para o trabalho. Contudo, políticas públicas foram criadas para assegurar a educação básica”, afirma.

Espaço físico ventilado, conforto térmico e acústico, brinquedos adequados, profissionais qualificados e em quantidade adequada, relação saudável entre adulto e criança são partes dos requisitos que garantem a qualidade da vivência infantil ao longo do dia em creches.

“O desafio da realidade cuiabana tem a ver com a superlotação. Todos esses critérios de qualidade precisam ser observados, para que as crianças tenham os seus direitos assegurados ao longo de uma jornada integral, juntamente com os educadores que devem garantir uma qualidade no atendimento e ambiente onde ficam essas crianças, o que nem sempre é a realidade das unidades de atendimento infantil”, afirmou a psicóloga.

“Nenhum ser humano fica tanto tempo em um espaço sem ser afetado”

Pesquisadora de creches há mais de 25 anos, Daniela Freire afirma que o longo período em que a criança fica na creche pode influenciar tanto de forma positiva quanto negativa. “Essas crianças saem pouco da sala de aula durante o dia todo. Esse período todo em um mesmo lugar aumenta o grau de intolerância, elas ficam mais irritadas, mais agitadas. Então a qualidade do estar dessa criança nesse ambiente de creche precisa ser muito bem observado. Nenhum ser humano fica muito tempo num espaço sem ser afetado por ele”, avalia.

Em seus estudos, Daniela aponta que as crianças se desenvolvem melhor quando têm vínculos constantes, tendo como principal referência a figura materna. “Deste modo, os profissionais de creche contribuem para o desenvolvimento infantil, mas não substituem o vínculo da criança com a família, em especial com quem é a referência materna e paterna”, afirma.

Por fim, a pesquisadora não deixa de lado o risco que se corre ao distanciar o elo fraterno com a criança. “Há risco de produzir vivências ameaçadoras, associadas à ideia de abandono, negligência, falta de intimidade na relação da criança com seus familiares, tendo em vista o pouco tempo de contato”, afirma.

Pais relatam experiência com creches

Fernanda Passos e seu filho Pedro (Foto: Arquivo pessoal)

A consultora comercial Fernanda Passos é mãe de Pedro, de 9 anos, e conta que não pôde evitar a ida do filho para a creche aos cinco meses de idade, desde então sempre ficou em período integral na “escolinha”. “No começo foi muito difícil, eu chorava por ter que deixar ele na creche. Com o tempo fomos nos adaptando”, disse.

“Na escolinha eles acabam sendo obrigados a se desenvolver mais rápido, ficam mais independentes. Ele perdeu a manha que tinha em casa, aceita mais interação, aprendeu a dividir as coisas”, relata.

Fernanda admite que o trabalho ocupa grande parte do tempo diário, mas que essa convivência ela compensa de outras formas. “Nós gastamos grande parte do tempo trabalhando. Eu tento compensar com momentos de qualidade, com atenção, interação, conversas, brincadeiras e locais que agregam essa convivência. Tem gente que passa o dia inteiro com o filho, mas não tem qualidade”, completou.

Abrahim e o pai, Abraão Ribeiro
​​​​​​(Foto: Arquivo pessoal)

Com um filho de 4 anos de idade, o jornalista Abraão Ribeiro diz que a experiência que Abrahim teve, durante dois anos, em período integral na creche do bairro Santa Isabel, foi boa. “Foi muito bacana esse período. Eu gostava bastante da didática da creche, ele interagia bastante. Foi um período de desenvolvimento pra ele, que melhorou o lado social, ele era retraído”, explica.

Todas as atividades diárias e aconchego familiar eram supridos durante a noite. “A gente tenta compensar como pode com cada tempinho que dá. À noite a gente sentava juntos para fazer as atividades e brincar e nos finais de semana também a gente sai, sempre arruma algo pra fazer juntos”, conta Abraão.

Atualmente Abrahim estuda em uma escola ao lado da antiga creche, isso por conta do ciclo de ensino que encerrou e teve de ser transferido.

Leia mais

{relacionadas}

Redação

About Author

Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

Você também pode se interessar

Cidades

Fifa confirma e Valcke não vem ao Brasil no dia 12

 Na visita, Valcke iria a três estádios da Copa: Arena Pernambuco, na segunda-feira, Estádio Nacional Mané Garrincha, na terça, e
Cidades

Brasileiros usam 15 bi de sacolas plásticas por ano

Dar uma destinação adequada a essas sacolas e incentivar o uso das chamadas ecobags tem sido prioridade em muitos países.