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GRAMPOLÂNDIA PANTANEIRA

"Deixei o cargo por não poder investigar envolvidos", diz Mauro Zaque durante audiência

O promotor de Justiça, na época secretário de Segurança Pública, conta como recebeu denúncia sobre esquema de escuta telefônica através de uma carta anônima

Catia Alves

Jornalista

Jefferson Oliveira

Jornalista

09/02/2018 10h55 | Atualizada em 09/02/2018 13h38

Jefferson Oliveira/CMT

O promotor de Justiça Mauro Zaque, testemunha no processo contra cinco policiais militares envolvidos no esquema de interceptações clandestinas em Mato Grosso, logo denominado pela imprensa como grampolândia, prestou depoimento na Vara Militar do Fórum de Cuiabá, instância jurídica escolhida para tratar a ação.

Durante a audiência, o juiz Murilo Moura Mesquita determinou o levantamento do sigilo judicial do processo a pedido do Ministério Público Estadual (MPE) para que a imprensa agora possa acompanhar os desdobramentos e audiências.

O esquema supostamente ocorreu a mando do primeiro escalão do governo Pedro Taques (PSDB) e foi denunciado por Zaque à Procuradoria Geral da República em 2015. Segundo a denúncia, vários cidadãos, dentre eles políticos, jornalistas, advogados, tiveram seus telefonemas interceptados em um esquema conhecido como “barriga de aluguel”, no qual os números foram inseridos indevidamente em processos de investigação de tráfico de drogas para obter autorização judicial para as quebras de sigilo.

Em seu depoimento, Zaque afirmou que deixou o cargo como secretário estadual de Segurança Pública porque houve falta de apuração do caso. O procurador contou que recebeu um documento sem que houvesse identificação de quem o enviara. Ao analisar, percebeu que algo estava errado e que como secretário não poderia investigar aqueles que caracterizavam a tal “barriga de aluguel”.

Os advogados perguntam neste momento quem enviou a denúncia, mas Zaque não revela a fonte. "A pessoa que manda uma denúncia dessas vai fazer de tudo para proteger a fonte. Ainda mais numa situação dessa magnitude. A gente nem se preocupou em saber como isso chegou, mas o conteúdo do que nos foi enviado", disse.

"Era claro que havia ali algo grave. A situação era muito complicada, pois envolvia o primo do governador, ex-secretário da Casa Civil, Paulo Taques, e sua amante, Tatiane Sangali", continuou o ex-titular da Sesp.

Zaque explica que na condição de secretário não podia e nem devia investigar aqueles fatos e por isso fez um relatório e comunicou a existência da “barriga de aluguel” e que aquilo estava acontecendo para benefício político.

O promotor então revelou o esquema ao juiz Jorge Alexandre, que na época trabalhava na Comarca de Cáceres e era o responsável por assinar as autorizações das escutas, o magistrado, nas palavras de Zaque, ficou pasmo e disse que fora enganado e que tudo tinha que ser investigado e os responsáveis, penalizados.

Mauro Zaque ressaltou que jamais desconfiou que o coronel Zaqueu, pessoa com quem trabalhou em várias operações, estivesse envolvido no caso. Ele fala também sobre sua relação com o coronel Evandro Lesco, ao qual ele se referiu como um homem “de muito respeito”.

Durante o levantamento no âmbito do TJMT, chegou-se à estimativa de que desde 2014, época da qual datam as primeiras denúncias sobre quebra ilegal de sigilos, cerca de 70 mil interceptações telefônicas tenham sido realizadas em Mato Grosso. No entanto, ainda não se sabe quem foram os alvos.

São réus no processo os coronéis Zaqueu Barbosa, Evandro Alexandre Ferraz Lesco, Januário Antônio, Edwiges Batista e Ronelson Jorge de Barros, além do cabo Gerson Luiz Ferreira Corrêa Júnior.  Eles são processados pelos crimes de ação militar ilícita, falsificação de documentos, falsidade ideológica e prevaricação, previstos na Legislação Militar.

A procedência ou não dos crimes apontados será julgada pelo Conselho Especial de Justiça, composto por quatro coronéis e responsável por promover os atos do processo.

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