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FORA DO PIS/COFINS

Gilmar: Decisão sobre ICMS terá "consequências desastrosas"

O STF decidiu que o ICMS repassado por empresa a consumidores não pode ser considerado faturamento

18/03/2017 14h48 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

Foto Reprodução

DO CONJUR

Ao dizer ser inconstitucional a inclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da Cofins, o Supremo Tribunal Federal cometeu um erro histórico que poderá afetar todo o sistema tributário do Brasil. Pelo menos de acordo com o ministro Gilmar Mendes, voto vencido na discussão, encerrada no dia 15 de março. “Tudo leva a crer que as consequências deste julgamento serão desastrosas para o país.”

No dia 15, o Supremo definiu a tese de que o ICMS repassado por empresas a consumidores, embora entre no caixa das companhias, não pode ser considerado faturamento. É apenas o repasse do valor do tributo que será pago, depois, pela companhia. Não se pode considerar, portanto, que a empresa fatura aquele valor. Venceu a tese da relatora, ministra Cármen Lúcia, que foi acompanhada pela ministra Rosa Weber e pelos ministros Celso de Mello, Marco Aurélio, Ricardo Lewandowski e Luiz Fux.

Gilmar ficou vencido ao lado dos ministros Dias Toffoli, Luiz Edson Fachin e Luís Roberto Barroso. Para eles, o ICMS repassado a consumidores deve, sim, integrar a base de cálculo do PIS e da Cofins por significar “incremento patrimonial” no balanço das empresas. Por mais que o dinheiro não fique na conta das companhias, ele integra o caixa delas, ainda que momentaneamente, e faz parte dos preços que ela pratica no mercado.

De acordo com o ministro Gilmar, a decisão foi uma demonstração de “hipertrofia do controle judicial”. Segundo ele, o Supremo, com a tese, estendeu os limites do conceito constitucional de faturamento para adequá-lo à tese que implique em redução do imposto.

Gilmar afirma que não existe “um conceito pronto e acabado” de faturamento na Constituição que possa ser aplicado ao caso para dizer, “de modo categórico”, que o ICMS não pode fazer parte da base de cálculo do PIS e da Cofins. Ele diz que, antes de 1998, o Supremo entendia como faturamento a “receita bruta” auferida pela empresa. Portanto, era tudo o que de fato ficava no caixa da companhia.

Depois da Emenda Constitucional 20/1998, no entanto, o artigo 195, inciso I, alínea “b”, da Constituição passou a dizer que “a seguridade social será financiada por toda a sociedade”, mas, da parte do empregador, o tributo incidirá sobre “a receita ou o faturamento”. “Respeitado o núcleo essencial da noção de faturamento, o legislador dispõe de uma relativa liberdade para cuidar da matéria, fixando as margens do conceito em questão”, afirma. “É tarefa do legislador demarcar esse conceito!”

Ele cita passagem de manifestação de Alexander Hamilton, um dos autores da Constituição dos Estados Unidos, impressa no livro O Federalista, uma coletânea de artigos dos autores do texto constitucional — o título original em inglês é Federalist Papers, algo como “artigos federalistas”. Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro dos EUA, afirma que, num governo em que os três Poderes são separados, “o Judiciário, pela própria natureza de suas funções, será sempre o menos perigoso para os direitos políticos previstos na Constituição, pois será o de menor capacidade para ofendê-los ou violá-los”.

“Destaco essa passagem para lembrar-nos da necessária autocontenção que o exercício da jurisdição constitucional reclama”, completou Gilmar. “O Judiciário não tem a bolsa nem a espada: seu poder repousa na autoridade e, por assim dizer, na eficácia da própria Constituição.”

Desastre no bolso

O recurso em que o Supremo definiu a tese tinha repercussão geral reconhecida. Isso significa que a tese vai se aplicar a todos os processos que tratam do assunto e já estão em trâmite no Judiciário. E a todas as ações que ingressarem daqui para frente.

De acordo com as contas da Presidência do STF, no dia do início do julgamento, havia 10 mil processos sobrestados tratando do tema. A Fazenda afirma que houve ingresso de novas ações em 2006, quando houve mudanças legislativas, então o número hoje deve ser maior. O ministro Gilmar ainda prevê uma “fuga de ações” por parte de empresas que pagaram PIS e Cofins com o ICMS na base de cálculo e pleitearão o dinheiro de volta.

Em 2015, a Fazenda calculou que as perdas anuais com essa tese seriam de R$ 27 bilhões por ano. No projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2017, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional afirma que as perdas serão de R$ 250 bilhões. A conta é exagerada: considera que todos os que têm direito à reposição do dinheiro irão à Justiça, ganharão e receberão o máximo possível.

No entanto, ainda segundo a Fazenda, o PIS e a Cofins, tributos usados para financiamento da Seguridade Social, representam 21% da arrecadação total do país. Isso significa R$ 284,3 bilhões em 2016, conforme prevê a Lei Orçamentária. Com a decisão, a Fazenda terá de devolver R$ 205,1 bilhões a contribuintes que pagaram PIS e Cofins “majorados” — é o que o Direito Tributário chama de “indébito”: tributos pagos, mas considerados inconstitucionais, que devem ser devolvidos pelo Fisco.

Desastre sistêmico

Gilmar Mendes afirma que a decisão do Supremo “encadeia uma reforma tributária judicial”. “Agora vai ter que sair despiolhando tudo o que tiver cobrança de imposto sobre imposto, como ICMS, ISS, IPI, coisas que o Supremo já declarou constitucional”, disse à ConJur. No voto, ele se refere, por exemplo, à inclusão do ICMS na base de cálculo do ICMS. A inconstitucionalidade da incidência de imposto sobre imposto se aplica apenas aos tributos não cumulativos, diz.

Com a decisão sobre o ICMS no PIS e na Cofins, “implode-se o sistema tributário brasileiro tal como hoje conhecemos”. “Não tenho dúvidas em afirmar que esta decisão servirá de grande estímulo à criação das inúmeras outras teses tributárias a ocuparem a pauta dos tribunais nos próximos anos.”

Gilmar afirma ainda que “a história está repleta de casos de julgados com consequências desastrosas”. Um deles é o caso Dred Scott vs. Sandford, no qual a Suprema Corte dos EUA, em 1857, decidiu que, como os negros não estavam protegidos pela Constituição, não podiam ser considerados cidadãos e, por isso, não tinham direito de ingressar na Justiça Federal do país.

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