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CAOS

Falta representatividade na política em Mato Grosso

Nível de corrupção da política no país e a ilegitimidade dos políticos em mandato devem estender cenário de crise entre poder público e sociedade

Reinaldo Fernandes

Repórter

12/10/2017 08h01 | Atualizada em 12/10/2017 07h48

Falta representatividade na política em Mato Grosso

Ilustração

Em 2013, o Brasil foi varrido por uma série de manifestações que levaram multidões para as ruas em protesto contra seus (não) representantes. Foi um fenômeno que pegou de surpresa sociólogos e analistas da opinião pública. Também foi o início oficial, para a história, de uma crise de representatividade que se instalou no país e desde então vem sendo reforçada por descoberta de crimes cometidos por agentes públicos.

Mato Grosso se encaixa bem nessa situação. Além de milhares em manifestação nas ruas, nos últimos quatro anos, a grande maioria das figuras políticas foi marcada por investigações policiais de corrupção. Ex-governadores, presidentes da Assembleia Legislativa, deputados, prefeitos, secretários, empresários e servidores públicos foram expostos como integrantes de uma rede de pagamento de propinas, de desvio de dinheiro e interferência em poderes para favorecimento de alguns.

O ano de 2018 e os próximos devem refletir estado de agonia dessa situação. A falta de legitimidade dos políticos, a crise de representatividade e um sistema eleitoral considerado defasado irão refletir no país por mais algumas eleições.

Onofre Ribeiro

Para o analista de política, Onofre Ribeiro, Mato Grosso e Brasil emitem hoje os sinais de caos que vão acompanhar o ritmo político por no mínimo quatro anos. “O que teremos nos próximos anos é uma situação de caos, com poderes sem legitimidade e inexperiência de novos eleitos, que deverão renovar o quadro político nas eleições de 2018”.

O analista cogita que a implicação dos políticos reconhecidos em investigações sobre corrupção levará à renovação em vários cargos, com a eleição de novos nomes para deputados, por exemplo. Mas, a falta de experiência da nova leva criará entraves para a administração política.

“É possível que até 80% da Assembleia seja renovada nas eleições do próximo ano. A população tende a escolher novos nomes para opor aos que aparecem como corruptos hoje. Mas, faltará experiência e pode haver ímpetos que causem ações pouco favoráveis. Isso significa que Mato Grosso pode ficar travado por no mínimo quatro anos”.

A Operação Malebolge, da Polícia Federal, atingiu diretamente 11 deputados estaduais, que tiveram casas e gabinetes vasculhados em cumprimento de mandados judiciais emitidos pelo STF (Supremo Tribunal Federal).  Mas, o mote da operação, a delação premiada do ex-governador Silval Barbosa (PMDB), apresenta denúncias contra quase a legislatura atual por completo. As principais lideranças dos maiores partidos em Mato Grosso foram envolvidas em crimes.

“A política está desacreditada em Mato Grosso, do governo até o Poder Judiciário foram atingidos pela delação do Silval Barbosa. Nós estamos vivendo um momento muito perigoso, pois falta credibilidade, e não há novos nomes preparados para substituir, e os setores que poderiam apresentar nomes têm um modelo ainda feudal.”

Onofre Ribeiro afirma que a crise atual da política marca o fim da era PT no governo do Brasil, com reflexos nos Estados. Porém, não existe no campo da visão de hoje nenhum grupo político intacto para fazer a transição do país.

“Temos figuras outsiders como [Jair] Bolsonaro (PSC), da extrema direita, mas não acredito que consiga se eleger, e se conseguir o perigoso continua porque os vindos de fora tem pouco traquejo”.

Modelo eleitoral não tem mais representatividade, diz cientista

A falta de vínculo entre o modelo de eleição e a escolha do eleitorado também contribui para o esfacelamento da política. O cientista político João Edisom afirma que a crise de representatividade atual está marcada pela ausência de reflexo de eleitos na vontade da população.

João Edisom (Foto: Ahmad Jarrah/ Arquivo CMT)

“O modelo do Brasil já está defasado. Se vota em partido que escolha que lhe prouver para ocupar o cargo. Há políticos que conseguem votos em locais que não são de origem e se prolongam em mandatos. Como um político desse tipo pode representar a cidadão”.

O cientista é defensor de um modelo mais próximo distrital, onde os candidatos são representantes de região definida, que poderá cobrar a produção de políticas que atendem as carências da sociedade.

“Nós estamos passaram para a situação de ‘aldeias globais’. As pessoas não estão interessadas no que vai acontecer em um lugar longe delas. Elas querem saber o que político pode fazer pelo local onde lá mora, com discursos preparados e de conhecimento de áreas. Não cola mais dizer que se fará de tudo.”

Segundo João Edisom, o modelo de eleição por distrito possibilita esse tipo contato entre políticos e eleitores, apesar de, num primeiro momento, expor a inexperiência política do cidadão.

“No Brasil existe essa dificuldade. Mas, isso pode ser corrigido em poucos anos, mas escolher alguém para governar sem qualquer ligação com uma região cria ainda mais a distância e intensifica a sensação de não se estar representado”.

As eleições por distrito misto ou distritão eram um dos pilares da reforma política em andamento na Câmara, mas modelo foi rejeitado pelos deputados federais. Em votação no dia 19 deste mês, os deputados rejeitaram a proposta de substituir o modelo atual de proporcional para distritão em 2018 e 2020 e, a partir de 2022, para o distrito misto.

No distritão são eleitos os mais votados. Os votos dados aos não eleitos e àqueles que dados em excesso são desconsiderados. Hoje, os partidos conseguem ‘eleger’ correligionários esses votos.

No modelo distrito misto, metade das cadeiras é reservada para os candidatos mais votados em cada distrito (Estado, município) e a outra metade para o sistema proporcional.

Líderes dos maiores partidos são citados em delação

Os líderes dos maiores partidos em Mato Grosso estão implicados em alguma denúncia de corrupção. No PMDB, o deputado federal Carlos Bezerra e o prefeito Emanuel Pinheiro são citados em delação premiada do ex-governador Silval Barbosa com a PGR (Procuradoria Geral da República). O primeiro teria intermediado a desapropriação de um terreno pelo Estado no valor de R$ 32 milhões, e teria embolsado R$ 1 milhão por participação no esquema. Também é citada em delação de empresários do grupo JBS como beneficiário de doação R$ 500 mil paras as eleições de 2018.

Dilmar Dal Bosco

O prefeito Emanuel Pinheiro aparece em vídeo gravado por Silval recebendo maços de dinheiro em pagamento de mensalinhos para apoiar o governo entre 2010 e 2014. Ambos contestam as denúncias e se dizem vítimas de deturpação de fatos. Também estão lista de denunciados os deputados Romoaldo Junior e Wagner Ramos.

O deputado Dilmar Dal Bosco (DEM), líder do governo na Assembleia Legislativa e líder dos democratas em Mato Grosso, é outra figura que aparece em vídeo da delação. O nome dele aparece em uma lista de 24 parlamentares que teriam recebido mensalinho.

A lista também contém o nome procurador do Estado, Alexandre César, presidente do Diretório estadual do PT, sigla que teve baixa representatividade nas eleições municipais de 2016, em efeito da situação de caciques em investigações no país.

O PSD, do ex-presidente da Assembleia Legislativa, José Geraldo Riva, tem figuras reconhecidas e também manchadas pela delação, como os deputados José Domingos Fraga e Ondanir Bortolini “Nininho”.

A reportagem tentou conversar com os nomes citados, mas não houve retorno até fechamento desta edição.

Jayme diz que política irá ser depurada até as eleições

O ex-senador Jayme Campos diz que ainda é cedo para se discutir nomes e coligações para as eleições de 2018. Ele diz acreditar no “surgimento” de nomes que possam colocar a política em Mato Grosso e do Brasil em novo patamar de reversão da crise atual.

“A campanha eleitoral só começa em agosto, até lá, muita coisa ainda vai acontecer e nomes vão surgir e conseguir resgatar a credibilidade da classe política, que hoje vista diretamente como criminosa e corrupta”.

Ele afirma que o diferencial será o entendimento da política como “missão” para trabalhar em âmbito público, algo visto como perdido na conjuntura atual composto por profissionais da política.

“Quem só faz política não sobrevive, é preciso trabalhar para ter sustento próprio. Se não trabalha, vai querer vai negócios com empresas, empreiteiras, e vai transformar a política em balcão de negócios”, comenta.

Jayme Campos afirma ainda que o quadro político de eventuais candidatos será deputado até meados de 2018, período em que se poderá definir grupos e nomes para concorrer a cargos.

“Não dá para falar agora como ficará o cenário até porque não sabemos o vai acontecer, quem vai aparecer em denúncias, quem vai sobreviver às acusações”.

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