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PALAVRA DE MÉDICO

‘Cão que ladra às vezes morde’, diz médico sobre tendência ao suicídio

Neury José Botega é pioneiro no país na técnica de abordagem ativa do tema com pacientes que chegam em estado de sofrimento e pensam em se matar

Rose Domingues

Jornalista

20/09/2018 07h33 | Atualizada em 20/09/2018 09h04 5 comentarios

‘Depressão não é tristeza’. Com esta frase o psiquiatra e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Neury José Botega, referência nacional em saúde mental, reforçou a necessidade de conhecer os sinais de que alguém está em um quadro depressivo e com isso prevenir grande parte dos casos de suicídio.

No Brasil, esse tipo de morte vitimou mais de 11 mil pessoas em 2016, conforme último dado oficial do Ministério da Saúde. A maior parte desses suicídios está na faixa etária entre 15 e 29 anos e é relacionada a doenças mentais como a depressão, que já afeta 5,8% da população ou 11,5 milhões de brasileiros.

Mas a grande dúvida para quem se depara com a questão é saber: isso é apenas uma tristeza passageira, melancolia ou depressão? Embora haja um limiar muito sutil, há meios de identificar a diferença? É justamente disso que trata o livro lançado em Cuiabá por Botega, com o título “A tristeza transforma, a depressão paralisa”.

Ele conta que ao longo dos anos de trabalho, deparou-se com muitos casos em que pacientes em sofrimento extremo (e tendência ao suicídio) sequer se sentiam tristes ou tinham um perfil melancólico, alguns aparentemente estavam na melhor fase da vida, mas se sentiam desconectados, cansados e isolados. Por isso, quando a família diz ‘não ter visto sinais’ provavelmente está dizendo a verdade.

“Quem quer se matar se mata”, “quem quer morrer não fica ameaçando” ou “cão que ladra não morde” são crenças que aparecem muito frequentemente nos diálogos e não condizem com a realidade. Além disso, atrapalham a comunicação com quem está necessitando de ajuda. “Cão que ladra às vezes morde sim, não subestime, se alguém disser que quer morrer é porque realmente pode estar pensando e planejando isso”.

Botega é um pioneiro na postura de conversa ativa com os pacientes, mesmo quando o tema era tratado como tabu no Brasil, inclusive pela mídia que deixou de noticiar. Durante palestra nesta semana para um público de profissionais de saúde em Cuiabá, o especialista frisou que é essencial falar a respeito e perguntar abertamente a quem chega à unidade de saúde se já pensou ou até se planejou a morte.

“Na minha experiência, quando a questão surge e é tratada de forma respeitosa, sem julgamentos e palavras de autoajuda, gera um alívio ao paciente. Quem está nesse estágio de sofrimento quer muito falar, se abrir, está pedindo socorro, mas não sabe como fazer. Muitas pessoas me agradecem até hoje por eu ter perguntado, porque depois disso conseguiram superar o problema e retomar a vida”.

Uma pesquisa realizada pelo núcleo de saúde mental coordenado pelo professor identificou que é muito comum as pessoas pensarem em morrer. Em Campinas, a cada 100 habitantes 17 já pensaram em pôr fim à própria vida, ou seja, tiveram pensamentos suicidas; 5 a cada 100 chegaram à fase de planejamento (que requer intervenção imediata); e 3 finalmente tentaram o suicídio.

“Nenhuma sociedade no mundo zerou os índices, porque este é um fenômeno inerente ao ser humano. Nesse sentido, não podemos assumir uma postura, enquanto profissionais da saúde, de onipotência missionária querendo salvar a todos. Mas, por outro lado, mais de 90% dos casos podem ser evitados. Trabalhar com a prevenção requer uma nova postura frente ao problema, livre de preconceitos”.

Impressão x realidade

Questionado sobre o aumento das taxas de suicídio, Botega pontua que de fato, nos últimos 10 anos, os índices caíram na maior parte dos países, seguindo uma tendência sugerida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que é diminuir o número de casos em 10% até 2020.

Mas no Brasil esse índice aumentou 10% entre os anos de 2002 e 2014, ou seja, não é ‘impressão’, é realidade. O sul do país aponta os maiores índices, com o dobro da média nacional, e principalmente de casos ligados a agricultores. Já no Mato Grosso do Sul, é frequente o suicídio entre a população indígena. Outra parcela muito afetada pelo problema, mas de forma silenciosa, é composta por policiais, pessoas que têm arma e sabem como ‘se matar’.

No ano de 2015, mais de 788 mil pessoas morreram por suicídio no mundo, o que significou quase 1,5% de todas as mortes, estando entre as 20 maiores causas de morte; e a segunda causa entre jovens de 15 a 29 anos. Para o especialista, é preciso analisar o tema em sua complexidade, porque o suicídio hoje é um desejo tanto para jovens da periferia, que são privados de tudo, quanto por aqueles de classe média ou alta.

“Fizemos uma pesquisa com adolescentes grávidas e chegamos à conclusão que é três vezes maior a chance de que tentassem o suicídio do que meninas na mesma idade, no mesmo bairro, que não estivessem grávidas. Fatores como migração, abuso físico e/ou sexual, uso de maconha e álcool podem potencializar o problema em seis ou oito vezes. Quando estamos nos referindo a esse público, é preciso entender que muita coisa já deu errado na vida daquela pessoa até chegar a nós. Como vamos poder ajudar essa família?”.

De um modo geral, a falta de um sentido de vida e a sensação de solidão são sentimentos frequentes entre os jovens que tentam o suicídio. A busca por ‘se cortar’ e comportamentos que exponham a riscos são sempre sinais de alerta para a família, mesmo quando não há pedido de ajuda ou aparentemente está tudo bem. Mesmo com taxas absolutas maiores, as grandes metrópoles perdem para cidades do interior quando o assunto é suicídio.

“Mais de 32 pessoas se matam diariamente no Brasil, praticamente uma morte por hora, somos o 8ª no mundo. As nossas estatísticas são altas, graves, subnotificadas, porque mais de 20% não compõem os números oficiais. Temos que deixar crenças e preconceitos de lado para falar exaustivamente e entender melhor o problema que está matando principalmente nossos jovens”.

Crise da economia

O aumento da pobreza, o desemprego e a falta de recursos para proporcionar uma vida digna à família vêm potencializando o aumento das doenças mentais no Brasil, principalmente entre os homens. O país já é recordista mundial, segundo a Organização Mundial de Saúde, em prevalência de transtornos de ansiedade: 9,3% da população sofrem com o problema. Ao todo, são 18,6 milhões de pessoas.

O pesquisador avalia que as incertezas econômicas geram um quadro de adoecimento generalizado, com cada vez mais pessoas chegando à idade jovem adulta (que é a faixa etária mais atingida pelo suicídio) com quadros graves de depressão e ansiedade, em que os pensamentos de ‘não ver um futuro’ ou ‘não acreditar no futuro’ se instalaram.

No mundo, o número de pessoas com transtornos de ansiedade era de 264 milhões em 2015, com um aumento de 14,9% em relação a 2005. A prevalência na população é de 3,6%. É importante observar que muitas pessoas têm tanto depressão quanto transtornos de ansiedade, que se não tratados podem gerar crises e a morte.

“Claro que países mais ricos e organizados também lidam com casos de suicídio, porque este é um tema universal, um problema humano. Mas as estatísticas mostram que pobreza, falta de perspectiva e oportunidade e inseguranças potencializam muito os fatores de risco. Temos que falar sobre isso no Brasil, refletindo sobre mudanças que permitam maior inclusão social e maior humanização”.

Abandone os manuais

Os estudos sobre a depressão, segundo Neury Botega, datam de 400 antes de Cristo, quando Hipócrates publicou a primeira teoria sobre o temperamento humano. A partir de observações sobre humor e personalidade, que é diferente em cada indivíduo, ele viu que essas diferenças têm relação com os hormônios que regulam o organismo. Alguns são mais alegres, expansivos (sanguíneos), outros mais preguiçosos, frios, pacíficos (fleumáticos), há aqueles mais diretos, raivosos e impulsivos (coléricos) e ainda os reflexivos, introvertidos (melancólicos).

“Se na terra há um inferno, deve estar no coração do homem melancólico”. Mesmo tendo se iniciado na Grécia, esse conhecimento só foi aprofundado entre o fim da Idade Média e o Renascimento, por volta do século 14, normalmente, voltado para o estado de melancolia como traço da depressão. Realmente, o humor mais deprimido pode gerar perda de interesse ou prazer de viver, sensação de vazio, isolamento e baixa autoestima, mas não leva necessariamente ao suicídio.

Então, onde está a diferença entre tristeza e depressão? Em seu livro ele mostra que o tempo de duração e a forma como esse sentimento é percebido pela pessoa são cruciais. A depressão nem sempre tem sinais de melancolia, pode ter traços de agressividade, falta de energia e motivação, isolamento até das pessoas que se ama, como se a pessoa não se reconhecesse mais e deixasse de fazer coisas que gostava. ‘O que aconteceu comigo, doutor?’.

Botega conta a história de uma senhora já idosa diagnosticada com depressão que com o passar dos anos viu sua necessidade de isolamento aumentando, a ponto de ela se sentir incomodada quando a campainha tocava. Eram seus netinhos. O desconforto de ter que recebê-los se agigantou junto com o sentimento de culpa: “Eu não os amo mais? O que está acontecendo?”. Com muita vergonha, ela justificava apenas uma necessidade muito grande de ficar quietinha no seu canto.

Também afetou um senhor de negócios que era dono de uma empresa com mais de 700 funcionários, alguém dinâmico, expansivo, confiante, que em uma fase da vida se deparou com sentimentos contraditórios. Embora não admitisse a ninguém, ele sentia tremor e medo quando as contas chegavam, porque poderia não conseguir pagá-las. Passou a sentir dúvida, insegurança, a não dormir bem, estourar com facilidade, tornando-se agressivo e não ver um sentido na vida.

“Algumas pessoas usam uma armadura para esconder que por dentro estão em frangalhos; a depressão, ao contrário da tristeza, que é um sentimento absolutamente normal e salutar, gera paralisia, muito medo, a pessoa não sabe o que está acontecendo, mas também não tem forças para fazer as mudanças necessárias para sair daquilo até que o quadro pode ir piorando e as ideias suicidas se intensificando”.

O psiquiatra relata que uma vez um professor frisou a ele ‘que não há crescimento sem sofrimento’. Mas após muitos anos de auto-observação, pesquisas e atendimento de seus pacientes, chegou à conclusão que é algo simples, mas verdadeiro. “As melhores fases da minha vida foram marcadas por tristezas, perdas, mudanças, mas isso não necessariamente me gerou depressão, me propiciou transformações necessárias para que eu pudesse avançar”.

Ele pede atenção às mudanças de comportamento e não só de humor, quando alguém deixa de fazer aquilo que sempre fez e gostava, como tocar um instrumento, sair com amigos, conversar, fazer viagens, pode ser que haja algo errado. Normalmente estar triste não impossibilita alguém de sair, pelo contrário, a pessoa cede ao apelo e acaba agradecendo por ter espairecido. Mas alguém com depressão normalmente inventa desculpas para o isolamento e não sai.

Neury Botega é pós-doutor pela Universidade de Londres e fundador da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio, professor da Unicamp, também é autor de vários livros nesta área, entre eles: “Crise Suicida: Avaliação e Manejo” (2015), “Prática Psiquiátrica no Hospital Geral” (2002, 2006, 2012, 2017), “Telefonemas na Crise: Percursos e Desafios na Prevenção do Suicídio” (2010), “Comportamento Suicida” (2004), “Saúde Mental no Hospital Geral: Espaço para o Psíquico” (1993, 1997) e “Serviços de Saúde Mental no Hospital Geral” (1995).

Onde buscar ajuda

 A falta de investimento e atenção na saúde mental é uma das críticas do professor da Unicamp à saúde pública brasileira. Hoje, se um adolescente ou adulto jovem tem uma crise, onde levar? A quem recorrer? Por isso a prevenção, que começa em casa e na escola, deve ganhar cada vez mais destaque.

Quando se deparar com o problema, uma das alternativas mais adequadas, em um primeiro momento, é encaminhar a pessoa com ideias suicidas para o Centro de Valorização da Vida (CVV), que tem uma equipe preparada para ouvir sem julgar. Pelo telefone 188 é possível falar a qualquer hora, dia, de qualquer telefone, gratuitamente.

Sobre o Setembro Amarelo, é um movimento mundial de prevenção ao suicídio que foi iniciado em 2015 no Brasil pelo CVV, Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria. Também mundialmente o IASP – Associação Internacional para Prevenção do Suicídio.

Outras informações: www.setembroamarelo.org.br.

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5 COMENTÁRIOS

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