Cidades

Risos, lágrimas, fome e solidão nas ruas da capital

Fotos: Ahmad Jarrah / Circuito Mato Grosso

As folhas deste jornal que você, caro leitor, segura em suas mãos tem como função e objetivo informar e oportunizar o entendimento sobre diversos temas que permeiam nossa sociedade. Porém, em alguns casos, as páginas do nosso jornal semanal são usadas por cidadãos que sequer sabem escrever o próprio nome e que, talvez, prefiram se manter alheios ao ‘mundo’ do qual foram excluídos. Elas também servem como camas e cobertas da população em situação de rua, presente principalmente nos grandes centros urbanos, como Cuiabá.

Ao falarmos dessas pessoas, estamos tratando de um grupo populacional heterogêneo, composto por pessoas com diferentes realidades, mas que têm em comum a condição de pobreza absoluta e a falta de pertencimento à sociedade. São homens, mulheres, jovens, famílias inteiras, grupos, que em sua trajetória foram acometidos por alguma adversidade na vida, seja a perda do emprego, seja o rompimento de algum laço afetivo, fazendo com que aos poucos fossem perdendo a perspectiva de projeto de vida, passando a utilizar o espaço da rua para sobrevivência e moradia.

Na região central, a Prefeitura de Cuiabá identificou seis pontos com maior concentração desta população em situação de rua. Um destes locais é o Terminal Rodoviário, no bairro Alvorada, que foi visitado pela reportagem do Circuito Mato Grosso.

Em uma tarde de atenção voltada para cidadãos vítimas das contradições sociais, identificamos pessoas que mantêm no olhar o brilho – já opaco – de seus sonhos, ainda não realizados, porém constantes. 

Jonathan Souza Freitas, 25 anos, este é o nome e a idade de mais um cidadão que em busca de uma vida melhor veio para Cuiabá. O jovem, mineiro de nascimento, se criou no município de Araguaiana (570 km da capital) e mantém lá a sua mãe e a filha de apenas dois anos.

Há um mês morando nas ruas da capital mato-grossense, pelo fato de ter perdido a vaga em um dos albergues mantidos pelo município, Jonathan relata manter um sonho que alimenta desde pequeno: o de gravar um álbum sertanejo acústico, pois é cantor e compositor.

Porém, o ideal de se tornar um superstar vem enfrentando duros percalços: brigas familiares, falta de oportunidades profissionais e a entrada para o mundo das drogas. “O sonho virou pesadelo”, desabafou.

Sem formação profissional e em busca de um emprego, Jonathan relata que já era usuário de maconha, agora, “sem eira nem beira”, começou a usar o crack de forma descontrolada.

“É uma situação muito humilhante. A rua te oferece várias coisas: mulher, bebida, drogas. O crack tem uma substância muito rápida, você fuma e logo fica na paranoia. Você esquece tudo, ali seu mundo acabou. Quando uma pessoa usa crack ela não tem fome. Hoje eu só almoço. Uso direto, já perdi as esperanças; lutei muito”, conta o jovem.

Em um relato consciente, Jonathan fala dos preconceitos sofridos neste período em que passa seus dias na rua: “Muitas vezes as pessoas vêm uma pessoa suja e falam: ‘isso aí é um noiado’, elas julgam pela aparência. Mas não chamam aquele ‘cara’ para saber o que ele está passando, para contar a sua história. Isso aqui não é vida para ninguém. Muitas vezes o ‘cara’ entra no mundo das drogas para ver se esquece um pouco o problema, mas acaba se afundando mais [sic]”.

Com lágrimas correndo pelo rosto, o jovem relembra a mãe, que o criou sozinha, longe do marido que os abandonou há mais de 20 anos. Por um desentendimento, mãe e filho não se veem desde janeiro deste ano.

“A mãe da gente é tudo […] Se ela me vê assim, vai ficar muito mal […] Amo ela, muito […] É meu sonho ter um serviço, mandar dinheiro para minha filha todo mês. Sonho de conhecer coisas novas, pessoas para me ajudar. Minha vida desde a infância foi sofrimento. Minha mãe sempre foi mãe e pai. Meu pai nos abandonou quando eu tinha três anos de idade”, contou, emocionado.

Sem mensurações – O processo de exclusão social desperta a curiosidade de pesquisadores, como Leonia Capaverde Bulla, Jussara Maria Mendes e Jane Cruz Prates, que em 2004 publicaram o resultado de seus estudos em um livro (As múltiplas formas de exclusão social). Segundo as autoras, o que leva as pessoas a morar nas ruas são histórias de rupturas sucessivas e que, com muita frequência, estão associadas ao uso de álcool e drogas.

Além de pessoas que saíram de casa por ruptura dos laços familiares, é possível encontrar na rua pessoas que há pouco chegaram de outras cidades e ainda não conseguiram emprego ou moradia. Há ainda aqueles que têm um trabalho ou subemprego, mas cujo ganho não é suficiente para o sustento. Outro caso identificado são os “andarilhos”, que se deslocam pelos bairros ou de cidade em cidade, geralmente sozinhos, não se vinculando a nada. Explicam simplesmente que estão “no trecho”. 

A busca por compreender os motivos que levam cidadãos a esta condição e a análise desta realidade são quase exclusividade dos estudos acadêmicos. Para grande parte da sociedade ainda impera o olhar superficial e preconceituoso sobre as pessoas em situação de rua e pedintes. 

Até recentemente a única pesquisa nacional que tratava da população em situação de rua foi feita entre os anos de 2007 e 2008, envolvendo 71 cidades espalhadas pelo país. Outra pesquisa em caráter experimental começou a ser realizada em julho de 2014 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e está sendo feito estudo para incluir essa parcela da população no próximo Censo Demográfico Nacional.

Pés descalços, lembranças perdidas

Aparentando estar na faixa etária dos 50 anos, o senhor Vander Silva de Almeida mantém o sorriso de simplicidade no rosto, mas se confunde nas lembranças, que às vezes falham e o fazem acreditar ter apenas 23 anos de idade.

Sem ter ideia dos anos que está fora de casa vagando pelas ruas e becos da capital, Vander afirma ser cuiabano e ter família, com esposa e filhos, porém não se lembra de seus nomes. Sobre o seu passado, ele contou à nossa reportagem que nunca estudou e mal sabe assinar o nome. Sobre sua vida já adulta, ele diz que morava no bairro Pedregal, mas não ter ideia do real motivo que o fez chegar até onde chegou, sem destino certo.

Mesmo confuso sobre sua história, o simpático senhor diz ainda sonhar em reencontrar seus familiares. Mostrando ter fé, mesmo com o mundo tendo lhe virado as costas, Vander acredita que “viver com Deus” é o melhor que pode ter.

Vagando pela Rodoviária da capital e tentando levar em suas mãos galhos de plantas e pequenos pedaços de papel encontrados no chão, Vander vive em seu mundo particular, em que as lembranças foram esquecidas, à espera que algum dia a vida voltará a lhe sorrir. 

– Por que o senhor saiu de casa? 

– Não sei. Lembro de andar por aí. 

– Sente vontade de voltar para casa?     

– Sim! 

– Então, por que não volta? 

– Não sei, mas pretendo voltar!

– Tem lembrança de como era viver em família? 

– Tenho. Era bom, tinha mãe, pai, irmão, sobrinho. 

– Como o senhor se alimenta? 

– Eu não me alimento. 

– Mas como o senhor consegue ter forças para andar tanto pela cidade? 

– Não sei.

– O senhor bebia quando morava com sua família. Ainda bebe?

– Não, eu parei. Bebia pinga, fumava cigarro. Eles brigavam muito por isso.

– Esse foi o motivo que o fez sair de casa? 

– Não. 

– Então, qual foi? 

– Não sei. Fui caçar um serviço, passar um tempo fora de casa e nunca mais voltei.

– Qual o seu maior sonho? 

– Viver no céu, com Deus. Ter uma mãe, uma nova vida.

– Como é a vida do senhor na rua? 

– É muito ruim, perigoso por conta das próprias pessoas. 

– Mas e antes de vir para a rua, como era a vida? 

– Era boa, muito linda. Difícil de entender isso, né?

Atendimento pelas políticas públicas

Com recursos do Governo Federal, o município de Cuiabá mantém algumas políticas públicas de acolhimento a pessoas em situação de rua. O trabalho é desenvolvido pela Secretaria de Assistência Social em dois Creas (Centros de Referência de Assistência Social) e em albergues localizados no bairro Porto e no Alvorada, próximo à Rodoviária. Há ainda um terceiro albergue municipal – na saída de Cuiabá para o Distrito de Nossa Senhora da Guia –, porém fechado desde abril para reformas.

Segundo a assistente social da secretaria, Célia Regina Andrade, os serviços do município seguem as determinações da Política Nacional de Assistência Social, com duas equipes técnicas que vão até esta população ou atendendo a chamados. Cada albergue tem a capacidade de acolher 50 pessoas – número insuficiente para a demanda da capital – que dormem no local e recebem auxílio até que arrumem um emprego ou voltem para a cidade de origem.  

“Faltam lugares apropriados para encaminharmos essas pessoas. Ainda falta vaga nos albergues. No caso de uso de drogas, também faltam lugares”, desabafa Célia.

Nos albergues, os moradores de rua têm atendimento psicossocial e de saúde, quatro refeições, reinserção familiar, encaminhamento para programas e projetos sociais e outros.

Célia salienta que as maiores dificuldades são nos casos com usuários de drogas, já que os albergues não dispõem de atendimento ambulatorial e o município não tem unidades de tratamento para dependentes, restando contar com o auxílio de instituições filantrópicas.

“Nós não temos o atendimento ambulatorial, que precisaria de médicos e enfermeiros. Dentro do albergue a equipe irá auxiliar o cidadão a procurar a rede pública de saúde caso necessite”, explicou a assistente social.

Números desconhecidos – Segundo a assistente social, é praticamente impossível totalizar o número da população em situação de rua na capital. Porém, ao analisar os dados dos atendimentos realizados nos Creas e albergues, chega-se à mensuração do perfil deste grupo: maioria do sexo masculino, na faixa etária dos 40 anos de idade.

Falando em números, segundo a Secretaria de Assistência Social, até maio deste ano foram 318 atendimentos nos dois Centros de Referência de Assistência Social. Já nos albergues foram 951 pessoas atendidas.

‘Higienização’ leva a fechamento do Centro POP

Além de não conseguir oferecer o número de vagas suficiente para o acolhimento desta população em albergues e não ter locais próprios para o tratamento e dependências químicas, a Prefeitura de Cuiabá descumpre uma recomendação do Ministério da Saúde, que determina a criação de centros de referência especializados em áreas de fácil acesso e de maior concentração de trânsito de pessoas em situação de rua na cidade. Nesses locais, a população em vulnerabilidade social não dorme, porém deve receber alimentação, atendimento psicossocial e outros serviços como duchas para banho.

O município chegou a abrir um Centro Pop na Rua Pedro Celestino, no Centro, porém em 2014, por estigma e pressão dos comerciantes da região que não gostaram da ideia de ter como ‘vizinhos’ pessoas nesta realidade, o local foi fechado.

A assistente social da secretaria afirmou ao Circuito Mato Grosso que a Prefeitura busca outro local para reabrir o Centro POP, porém até agora não encontrou. Enquanto isso, segundo a Secretaria de Assistência Social, os serviços que deveriam ser ofertados no local são realizados nas unidades dos Creas.

Atendimento médico humanizado e nas ruas

Na última semana, a Prefeitura de Cuiabá entregou um novo veículo tipo van aos profissionais que atuam no ‘Consultório na Rua’, um programa do Governo Federal em parceria com a Prefeitura de Cuiabá que leva atendimento médico até a população em vulnerabilidade social. O Ministério da Saúde deve repassar para a Prefeitura R$ 35,2 mil para ajudar no custeio. 

A equipe composta por oito pessoas profissionais no acolhimento humanizado dessas pessoas. Reiniciado em março deste ano, o trabalho até então era executado em um veículo inadequado. A equipe multidisciplinar é composta por uma médica, enfermeira, assistente social, psicóloga, técnica bucal, técnica de enfermagem, redutor de danos e motorista. Ainda foi feito um mapeamento dos pontos de maior concentração dessa população na cidade, o que apontou a necessidade de que se tenha pelo menos quatro equipes atuando na capital, sendo uma em cada região.

Por enquanto, a equipe ligada à Secretaria Municipal de Saúde foca os atendimentos nas áreas centrais da capital, no bairro Alvorada (próximo ao Terminal Rodoviário), bairros Jardim Leblon e Porto, região do Ginásio Verdinho (CPA) e na Praça Alencastro (Centro).

“Ao contrário do que nós esperávamos, eles são bem receptivos. Quando chegamos com a van, eles nos recebem muito bem”, contou a responsável pelo programa, a assistente social Vera Lúcia Ferreira.

Segundo a responsável pelo programa, além dos casos de dependência química, a equipe encontra muitas pessoas com a saúde debilitada.

“O que mais tratamos são pessoas soropositivas, com tuberculose, muitos casos de anemia – por conta da má qualidade da água e fragilidade de alimentação, infecções, escoriações”, detalhou a assistente social.

Confira a reportagem em detalhes no Jornal Circuito Mato Grosso

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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