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ELEIÇÕES 2018

A difícil missão de Pedro Taques na reeleição para o governo de MT

Falta de traquejo político e distanciamento de partidos tradicionais opõem objetivo de reeleição de Taques a um alto índice de rejeição

Reinaldo Fernandes

Repórter

Rodivaldo Ribeiro

Editor-adjunto

12/07/2018 07h30 | Atualizada em 12/07/2018 09h50

Em 2014, o ex-senador Pedro Taques (PSDB) deu um salto em sua carreira política ao conquistar o governo com a consolidação da campanha a poucas semanas da votação, como resultado do engalfinhamento de seus adversários, então líderes nas pesquisas. A façanha o fez iniciar seu mandato com autoridade, num contexto de crise do governo anterior, Silval Barbosa (sem partido), e desejo de renovação. Mas os conflitos políticos tendo Taques como epicentro começaram a aparecer logo nos primeiros meses de sua gestão, levando-o a ter, agora, de enfrentar o maior desafio de sua carreira política, e de viés duplo: superar um alto índice de rejeição (entre 30% e 40%, dependendo do instituto) e evitar ser o primeiro governador da história de Mato Grosso a não conseguir a reeleição.

Mesmo seu hoje contestadíssimo antecessor conseguiu ser reeleito apesar das críticas, do desgaste, das investigações e de adversários de peso na luta pela reeleição como Wilson Santos (PSDB) e, especialmente, Mauro Mendes (DEM). A missão é dura, concordam analistas, pesquisadores e outros políticos.

O cientista político João Edisom lembra que historicamente a margem de rejeição de políticos se mostra superável até a margem de 25%, levando-se em conta uma margem de tempo longo o suficiente para superar o período de crise. A extrapolação desse número, entretanto, indica reprovação arraigada.

“Historicamente, a margem de rejeição a um político varia entre 15% e 25%. Quando se está dentro da variação, a rejeição normalmente é efeito de um desacordo com a forma de governar do político, mas que pode ser revertida com mudança de postura, que pode convencer em tempo hábil para se trabalhar isso. Acima disso, ocorre o que chamamos de rejeição real, é uma rejeição da pessoa. Algo pessoal que dificilmente muda, ainda mais sem o tempo necessário para convencer o eleitor do contrário”.

Ele segue a explicar que todo ocupante de cargo executivo (prefeito, governador, presidente) sofre rejeição natural, a chamada rejeição fundamentada, pois é impossível governar para todos, e em democracia se governa para a maioria, ao menos em tese.

No mesmo ano em que colocou no peito a faixa de governador, Pedro Taques conseguiu gerar a maior crise de sua gestão ao entrar numa disputa com servidores públicos em torno da RGA (Revisão Geral Anual), índice que corrige os salários pela inflação. A tentativa de suspender a aplicação do índice levou os trabalhadores a deflagrar greve geral. Por se manter irredutível, o governador fez com que esta durasse mais de trinta dias. Em meados daquele mesmo 2014, uma crise na área da saúde colocou o governador novamente como alvo potencial dos ataques de adversários e até mesmo de alguns aliados.

Pra piorar, desta vez somou-se à briga com o funcionalismo público e alguns políticos a insatisfação quase unânime dos prefeitos dos 141 municípios e da AMM (Associação Mato-grossense dos Municípios) como um todo.

Como num crescendo das insatisfações, ao final de 2017, numa feijoada com a participação de políticos que apoiaram sua candidatura três anos antes, houve o início do rompimento com o PSDB em Mato Grosso. O tom arrogante de Taques ao anunciar sua candidatura à reeleição feriu de morte correligionários do DEM que se sentiram jogados para escanteio com a intenção do governador de relegar a eles somente cargos de suplência nas eleições de outubro próximo.

Todos esses acontecimentos contribuíram para a rejeição ao nome do ex-procurador da República e ex-senador, apontada agora nas projeções de intenção de votos. De pesquisa interna encomendada pelo núcleo tucano a números aferidos por estatística de partidos da oposição, o índice de rejeição ao atual governador corre acima dos 36%, uma margem considerada de difícil reversão e que pode indicar o fim da história de Taques no Palácio Paiaguás.

O cientista comenta que a birra a Pedro Taques começou a se formar na briga com os servidores públicos na disputa da RGA, mas foi muito piorada pela força de sua inabilidade política ao lidar com situações tensas, alimentando a antipatia à sua figura.

“Depois de 2014, a situação da relação com os servidores passou para o público em geral. Não é uma rejeição ao modelo de governo de Pedro Taques, é uma rejeição à pessoa. As pesquisas eleitorais mostram a questão do índice de reprovação pelo país. Em Mato Grosso, temos dois exemplos, o do Murilo Domingos [ex-prefeito de Várzea Grande] que conseguiu reverter a margem de rejeição mostrada nas pesquisas, e de Wilson Santos, que teve implicação com sua figura e não conseguiu vencer as últimas eleições. Taques está no nível do Wilson Santos”.

Estratégias partidárias

A rejeição se mostra na dificuldade que o PSDB tem enfrentado para agrupar apoiadores em torno do projeto de reeleição. A pouco mais de 20 dias para o prazo final de convenções, evento que define coligações partidárias para a disputa eleitoral, os tucanos atraíram sete siglas, conforme Paulo Borges, presidente do diretório estadual. Quase nenhuma de grande peso.

“Temos tempo de fazer articulações, vamos deixar a convenção para os últimos dias do prazo e temos certeza que até lá atrairemos grupos para o projeto do Taques; já temos tendência disso”, diz.

Enquanto isso, um grupo cada vez mais forte vem se formando em torno do DEM, numa articulação de oposição quase uníssona. Mauro Mendes, ex-prefeito de Cuiabá e apoiador da campanha de Taques em 2014, encabeça o projeto democrata e já começa a puxar dissidentes do governo Taques. Nesta semana, o ex-vice-governador Carlos Fávaro (PSD) aceitou convite de Mendes para participar da coligação.  O MDB também mostra aproximação com os democratas, apesar de negociar com o Partido Republicado (PR), do senador Wellington Fagundes, pré-candidato ao Palácio Paiaguás. O partido liderado por Carlos Bezerra coloca ainda o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro, no lado oposto ao de Taques.

O tucano não deve ter apoio nem de seu antigo partido, o PDT. O líder da sigla em Mato Grosso, deputado estadual Zeca Viana, é adversário ferrenho do governo, e a decisão de Taques de deixar no partido, em 2015, seria o principal motivo da briga. E não só com ele, visto que o coordenador da campanha da primeira eleição e da transição da equipe de governo, Otaviano Pivetta, também declara pública e cotidianamente sua decepção com o homem por ele outrora apoiado. Palavras como traidor, autoritário, arrogante e egocêntrico se repetem na boca tanto de Pivetta quanto de Zeca e de outros ex-companheiros, declarados ou não.

 

CENÁRIO DIFÍCIL

Segundo turno está ao desfavor de Taques

Uma eventual disputa para o governo de Mato Grosso entre três candidatos pode pesar contra Pedro Taques, considerando o contexto desfavorável de rejeição a ele para o segundo turno. Na matemática da estatística, hoje, o pré-candidato à reeleição não seria votado por ao menos 30% do eleitorado, deixando a ele 70% do público. Esse grupo ainda seria disputado com outros dois candidatos, reduzindo a distribuição de votos para algo em torno de 23,3%.

“Em eventual segundo turno, o Taques pode ter grande dificuldade de vencer, considerando o contexto atual. Uma coligação entre MDB e DEM, ou qualquer desses partidos com o PR, do Wellington Fagundes, anularia por completo as chances de reeleição. E em Mato Grosso, historicamente, nunca houve um quadro de mudança tão brusca do primeiro para o segundo turno. Pode acontecer, mas não é o que aponta a história”, comenta o cientista João Edisom.

Hoje, além de Pedro Taques, são pré-candidatos ao governo de Mato Grosso Mauro Mendes e Wellington Fagundes. Ambos podem ter o MDB em seus grupos de apoio. No lado dos Democratas, a negociação já foi declarada aberta tanto por Jayme Campos, pré-candidato ao Senado, quanto por Carlos Bezerra, presidente do MDB. Pelos republicanos, Fagundes diz que a negociação teve início no ano passado e o acordo estaria quase firmado.

Em conversa com o Circuito Mato Grosso, Carlos Bezerra afirmou que a decisão do partido será anunciada somente no prazo final para as convenções e até lá o partido ficará aberto a negociações.

No grupo da situação, os tucanos tentam atrair pequenos partidos como PSL, da ex-juíza Selma Arruda e do deputado federal Victório Galli. Selma cogita disputar o Senado ou a Assembleia Legislativa e Galli deve concorrer a novo mandato na Câmara Federal.

Taques ainda busca um pré-candidato a vice-governador e a aposta maior está com Adilton Sachetti (PRB), deputado federal ligado ao agronegócio em Mato Grosso, o que serviria de gatilho para abertura de espaço ao tucano dentre grandes empresários rurais.

O prazo oficial para realização de convenções inicia em 20 de julho e vai até 5 de agosto, mas os grandes partidos devem deixar seus encontros para o último momento. Consulta feita pela reportagem com os partidos MDB, PSDB, PR e DEM mostra que a estratégia é esticar a definição até a última hora para conseguir o maior espaço possível de barganha.

 

DECEPÇÃO TRAZ

Espaço para esvaziamento político

O analista político Onofre Ribeiro diz que a consolidação das candidaturas dos três projetos em articulação em Mato Grosso não irá representar diferenças marcantes entre si, o que irá pulverizar os votos em quantidades proporcionais. Segundo ele, Pedro Taques, Mauro Mendes e Wellington Fagundes atuam em uma mesma linha de ideologia, dentro de um esvaziamento político já identificado nas eleições de 2016.

“Eles têm projetos de governo, mas não têm projetos ideológicos. Não acredito que algum consiga destoar por uma questão política. Nós estamos vivendo um esvaziamento político e nenhum candidato está em condições de apresentar algo novo”.

Para o analista, não haverá um nome de esquerda em representação nas eleições deste ano em Mato Grosso. O esvaziamento gerado pela crise do sistema político também afeta o Psol, sigla que poderia apresentar uma vertente nova de ideias. “Mas o Procurador Mauro, caso apresente candidatura, também tem programa de governo e não de ideologia. Os discursos deles são muito semelhantes”.

Ele comenta que o principal fator em negociação entre partidos para coligação é o tempo de exposição em rádio e TV, visto que o tempo de campanha está reduzido desde 2016, quando caiu de 90 para 45 dias.

“A tendência é que os três candidatos não recebam mais que 35% dos votos e isso não representa muito no número do eleitorado. A eleição pode ser decidida em segundo turno”.

O tempo de propaganda em TV e em rádio é distribuído pela Justiça Eleitoral de acordo com o peso de cada sigla. No Senado, o Estado hoje é representado por José Medeiros (Podemos) e Wellington Fagundes e Rodrigues Palma, ambos do PR. Segundo a Justiça Eleitoral, nestas eleições, o horário eleitoral começa a ser exibido em rádio e TV em 31 de agosto.

A campanha corpo a corpo e em redes sociais, que pode ser o diferencial, começa em 16 de agosto. Antes disso, os deputados estão vedados a pedir votos, mas podem se apresentar como candidatos.

 

CIENTISTA EXPLICA

Rejeição é parte do jogo para quem ocupa o poder

O cientista político e professor João Edisom explica ao Circuito Mato Grosso que os índices de rejeição aferidos em uma projeção de intenção de votos devem sempre ser analisados sob três aspetos. O primeiro deles é humano, demasiado humano.

Como quis e escreveram Nietzsche, a bíblia e Stevenson com palavras diferentes mas significados absolutamente idênticos, só se atiram pedras em árvores muito altas ou carregadas de frutos ou por demais frondosas.

Em termos simples, quanto mais a pessoa é conhecida, mais rejeição ela terá. Gostamos de novidade ou da ideia de. “Normalmente, quando vinda desse conhecimento prévio, pode chegar a até 30%. E aí é rejeição pelo cargo, não importa se governador, prefeito ou presidente. Ninguém passa por nenhum desses cargos sem essa rejeição, que fica plenamente reversível quando entre 17% e 23%, com uma margem de erro de três pontos para mais ou menos. Mas quando fica acima disso, é rejeição pessoal”, adverte João Edisom.

 Se Pedro Taques hoje está, sempre de acordo com as pesquisas divulgadas até o momento do fechamento desta edição (quarta-feira (11), às 20h), na faixa dos 40% e ele tem 20% de rejeição pessoal, essa rejeição vem de vários fatores. Todos muito negativos.

“Frustração, raiva, uma antipatia nascida de um conjunto de coisas e que não é fácil de ser revertida. Chamamos isso de rejeição fundamentada. Então, ela tem impacto muito grande sim dentro do processo eleitoral. Há casos em que ela foi superada, mas pra superar não depende mais só do candidato, mas muito mais de quem ele vai enfrentar”.

Ou seja, a oposição terá que conseguir se pintar como muito melhor do que o atual governo, com capacidade efetiva de mudar e transformar mesmo as coisas até aqui.

Ao fato de enfrentar nomes pesados para o governo, com equipes de comunicação capazes de tornarem Taques antipático aos olhos da população durante a campanha, e a tendência é que os adversários façam isso, mais alianças de oposição fortes, com bastante tempo de propaganda eleitoral gratuita, a missão de Taques fica particularmente difícil. Especialmente na peculiar realidade mato-grossense.

“Há caso de rejeição de 90% que foi revertido, mas o oponente tinha algo em torno disso ou ele cometeu algum erro que levou o outro candidato a conseguir isso”, continua Edisom.

Junto a tudo isso há ainda outro valor a ser levado em consideração: é preciso saber se a pessoa que rejeita Pedro Taques vai decidir ir até a urna e votar. “Porque a tendência de quem tem rejeição é votar no outro, mas há a rejeição advinda da política em geral. E esse tipo de eleitor não vota em mais ninguém, pouco importando o nome”, adverte.

Ou seja, se o eleitor rejeita não só o governador Taques, mas todos os outros políticos também, não será em Mauro Mendes, Jayme Campos ou Welington Fagundes que ele vai decidir votar. Um problema enfrentado há vários anos em democracias mais avançadas e ultimamente nas menos também e que vem aumentando ano após ano em lugares como os Estados mas não só.

“Isso está acontecendo e aumentando não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Além da França, Colômbia e até o Estado do Tocantins, na eleição extemporânea, passou por essa situação”, encerra Edisom.

QUE É ISSO, COMPANHEIRO?

PT diz que queria candidatura, mas ficou só no ensaio

O Partido dos Trabalhadores (PT) até tentou se articular para as eleições de outubro. A ideia difundida até abril passado era não pensar somente nas proporcionais e lançar até mesmo candidato ao governo do Estado, nem que fosse na base de alianças com o velho aliado PC do B (que está em negociação mesmo é com o DEM) e, mais à distância, mas também natimorta, com o Psol, que já declarou que o eterno candidato Procurador Mauro é quem vai pro front uma vez mais.

 Na tentativa agora frustrada, o secretário-geral do PT em Mato Grosso, Nelson Borges, chegou a dizer que o partido fazia reuniões com PC do B, PDT, PSB e o já citado PSol. A ideia então era uma frente de “centro-esquerda” como proposta viável no campo democrático e popular.

Enquanto ele dizia que um intangível arco vinha se fortalecendo, em outra ponta a cientista social e militante histórica Edna Sampaio, negra e cientista social, se colocava como alternativa viável à debandada de nomes mais conhecidos, como os de Lúdio Cabral, Ságuas Moraes, Carlos Abicalil e um hoje queimado e recluso Alexandre César. Tudo em vão, pois a professora universitária não conseguiu o apoio necessário dentro do partido.

Entre as outras siglas citadas, a divisão aconteceu entre, até agora, os dois grupos antagonistas mais fortes: o do governador Pedro Taques (PSDB) por um lado e o do ex-prefeito Mauro Mendes (DEM), acrescido de nomes pesados como do ex-prefeito de Lucas do Rio Verde, Otaviano Pivetta e Zeca Viana (ambos do PDT).

Ainda que setores de dentro do PT insistam, isoladamente e sem muita empolgação fora do nicho mais ligado à militância apaixonada, em reafirmar os já citados nomes como potenciais candidatos, a verdade é que ninguém acredita mais na probabilidade e o partido deve passar a eleição local como coadjuvante quando o assunto for as majoritárias, com seus representantes nos parlamentos estadual e federal correndo sozinhos para renovar seus mandatos.

Para os mais apaixonados, a aposta reside na pulverização dos grupos mais conservadores entre si, o que tornaria crível uma ideia de “candidatura popular” mais à esquerda. Mas aí o dilema de Taques se impõe também ao partido: a rejeição à sigla. Só o ex-presidente Lula manteve a simpatia da população, lembram todos os cientistas políticos ouvidos pelo Circuito. Como até agora ele é carta fora do baralho e dificilmente será solto até as eleições, o sonho da estrela vermelha se revela cada vez mais distante.

 

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