Terça-Feira, 24 de Janeiro de 2017
RETROSPECTIVA

Violência amedronta mato-grossenses em 2016

Apesar de o Estado ter investido mais em efetivo, dados estatísticos não mostraram melhoras

Violência amedronta mato-grossenses em 2016
 

Mato Grosso enfrentou um ano bastante conturbado no que se refere aos quesitos de vulnerabilidade social, criminalidade, violência e segurança pública, passando por atentados à capital, orientados de dentro dos presídios, prisão de terrorista acusado de planejar ações durante os Jogos Olímpicos realizados no Rio de Janeiro e até ataque a um caixa eletrônico dentro da sede do Comando Geral da Polícia Militar, em Cuiabá. Na outra ponta, o Estado tem investido em efetivo, aumentando um pouco mais a sensação de segurança da população, porém, dados estatísticos de crimes como roubo, furto, tráfico de drogas e latrocínio fecham 2016 de maneira negativa se comparados ao mesmo período do ano passado.

GRUPO DE EXTERMÍNIO

A “Operação Mercenários”, deflagrada no dia 26 de abril, apura a ação de um grupo de extermínio na Baixada Cuiabana. As investigações apontaram pelo menos 17 pessoas envolvidas no grupo que matava sob encomenda, não só pessoas com antecedentes criminais, mas também inocentes. A ação foi deflagrada pela Secretaria de Estado de Segurança Pública, por meio das polícias Civil, Militar e Politec. Entre os presos estão seis policiais militares, seis vigilantes, dois informantes, dois homens identificados como mandantes e um apontado como intermediário entre o grupo e os contratantes. Os mandados foram expedidos pela 1ª Vara Criminal da Justiça de Várzea Grande.

Com os suspeitos foram apreendidas armas (espingardas calibre 12, pistolas 9 milímetros, revólveres) e munição, além de coletes balísticos, placas de veículos, luvas, roupas camufladas e uniformes da PM.  

NOITE DE TERROR E ATAQUES COORDENADOS

A noite do dia 10 de junho, uma sexta-feira, chocou e deixou a população mato-grossense aterrorizada,  sobretudo, em Cuiabá e Várzea Grande, onde diversos ataques a ônibus foram registrados, sendo alguns completamente tomados pelo fogo. Os ataques teriam partido de detentos que, de dentro da Penitenciária Central do Estado, incentivavam os crimes. Isso porque eles estavam insatisfeitos com a suspensão dos banhos de sol e visita de familiares, resultado da greve dos agentes penitenciários com o objetivo de pressionar o governador Pedro Taques (PSDB) em relação ao pagamento da Revisão Geral Anual (RGA). Conforme o delegado, Flávio Stringueta, as ações foram executadas por integrantes de células do PCC e do Comando Vermelho, além de outros pequenos grupos agregados. Também foram registrados ataques a agentes penitenciários e a delegacias no interior do Estado. 

 

ESTADO ISLÂMICO EM MATO GROSSO

Valdir Pereira da Rocha, de 36 anos, foi capturado na operação Hashtag, da Polícia Federal, em julho passado. Ele era suspeito de integrar um grupo de terroristas suspeito de ter ligação com o Estado Islâmico e que planejavam realizar ataques durante as Olímpiadas no Rio de Janeiro. Houve prisões de suspeitos em várias regiões do País. Valdir conseguiu ficar foragido, mas se entregou no dia 22 do mesmo mês no município de Vila Bela da Santíssima Trindade, a 560 km de Cuiabá (MT). Ele ficou inicialmente detido na Penitenciária Federal de Campo Grande, porém, não foi comprovada sua participação no grupo terrorista e determinada sua soltura. Ainda assim Valdir tinha um mandado em aberto por crimes cometidos em Mato Grosso e foi então transferido para a Cadeia Pública de Várzea Grande. Em VG, ele teria se envolvido em uma confusão, foi espancado e ficou gravemente ferido. A família optou por desligar os aparelhos após Valdir ser encaminhado para atendimento médico e ter a morte cerebral confirmada.

 

ARROMBAMENTO DE CAIXA ELETRÔNICO DENTRO DO COMANDO DA PM

Dados de roubos e furtos também fecharão o ano com acréscimo em relação a 2015. Recentemente a ousadia dos criminosos chamou a atenção da população quando uma explosão e tentativa de arrombamento a um caixa eletrônico foi registrada dentro da sede do Comando Geral da Polícia Militar, em Cuiabá, no dia (05.12). Os bandidos não conseguiram levar nada do local, deixando somente os entulhos e sujeiras provenientes da explosão. Em nota a instituição informou que houve falha na segurança orgânica do prédio. Para apurar o crime e se houve envolvimento e oficiais, foi instaurado um Inquérito Policial Militar.

 

 

 

VIOLÊNCIA SOCIAL

CRIANÇAS: Os crimes dessa natureza também tiveram uma crescente em Mato Grosso. Principalmente os casos envolvendo crianças e adolescentes. De acordo com dados da Secretaria de Estado e Segurança Pública (Sesp), em média 15 ocorrências envolvendo menores de 18 anos são registradas por dia em Mato Grosso. Desses quinze, três são casos de estupro de vulnerável.

Segundo dados da Sesp, houve um aumento de 34% em relação ao ano de 2014, quando foram registrados 632 casos no ano inteiro. Já em 2015, o número saltou para 764, registrando aumento de cerca de 20%, em 2016, até o mês de novembro, foram 847 registros.

 

 

IDOSOS: Violentar a dignidade dos jovens seres humanos já é um ato de covardia, mas a situação não é diferente em relação às pessoas idosas. Segundo pesquisas do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (Comdipi), em Cuiabá, por dia, dois idosos são vítimas de violência. Dentre os crimes dessa natureza, destacam-se os de abandono, maus-tratos e apropriação de bens.

Detalhe importante a ser destacado e que é apontado pelos delegados responsáveis por essas ocorrências, Eduardo Botelho da Delegacia Especializada de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente (Deddica) e a delegada responsável pelo Núcleo de Atendimento ao Idoso, da Polícia Judiciária Civil (PJC), Cláudia Lisita, é que em ambas as situações os agressores são próximo às famílias, quando não as próprias.

As denúncias chegam até o núcleo por meio de denúncias presenciais ou por telefonemas, podendo se feitas de maneira anônima.

 

ESTUPROS: Os casos de estupro também tiveram um aumento de quase 50% se comparados com o mesmo período do ano passado.  De acordo com a defensora pública do Núcleo de Defesa da Mulher, Rosana Leite Antunes de Barros, esse número pode ser ainda maior, porque apenas 10% dos casos são notificados às autoridades.

ANÁLISE

Para o especialista em segurança pública, Naldson Ramos, a intensificação de policiamento, maior efetivo de policiais e trabalhos em operações, blitz e abordagens – principalmente da Polícia Militar – foi o único ponto positivo da segurança este ano em Mato Grosso. “O único avanço da segurança pública este ano foi colocar um maior efetivo nas ruas. Pois a sensação de segurança é aumentada quando a sociedade vê a polícia trabalhando nas ruas”.

Segundo Naldson, o erro é persistir no mesmo erro. “O erro é o mesmo há tempos, que é pensar que segurança se faz apenas com a atuação das polícias. Os dados negativos apontam que essa estratégia de segurança não produz resultados que de fato tragam segurança e redução dos dados”.

Para ele, segurança engloba uma série de fatores que precisam ser entendidos pelos governantes. “Enquanto os governantes não entenderem a complexidade da segurança pública - que vai muito além de contratação de pessoal e distribuição de viaturas -, mas também realizar trabalhos na área da prevenção, assistência social e se investir na inteligência policial - no levantamento de provas, denuncias e identificar as causas e grupos que atuam no fomento dos dados da criminalidade, nada vai mudar”.

Ele ressalta o que seria ideal para 2017. “Uma segurança pública mais próxima da sociedade, que valorize as pessoas que estão em situação de vulnerabilidade social. O Ideal é que tenhamos todas as políticas de assistência, educação, esporte e lazer atuando conjuntamente junto a essas áreas onde as pessoas se encontram vulneráveis”, finaliza.

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