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BECO 20 ANOS DEPOIS

Moradores em situação de rua continuam sofrendo com violência

Eles já perderam a família e se encontram em situação de risco a todo instante, seja pelo uso de drogas ou por agressões praticadas por terceiros

Jefferson Oliveira

Jornalista

05/07/2018 07h30 | Atualizada em 10/07/2018 10h01

Vinte anos após a chocante chacina ocorrida no Beco do Candeeiro, região central de Cuiabá, jovens, negros e moradores de rua ainda sofrem com a violência. De acordo com números do Ministério dos Direitos Humanos (MDH), os casos de violência contra a população de situação de rua aumentaram 33% em Mato Grosso comparando os anos de 2016 e 2017.

Entre as maiores vítimas de violência desta população em Mato Grosso estão os pretos e pardos. Em Cuiabá, moradores de rua reclamam que sofrem agressões e temem pela própria vida. O Circuito Mato Grosso conversou com moradores que invadiram o Morro da Luz em 2017.

Cristina Silva, 34, que há 20 anos mora na rua, relatou à reportagem que ela e outros moradores de rua vivem sofrendo ameaças e agressões, seja por parte da polícia ou por outras pessoas. “Todo dia é assim: a polícia chega, aborda e fica enchendo o saco, às vezes até não estamos fazendo nada, mas eles já chegam nos agredindo e nem querem saber de nada. Fora as pessoas que nos veem na rua e querem agredir só porque não estamos bem-vestidos”, relatou ela.

Beco do Candeeiro

A chacina no Beco do Candeeiro aconteceu no dia 10 de julho de 1998, por volta das 19h, quando os adolescentes Edileu dos Santos Araújo, 14, conhecido como Baby, Reginaldo Dias Magalhães, 16, e Edgar Rodrigues de Almeida, 15, vulgo Indinho, estavam fazendo uso de drogas no local.

Edilson Alves Ferreira Junior, que na época tinha 16 anos, também seria morto na chacina que chocou Mato Grosso, mas conseguiu fugir e se tornou testemunha ocular do triplo homicídio.

Mesmo com o passar do tempo, o delegado Adriano Peralta (ex-diretor geral da Polícia Civil no Estado) disse que esse perfil de violência foi estudado e conceituado lá atrás, por Cesare Lombroso, considerado o pai da criminologia moderna. “O Lombroso faz um estudo que é muito contestado na atualidade, e tem várias teorias, mas [ele diz que] toda violência tem a ver com desigualdade social, com a situação em que vive o criminoso”, disse.

A resposta foi uma referência ao fato de as maiores vítimas de violência e também as que mais a cometem serem habitualmente pessoas de baixa renda, em situação de vulnerabilidade, pretas e pardas. A falta de assistência social também é outro grande problema para as vítimas dessa violência.

Em Mato Grosso foi criado o Fórum População em Situação de Rua, que cobra a realização de políticas públicas que atendam a essas vítimas em estado de vulnerabilidade, correm riscos constantes e não contam com apoio dos órgãos competentes.

Segundo a defensora pública Rosana Monteiro, o fórum “é uma instância de reivindicação de direito” para atender a população em situação de rua em Cuiabá. Hoje, cerca de 400 pessoas vivem nessa situação na capital. A maioria se agrupa em locais com alta circulação de drogas, conhecidos como cracolândias, na região do terminal rodoviário, no bairro Alvorada, no Porto e no Centro Histórico.

“O Fórum foi recém-criado em articulação da Defensoria Pública do Estado com os direitos humanos para lutar pelas políticas públicas em relação às pessoas em situação de rua. Queremos identificar suas necessidades e fazer a reivindicação de seus direitos, atuando na formação política deles, para que tenham voz, tenham condições de se expressar e dizer aquilo que eles querem”.

O Conselho Regional de Serviço Social (CRESS-MT) faz um alerta sobre a importância de priorizar a população em situação de rua nessa questão que envolve a dependência química.

“A situação não deveria se pautar numa prática meramente higienista nem tal problema será resolvido de maneira imediata. É preciso uma política estadual sobre drogas, criar uma rede pública envolvendo as diversas instâncias, com parceria de entidades não governamentais, e não simplesmente transferir responsabilidades”, disse a presidente do CRESS-MT, Andréia Amorim, em matéria divulgada pelo jornal.

Casos de violência

O jornal relatou alguns casos de violência contra moradores de rua, algumas vezes praticadas pelos próprios ‘companheiros’ outras por terceiros. No dia 13 de julho de 2017, um homem foi assassinado por volta das 12h30 em uma casa abandonada na Rua Trigo Loureiro, bairro Araés, em Cuiabá, nos fundos da loja Decorliz.

O corpo de Vitor Teodoro Filho, de idade não informada, foi encontrado sobre uma cama. Ele teria sido executado possivelmente com golpes de faca. Uma equipe da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) esteve no local fazendo as apurações sob o comando da delegada Ana Cristina Feldner.

Dois suspeitos que residem no mesmo endereço foram levados para a delegacia, onde serão interrogados. Segundo moradores, todos são desempregados, dependentes químicos, moram na rua e às vezes ganham dinheiro trabalhando como cuidadores de carro (flanelinhas).

Já no dia 16 do mesmo mês, um morador de rua identificado como Marcos Ferreira de Campos, 39, foi encontrado morto por volta das 13h na Avenida Olacyr Francisco de Moraes, na cidade de Campo Novo do Parecis (401 km de Cuiabá).

Populares passaram pela avenida e encontraram a vítima caída no chão com marcas de facadas. A PM foi até o endereço e constatou que Marcos estava sem vida. De acordo com a polícia, o local que o homem foi morto é conhecido por concentração de moradores de rua que fazem uso de bebida alcoólica.

A Polícia Civil não conseguiu localizar até ao momento testemunhas que presenciaram o crime nem há pista do assassino.

No mês de agosto também de 2017, um morador de rua foi brutalmente assassinado com golpes de madeira na cabeça, após se envolver em uma briga com outros moradores na região da rodoviária de Cuiabá.

A Polícia Militar foi acionada para atender o caso de violência quando se deparou com a vítima ferida no chão e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e informou que a vítima apresentava traumatismo craniano provocado por pancadas na cabeça.

A vítima acabou não resistindo aos golpes e veio a óbito, mas nenhum suspeito foi localizado.

Em março deste ano, na cidade de Cotriguaçu (950 km de Cuiabá) um morador de rua morreu depois de ficar dois meses internado após ser vítima de estupro e espancado por três adolescentes na cidade.

A Polícia Civil relatou que os adolescentes com idades de 14, 15 e 16 anos utilizaram um cabo de vassoura para abusar sexualmente da vítima e também um pedal de moto, além de espancar o morador sem motivo algum.

Após o crime, os menores chegaram a ser apreendidos, mas foram liberados cinco dias após a detenção.

Chacina traumática

O dia 10 de julho de 1998 se tornou inesquecível para Cuiabá e principalmente para as famílias vítimas que hoje vivem fora de Mato Grosso e participam do programa nacional de proteção a testemunhas.

No local onde aconteceu o triplo homicídio foi criada uma estátua pelo escultor e artista plástico Jonas Lima Corrêa Neto, para homenagear as vítimas. Quando aconteceu o crime, a única testemunha ocular do caso, Edilson Alves Ferreira Junior, acusou e reconheceu por meio de fotografia o policial militar aposentado Adeir de Souza Filho como sendo o autor da chacina.

Edilson afirmou ao Ministério Público Estadual (MPE) que Adeir se aproximou das vítimas e atirou, matando seus amigos e que ele só sobreviveu porque conseguiu correr a tempo. Quatorze anos após o crime, o ex-policial foi inocentado das acusações.

O julgamento durou oito horas e, segundo a sentença proferida pela juíza de direito que presidiu o Tribunal do Júri, Mônica Catarina Perri Siqueira, o júri não reconheceu que Adeir tenha efetuado os disparos de arma de fogo contra os adolescentes. Adeir era o último acusado no processo a ser julgado.

O policial, que já havia sido condenado por outros dois crimes no interior do Estado, foi inocentado e cumpre o restante das penas de outros crimes em regime semiaberto e trabalha em uma autoescola como instrutor de veículo.

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