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Cultura em Circuito

Por que a gente é assim?

A Matizar filmes do Rio de Janeiro selecionou em diversos estados novos cineastas e diretores para uma série de documentários que será apresentada em todo o Brasil pela TV FUTURA. O nome da Série é POR QUE A  GENTE É ASSIM? Eu fui convidado, inscrevi um projeto no segmento DOCUMENTÁRIO SOBRE PRECONCEITO e fui contratado para representar Mato Grosso. O documentário intitulado CAIO ANDRÉ está sendo gravado aqui em Cuiabá e na Chapada em HD com participações de trilhas de bandas musicais daqui e de outras partes do Brasil. O tema é PRECONCEITO. E aproveito aqui para pedir colaborações para o argumento; se você já sofreu ou presenciou algum ato de preconceito, escreva para o meu email abaixo que tentarei inserir sua experiência no documentário. Se preferir, não precisa se apresentar. É uma série importantíssima com os nomes do cinema de pesquisa que mais respeito em todo o Brasil. São profissionais com temas sérios e extremo bom gosto na abordagem estética. Vale a pena participar, escreva-me sua experiência e vamos tentar documentar um pouco do preconceito que muitos vivem nesta região. www.matizar.com.br

INFO: luiz_marchetti@hotmail.com

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Setembro Freire 2010

E vem aí o Circuito Cultural Setembro Freire 2010, para fomentar a literatura e a Arte contemporânea na capital do Estado. Durante um mês e meio, ficará aberto à visitação de todo o público interessado com visitas escolares diárias nas salas do PAVILHÃO DAS ARTES. Este ano 13 poesias de Silva Freire foram entregues a artistas e escritores para serem interpretadas pelos convidados. É um dialogo da literatura de Freire com os artistas atuais. No dia 20 haverá a MANIFESTA, uma noite de abertura com coreografias e performances. Nesta noite conheceremos as interpretações plásticas, vídeos artísticos, escritas e expressões autorais inspiradas nas obras de Freire.   Ali haverá também o departamento literário com obras, poesias de Silva Freire, as salas com as esculturas, pinturas, fotografias e vídeos e finalmente uma sala dedicada ao departamento pedagógico que é o cunho central desta grande ação sócioeducacional. Muitos, mas muitos jovens visitam o circuito cultural e vivenciam o fomento literário e artístico com mediadores da UFMT e o bate papo dos artistas profissionais do Estado.

Atenção: Na sexta feira, dia 17 de setembro, às 9h no Pavilhão das Artes, segundo andar do Palácio da Instrução, acontecerá um CAFÉ DA MANHÃ PARA A IMPRENSA, assim todo o SETEMBRO FREIRE 2010 será explicado aos jornalistas para difundirmos este circuito com mais de 30 artistas profissionais, renomados escritores e centenas de alunos. Vai ser muito legal!

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Amadas e palmadas

Juliana Abonizio*

Eu não faço leis. Cabe cumpri-las. Contudo, posso também questioná-las, como muitos cidadãos indignados estão fazendo neste momento acerca da agora popular Lei das palmadas. É quase incompreensível o grau de rejeição a uma lei que visa tão somente proteger crianças. Dentre os indignados, o blogueiro do Jacaré Banguela, cujo nome não me recordo, veiculou um vídeo de sua autoria opinando a tal lei que proíbe palmada e demais agressões. O vídeo chama-se Cigarros e Chocolates, disponível no Youtube a partir de 16 de agosto. No tal vídeo, seu autor retoma essa discussão de vídeos passados, mas é apenas seu resumo que abordo, pois meu texto é sobre o tema e não sobre o pensamento do autor do vídeo. Não acompanhei comentários e apenas utilizo o vídeo como pré-texto para abordar a questão. Em seu argumento, que pelo visto há muitos simpatizantes, o Estado não é eficaz em sua parte (que seria dar todo o subsídio para crianças, mas eu penso que isso é, em boa parte, responsabilidade dos pais que deviam pensar melhor se tem condições financeiras e, principalmente emocionais de procriarem) e agora está se metendo na nossa vida. Seja lá que vida for essa e o que a palavra nossa significa, eu questiono.

Ainda em seu argumento, o autor diz que deveria haver um parque para crianças onde elas possam apanhar, pois em casa já não podem. È sobre esses dois assuntos que eu gostaria de também dar a minha opinião.

Há anos desisti de mudar o mundo, como a minha versão adolescente queria (pois, de modo arrogante, eu, dentre outros, achava que sabia o que era melhor para o mundo inteiro). Com o passar do tempo, tornei-me menos arrogante e passei a construir meu mundo e da minha família com as relações que acredito e com o respeito a todos os membros, o que significa que se eu não bato na minha mãe, nem bati em meu marido quando tive um, jamais bateria nos meus filhos. Mas seria legítima uma lei que impusesse tal estilo de viver a todos os cidadãos e cidadãs do Brasil?

Eu sou rigorosamente contra qualquer forma de violência física (sou também contrária à violência psicológica; já a simbólica, tem toda a minha simpatia no que se refere a manifestações artísticas) - e meus filhos não se tornaram marginais nem drogados nem mimados  por não terem sido agredidos em sua infância, mas não é isso o que importa, pois não se trata de minha família em particular, mas de toda a gente. Também não se trata de alguém muito honesto que recebeu umas palmadas nada severas e hoje é um cidadão respeitável e pacato. Se quisermos uma posição isenta de falácias, não devemos apoiar nossos argumentos em circunstâncias individuais, afinal, você tomaria um remédio para uma doença grave que curou o filho da dona Zezinha e nunca  outra pessoa o tomou? Quantos testes com resultados positivos serão suficientes para que você tome o remédio? Já que o remédio, no exemplo que utilizo, não pode ser testado em todas as pessoas, poderá, esse remédio que funcionou em 100 por cento dos casos testados, dar errado em outra pessoa, já que cada um é único? Essas são dificuldades encontradas na ciência – de modo agravado nas ciências inexatas e também encontradas na democracia que tem de submeter a uma lei, milhares de pessoas diferentes.

Não farei um artigo científico, não tenho dados nem interesse, neste momento, em escrever cientificamente sobre uma lei, mas proponho discutir sobre a fragilidade dos argumentos daqueles que são ávidos por poder dar as palmadas e os tapas de amor em quem quiserem. Trata-se então de um exercício de argumentação.

Vamos recorrer á imaginação.

Cena um: homem espancando esposa. O estado, esse intrometido, mete a colher, coisa que a sabedoria popular manda evitar a duras penas. A pergunta é: o Estado está errado? Deveria se omitir? Não se deve mesmo meter a colher?

Em minha opinião, é precisamente para meter a colher – para permanecer na metáfora - que o Estado serve. O Estado tem como função proibir o machão de espancar a mulher e proibir um vizinho de matar o outro apesar do ódio que sente e de quão legítima seja sua revolta. O Estado até mete a colher se você resolver dar cabo de sua própria vida. O Estado interfere ainda em sua vida sexual, determinando quem, quando, onde e em quais circunstâncias pode fazer sexo. Ora, isso é se meter em sua vida! Mas, se é assim em outras leis, por que seria diferente ao se tratar de crianças?

Para mim, usando uma lógica simples: quem é favorável à palmada na criança deve ser favorável às palmadas na mulher.

Nem pensem em me acusar de machismo, mas acreditar que uma mulher é indefesa e uma criança não, é um argumento de doer na lógica e nos sentidos. Seriam as mulheres intelectualmente inferiores a crianças, pois as primeiras nem com palmadas aprendem?

Uma mulher pode ir a uma delegacia especializada e pode criar formas de denúncia; já a criança só pode contar com algum adulto de bom senso que denuncie os maus tratos sofridos. Pensem nisso.

Espero que não seja essa a linha de raciocínio usada pelos defensores das palmadas em crianças. Certamente, alguns pensarão que as mulheres sempre foram exploradas e vítimas de uma sociedade patriarcal. Correto. Concordo. Mas não se esqueçam de que crianças sempre foram impedidas de serem crianças em várias sociedades, nunca tiveram voz e foram exploradas por toda a sorte de malucos: pais e mães tiranos, professores com tendências sádicas dentre outras coisas, como trabalho forçado, extração de clitóris, casamentos forçados, crianças arremessadas ao lixo, vendidas como escravos, submetidas à tráfico de órgãos, expostas em circo e em sinais de trânsito.

Chega: crianças não são subalternas, são apenas seres humanos dotados de vontade, capacidade de escolha e de raciocínio apesar do desconhecimento de regras sociais, que podem ser ensinadas através do exemplo. Imagino o pai ridículo esbofeteando o filho porque ele bateu no coleguinha. O que a criança absorve dessa experiência? Não, esse pai não existe; o pai machão seria aquele que bate no filho que apanha na escola. Belo exemplo. Ele e outros machões carregam a bandeira: Bullyng... só em casa.

Cena 2 - Bandido aparece na televisão apanhando da policia. Toda a gente se comove, inclusive eu. Polícia não deve torturar adultos que cometeram crimes; isso é hediondo, pois a autoridade deve agir conforme a lei.

Já os pais pensam diferente. Eles concordam que é correto bater na criança que cometeu uma gafe, digamos, que quebrou um copo. Eis a lógica: uma criança quebrar um copo é diferente de um adulto que comete homicídio, pois no primeiro caso, pode e deve apanhar; no segundo, não. Ressalto uma vez mais: sou contra violência fisica em qualquer circunstância por principio e abomino a utilização da autoridade policial que, ilegalmente, tortura suspeitos ou criminosos (que certamente não estavam em casa rezando quando foram presos). Porém, discordo igualmente da violência contra crianças, usando a autoridade chantagista do amor materno e paterno: além de apanhar – quando não ficar confinado a uma cela chamada de quarto igual os assassinos, você vai perder amor de mamãe e do papai. Essa crueldade física e psicológica é doentia e precisa ser abandonada imediatamente.

Pensemos em quantas pessoas nós não damos palmadas: no ladrão que nos rouba, no político que nos engana, etc.

Mais um exercício de imaginação: a família feliz brasileira recebendo uma visita indesejada que lhe quebra um copo de cristal. O que a mulher faz? Pega uma vassoura. O que o homem faz? Diz sorrindo que não foi nada, que foi apenas um acidente. Mas, e se fosse seu filho??? É bem isso que o casal deve estar imaginando: ah, se fosse meu filho... Como acha que a criança recebe essas informações e as armazena?

Agora eu pergunto: por que ter mais paciência e tolerância por pessoas que não apreciamos do que por nossos filhos?

O segundo argumento são parques temáticos. Adoro a ideia de parques temáticos, mas jamais pensaria em um no qual crianças apanhassem como imaginou o blogueiro que citei no início. Sua proposta era um parque onde crianças apanhassem, seria uma espécie de boxe infantil. Uma volta ao tempo dos gladiadores? Se não se pode bater, pelo menos ver é possível e, assim, a sociedade expõe seus impulsos sádicos. Será que é essa a Ideia? Espero que não e temo que sim.

Quero lembrar que, mesmo e apesar de leis, crianças apanham, seja de outras crianças, dos irmãos, tios, pais dentre outros. Além de apanhar, sofrem terror psicológico de professores que dão a impressão de ter idade emocional inferior à das crianças às quais deveriam ensinar o que espero ser minoria. Os relatos são muitos, não só de meus filhos, mas de outras mães que, sabendo do meu posicionamento, me contavam os abusos sofridos por suas crianças.

Para mim, basta de crianças xingadas e ameaçadas, inibidas como seres inferiores quando tudo o que têm são menores habilidades motoras e sociais, nada além disso.

Assim, apresento a minha ideia de parque temático: um lugar onde criança pode ser criança. Não construí essa ideia sozinha, dou os créditos a minha filha de 8 anos!

Simples assim. Há muitas brincadeiras em que a criança finge ser adulto, médico, advogado, mamãe, balconista, cabeleireira, etc. Basta de chamar uma garotinha de 4 anos de mocinha e fazê-la rebolar ao som de uma música maliciosa qualquer. Chega de simular ser mãe ou ser piloto.

Meu sonho é um lugar em que criança seja criança. Eu, em minha idealização, lançaria a promoção: seja criança por um dia! Com direito a comer sorvete na hora do almoço, fazer guerra de travesseiro, jogar papel higiênico molhado no teto (não me pergunte por que, mas crianças adoram), pular em cima de colchão de molas, rabiscar parede e assim por diante.

Não há um local em que japoneses de tendência workholic pagam para se desestressar quebrando pratos? Deixem as crianças também.

Pelo menos um dia, poderão ser crianças e fazer experiências que os pais infelizmente esqueceram que eram tão agradáveis. Por isso, proponho além: proponho que haja um parque ao lado para que os pais possam voltar a ser crianças e fazerem tudo que tenham vontade, que possam melecar um espelho sem medo, quebrar um vaso, rolar na cadeira e brincar numa piscina de bolinha gigante, igualzinha àquela que eles invejam ao ver os filhos brincarem. Pelo menos eu, e acho que não sou a única, gostaria que, em minha infância, o pula-pula e a piscina de bolinha tivessem sido populares como são hoje. Eu iria nesse parque e ainda mostraria, irreverente, a língua para a tia que deveria rir, pois ninguém em sã consciência fica realmente ofendido com a língua de uma criança. Se comparar esse simples gesto com uma leitura breve dos escândalos políticos em nossos jornais... Isso sim é ofensa!

*Socióloga, profa da UFMT, atualmente realizando pós-doutorado em Lisboa e mãe de dois filhos livres.
 


 

 

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