CircuitoMT - Edição 661 - page 6

CIDADES
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CIRCUITOMATOGROSSO
CUIABÁ, 7 DE DEZEMBRO DE 2017 A JANEIRO DE 2018
o entrar no Centro da Habilitação
Profissional Escola Estadual Cé-
lia Rodrigues Duque, em Várzea
Grande, os olhinhos curiosos dos
estudantes brilham por receber vi-
sitas. Todo detalhe novo de quem
chega é motivo de festa para eles. Seja o colo-
rido da saia, o corte do cabelo, tudo é mágico
para esses jovens portadores de deficiências
e com uma visão peculiar e meio mágica do
mundo. O que parece comum para os outros
para eles é sempre novidade.
O CHP, como é chamado pela equipe, foi
criado há 32 anos com o objetivo de possibilitar
às pessoas com deficiência (ou PCD) atividades
escolares e, ao mesmo tempo, prepará-las para
o mercado de trabalho. É um ambiente no qual
eles aprendem a ler e a escrever por meio da
Educação de Jovens e Adultos (EJA), mas tam-
bém a cozinhar, a fazer artesanato, a reciclar,
e ainda praticam esportes, por meio da educa-
ção física que é adaptada às suas necessidades.
Muitos do grupo são adultos que acabaram ao
longo de suas vidas não recebendo os estímulos
necessários para desenvolver habilidades como
a fala e o aprendizado.
A escola recebe jovens a partir de 15 anos
que apresentem algum tipo de deficiência in-
telectual. Ela pode ser leve, moderada, grave
ou severa, e está associada a algum transtorno
mental, como esquizofrenia ou psicose. O tra-
balho é feito por uma equipe multiprofissional
que os acolhe e acolhe a própria família, visto
que a falta de preparo da sociedade para lidar
com essas pessoas afeta não somente o indiví-
duo e sim todos a sua volta.
Analu Melo Ferreira
SOLIDARIEDADE DE FATO
Conheça as casas de apoio aos deficientes
Neste espírito de final de ano, uma escola e uma casa ensinam um pouco sobre amor ao próximo e caridade na forma de acolhimento
aos portadores de deficiência
A
Segundo Mariane Regina da Silva, psicó-
loga, a instituição trabalha com currículo fun-
cional. “Nós trabalhamos o aluno no concreto,
no real. Aqui ele tem que pegar a sua roupa
e guardar no guarda-roupa, a lavar o tênis, a
arrumar a mochila e a cuidar dos materiais”,
afirmou. Isso faz com que eles melhorem na
socialização, na convivência e se tornem mais
independentes.
Volta à sociedade
Além disso, o CHP tem um papel funda-
mental na escolarização dos estudantes, visto
que o déficit de aprendizagem é comum entre
eles. Em alguns casos isso ocorre porque a fa-
mília não está preparada para lidar com a defi-
ciência e acaba automaticamente tirando des-
sas pessoas a oportunidade de aprender e deixa
de dar a eles os estímulos necessários para que
desenvolvam habilidades sociais básicas.
“Eu tenho aluno de 54 anos que não sabe
ler nem escrever, porque quando se descobriu
que ele era PCD a família o escondeu, não o
levou para a escola. Ou, quando o levou, viu
que ele não aprendia, a escola não estava pre-
parada e ele acabou sendo excluído”, contou
Edher Allyson Weber Taveira, coordenador
pedagógico.
A solução, conforme Edher, está em in-
troduzir, o mais rápido possível, os PCDs no
convívio social e, logo, na escola. “Tive um
aluno que chegou desde cedo aqui no CHP, se
desenvolveu e sabe ler e escrever e até mes-
mo andar sozinho de ônibus”, relatou.
Por outro lado, Eliete Gonçalves de Cam-
pos Silva, autônoma, é mãe do Samuel, de
19 anos, que sofre da Síndrome de Klinefel-
ter. Essa síndrome resulta em uma alteração
genética, que faz com que Samuel tenha um
cromossomo X a mais, ou seja, 47 cromos-
somos, enquanto uma pessoa “normal” tem
apenas 46. Dessa forma, os portadores da
anomalia, além de algumas mudanças no cor-
po, têm dificuldades de leitura, de fala e seus
movimentos são comprometidos, assim como
os de Samuel.
Samuel estudou em uma escola conven-
cional até o 9º ano do ensino fundamental,
mas, como reprovou, não pôde dar continui-
dade aos estudos. A iniciativa partiu do pró-
prio Samuel, que, por meio de uma vizinha,
encontrou o CHP e há três anos estuda lá.
Eliete percebeu mudanças no filho, em es-
pecial no comportamento. “Antes ele tinha
muita dificuldade, era muito inseguro e agora
amadureceu bastante”, relatou.
Hoje Samuel cozinha, pinta e trabalha.
Mas apesar das dificuldades de ter um filho
com deficiência, Eliete se sente grata e pri-
vilegiada. “Os filhos, quando vêm especiais,
é o que Deus nos dá porque sabe que nós va-
mos cuidar”, disse.
RECURSOS
Atualmente o CHP Escola Estadual Célia
Rodrigues Duque recebe fundos da Secretaria
de Estado de Educação para a sua manutenção.
A verba destinada, ainda que seja uma quantia
significativa, é específica e não dá autonomia
à administração. “A finança da escola é uma
engenharia, nós viramos mágicos porque o
dinheiro está engessado e não podemos fazer
determinadas coisas”, esclareceu.
O coordenador mostra que outro problema
da escola é a limitação do espaço físico, que
não pode ser melhorado pela falta de dinhei-
ro. “Nós temos 167 alunos, mas poderíamos
atender até o triplo. Eu até tenho duas salas
ociosas, algo em torno de 30 matrículas, mas
eu não tenho espaço na sala de descanso e o
meu refeitório não suporta mais 30”, disse.
Eles fazem, todos os anos, uma festa juni-
na com o intuito de arrecadar recursos para a
instituição, que são utilizados para ajudar nas
despesas e investir na estrutura. Em algumas
ocasiões, os próprios funcionários chegaram a
doar dinheiro para auxiliar a escola.
DOAÇÕES
“Pedimos a quem quiser doar alguma quan-
tia à escola que primeiro venha conhecê-la, ver
como é o nosso trabalho e para quem ele está
doando. Esperamos que se sensibilize e enten-
da que nós realmente precisamos da doação”,
afirmou Edher.
O Centro da Habilitação Profissional Es-
cola Estadual Célia Rodrigues Duque está lo-
calizado na Rua Miguel Leite, 266, em Vár-
zea Grande, Mato Grosso. Os interessados
podem entrar em contato com a escola pelo
número (65) 9977-2149.
As casas das crianças que poucos desejamao seu lado
maneira que eles se sintam confortáveis, com
um pouco mais de dignidade que eles tinham
anteriormente”, afirmou.
Sol confessa que os diversos casos que
a entidade recebe a tocam profundamente.
“Apesar de todas as limitações físicas, a pes-
soa ainda sofrer violência ou carência de uma
alimentação adequada, de uma higienização
adequada, não é fácil”, afirmou.
Eles precisam de amor
Quando questionada sobre o que eles pre-
cisam, ela responde, de pronto: “envolvimento
amoroso”. “Alguém que tenha um tempo para
dar um carinho, que venha realmente vindo,
de coração, de alma, que possa sentar no chão
para brincar com eles, por exemplo”, contou.
Isso porque os moradores das Casas são, em
geral, abandonados pelos entes queridos e a
solidão é um sentimento comum entre eles.
Ela afirma que as Casas não passam por
privações financeiras, já que os recursos
coletados pela instituição vêm de auxílio de
terceiros. Sol explica que antes, até 1992,
havia um acordo com o poder público, que foi
cancelado devido a atrasos nos repasses. “Nós
não temos tempo para ficar aguardando”. O
dinheiro das doações, segundo Sol, é apertado,
mesmo assim é suficiente.
Hoje a instituição recebe, além dos 22
acolhidos, 5 crianças com deficiência que
moravam no Lar da Criança, fechado em 2014
após denúncia de maus-tratos aos internos.
Por meio de convênio, o município arca com
as despesas de saúde, e as Casas com a hos-
pedagem e alimentação.
“São diversas mãos que sustentam a casa,
e nós esperamos que ela ainda continue,
porque as dificuldades são muitas”, disse Sol.
“As pessoas que queiram se engajar em um
movimento de amor que estejam conosco”,
sintetizou.
Os interessados em doar podem entrar em
contato comSol pelo número (65) 99958-7086.
or outro lado, no bairro Pedra 90,
emCuiabá, o que costumava ser uma
fazenda de engenho se transformou
na casa de 23 pessoas com defici-
ência cerebral e totalmente incapacitados de
viverem sem o apoio de um cuidador. Entre
as grandes árvores de mangueira, plantadas
há alguns séculos por escravos que ali traba-
lhavam, estão espalhadas cadeiras de fio nas
quais os moradores observam a tarde passar.
Longe do barulho da cidade, com o cantar dos
passarinhos e o cheiro de mato e calmaria,
os residentes das Casas Caminho Redentor
vivem em paz.
A história das Casas começou em 1986
quando umgrupo espírita começou a acolher e
ajudar crianças em situação de risco. Mas eles
decidiram, em 1992, receber exclusivamente
crianças portadoras de limitações físicas e
cerebrais, porque elas são as que encontram
maior resistência na hora de serem adotadas.
Hoje a instituição cuida também de jovens e
adultos, das mais diversas faixas etárias, des-
de que estejam vulneráveis perante a família.
Ao todo a entidade conta com 22 funcio-
nários registrados com carteira de trabalho,
profissionais que se ocupam dos cuidados
com os pacientes. A diretoria, no entanto, é
composta apenas por voluntários. Eles ainda
têm parceiros mensais que doam dinheiro,
alimentos, produtos de limpeza, entre outros.
A rotina dos acolhidos consiste em horá-
rios para as refeições, como café da manhã,
almoço e jantar, e também para o banho. As
visitas podem ser feitas até às 16h, visto que
qualquer movimento diferente após o horário
de recolhimento os incomoda.
Maria Soledade de Souza Amadeo, mais
conhecida como Sol, é presidente das Casas
Caminho Redentor. Ela explica que o objeti-
vo das atividades realizadas nas Casas é o
de envolver os pacientes com afeto. “Nossa
missão é assistir, curar, trabalhar com eles da
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