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Ruanda se reconstrói 20 anos após genocídio

Era 1994, o Brasil chorava a morte de Ayrton Senna, a África do Sul elegia seu primeiro presidente negro no pós-apartheid, o Reino Unido e a França inauguravam o Eurotúnel e a Otan fazia o primeiro ataque contra aviões sérvios durante a guerra da Bósnia. No mesmo ano, em 100 dias, de abril a junho, 800 mil pessoas morriam assassinadas em Ruanda. O genocídio, termo adotado após muito debate nos comitês da ONU, foi um dos episódios mais sangrentos da segunda metade do século XX, e afetou quase um terço da população do pequeno país do centro da África.

06/04/2014 13h00 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

 
A matança de tutsis, etnia minoritária de Ruanda, começou a ser organizada poucos anos antes pelo governo de maioria hutu. O estopim foi a morte do presidente Juvenal Habyarimana, que teve seu avião alvejado, num crime até hoje não resolvido. Sem o presidente, os radicais do governo se apropriaram da administração e eliminaram opositores. A extinção tutsi virou política de Estado, campanha promovida com incentivos e ameaças e enfatizada em discursos na rádio e na TV. "Basicamente, o genocídio foi causado por um desejo de elites em manter o poder e uma população aberta à manipulação por causa da pobreza crônica", explicou ao G1 Nigel Eltringham, professor de antropologia da Universidade de Sussex, no Reino Unido.
 
O genocídio não apenas matou entre 800 mil e 1 milhão de pessoas (nas estatísticas do governo), como acabou com toda a já precária estrutura do país.
 
Vinte anos depois, no entanto, Ruanda exibe estatísticas surpreendentes: redução da pobreza de 59% em 2001 para 44,9% em 2011, um crescimento econômico de 8% ao ano, PIB per capita de US$ 1,5 mil (contra US$ 575 em 1995), 95% de taxa de matrícula no ensino primário e taxa de alfabetização de 71%. Segundo o relatório 'Fazendo Negócio' do Banco Mundial de 2013, o país aparece em 52º dos 185 países mais fáceis para fazer negócio e em 8º no ranking de melhores nações para se começar um negócio.
 
Tudos esses ótimos indicadores foram conquistados com pouca liberdade de expressão e repressão política do atual governo. Outra crítica é a falta de julgamento de crimes cometidos pela guerrilha tutsi que terminou com o genocídio. Organizações internacionais também apontam o envolvimento da atual administração no conflito da vizinha República Democrática do Congo.
 
Apesar de viver sob um governo quase autocrático, os ruandeses devem ver, em pouco tempo, seu país ficar independente da ajuda internacional - responsável por 86% do orçamento do país em 2001, hoje o envio estrangeiro chega a 40%. O dinheiro das doações foi a base para a reconstrução do país. Um mundo envergonhado pela omissão e falta de atitude deu boas gorjetas à nação devastada. Assim que o genocídio acabou e que as cifras de mortos foram estampadas, as potências tentaram compensar seu silêncio com uma boa verba para reconstrução. Mas a verdade é que a inação da comunidade internacional fez com que Ruanda ficasse marcada como um vergonhoso exemplo de indiferença e abandono das potências mundiais.
 
Poucos dias depois do início da matança, uma tropa bem treinada de franceses, belgas e italianos correu para retirar os estrangeiros do país. Enquanto Ruanda recolhia corpos nas ruas, o mundo debatia na ONU se a palavra genocídio era mesmo a mais apropriada para classificar a situação - e retirava tropas de paz.
 
Em maio, um mês depois do estopim do massacre, os ruandeses estavam sozinhos em seu campo de luta. O registro do massacre foi feito em sua maioria pelas organizações humanitárias, que trabalhavam na região já antes do genocídio - e alertaram exaustivamente para a tragédia que se anunciava diante dos seus olhos. "O fracasso das potências foi muito chocante e vergonhoso. E quando começou o massacre, todos viam e sabiam. Não foi só que não houve resposta, mas a ONU tirou muitas das tropas no meio do genocídio", contou em entrevista ao G1 Carina Tertsakian, pesquisadora sênior da organização Human Rights Watch.
 
G1
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