Sexta-Feira, 24 de Março de 2017
CIDADANIA

Projetos sociais como ferramenta de inclusão em Mato Grosso

Inúmeros projetos de iniciativa popular ajudam crianças a crescerem com dignidade, longe das ruas e das drogas em MT

Projetos sociais como ferramenta de inclusão em Mato Grosso
 

O esporte é um mecanismo de transformação social, que vai além do imaginado e do esperado. Prova disso são inúmeros atletas que vencem a fome, miséria e todos os tipos de dificuldades que a vida lhes impõe para serem campeões, tanto na vida profissional como atleta ou em qualquer outra profissão.

Em Mato Grosso, existem dezenas de pessoas que dedicam suas vidas para tirar as crianças das ruas, das drogas, além de lhes proporcionar disciplina e um sentido na vida. Jonathan Lopes, 26 anos, é um dos exemplos. Ele batalha diariamente para continuar o legado do pai, que é ajudar crianças carentes do Bairro São João Del Rey, por meio do futebol, na periferia da Capital.

Professor na Escolinha Satélite, ele ensina mais de 100 crianças a se tornarem cidadãos de bem. A escola que foi fundada pelo pai de Jonathan, Lourival Lopes da Silva, tem mais de 25 anos e nunca parou de funcionar. Porém, há seis meses, uma crise se abateu sobre o projeto com a morte trágica de Lourival Lopes, aos 52 anos, vítima de um acidente de trabalho.

“No dia em que o pai dele faleceu, olha o que as crianças falaram: ‘O que vai ser de nós agora? Onde que vamos treinar?’”, disse o professor Adilson, mais conhecido como Cérebro.  Adilson conta que a tristeza foi tanta que algumas crianças não quiseram mais voltar a treinar, pois tinham na figura de Lourival Lopes um pai. “Ficou um vazio muito grande”, lembra.

No começo da Escolinha, segundo relatam os professores, mais de 300 crianças e adolescentes se reuniam para jogar futebol no campo que deve receber o nome do fundador do projeto. Bento Costa Silva, 40 anos, era uma dessas pessoas. Hoje o filho dele frequenta a escola e outros dois maiores também já passaram pelo projeto.

Bento conta que quando Lourival morreu pensou que o projeto iria acabar. “Um trabalho bom que a gente viu crescer. A maioria dessa gurizada não tem pai nem mãe, é criada com os avós. Deus iluminou o filho do Lourival para continuar o projeto”, afirma Bento, que sempre acompanha o filho nas partidas.

Jonathan começou a trabalhar na escola três meses antes do acidente que matou seu pai, e depois ficou responsável pelo projeto. Ele é jogador profissional e se orgulha de falar do trabalho social que Lourival fazia. Jonathan também foi revelado pela escolinha e quer continuar o legado que Lourival Lopes começou.

“Vejo essas crianças aqui, filhos de pessoas que começaram a treinar comigo e até netos, e é um orgulho tremendo continuar o trabalho do meu pai”, acrescenta Jonathan. Ele aproveita para ressaltar que a escola precisa de ajuda.  Chuteiras, bolas, coletes e ajuda financeira são bem-vindas.

Coletivo oferece aulas de artes marciais, Inglês e Ballet

Outros projetos também se destacam em Mato Grosso, como o Coletivo Cuiabá, que tem mais de três anos de atividades. O fundador, Felipe Wellaton, explica que antes eles se reuniam com amigos para distribuir presentes e realizar atividades recreativas com crianças do Bairro Parque Geórgia, em Cuiabá, geralmente no Natal e Dia das Crianças.

A ideia de criar o Coletivo Cuiabá veio após Felipe ser questionado por uma criança, após acabar de receber o presente. Ela perguntou quando ele iria voltar. “Aquela pergunta me deixou com a pulga atrás da orelha. Então eu falei assim: ‘O tio vai construir algo para voltar mais vezes’ e por isso me despertou o desejo de fazer”, descreve Wellaton.

Hoje o Coletivo Cuiabá é um projeto consolidado e que atende mais de 60 crianças regularmente. Dentre as atividades desenvolvidas estão cursos de Inglês, aulas de Jiu-Jitsu, Muay Thai, Ballet, que são realizados de forma regular. Porém, ainda existem outras atividades esporádicas, como aulas de reforço de português, espanhol, oficina de Grafite dentre outras.

Segundo Wellaton, as atividades são uma maneira de empoderar as crianças, o que possibilita que elas aprendam algo útil para sua vida. “Não são brinquedos que mudam a realidade das pessoas. O que faz diferença, que tranforma, é o acesso à educação e à cultura”, acrescenta Felipe.

Projeto ensina Jiu-Jitsu há 12 anos em Rondonópolis

No interior do Estado, em Rondonópolis, há 12 anos o professor Paulo César Venâncio, 64 anos, tira crianças da rua e as ensina a se tornarem cidadãos. O Sensei Venâncio, professor da arte suave, já impactou mais de duas mil crianças carentes por meio do projeto “Jovens Samurais”.

Ele explica que para dar oportunidades melhores de vida a essa “criançada”, trabalha quatro pilares. O primeiro é acreditar em si próprio; o segundo é treinar ou trabalhar em cima do objetivo; o terceiro é melhorar a cada dia e o quarto é compartilhar e multiplicar o conhecimento adquirido.

Para o Sensei, esses princípios abrangem não só as artes marciais, mas todas as profissões. “Para ser um bom profissional, primeiro ele precisa acreditar nele mesmo, depois que ele acredita precisa trabalhar por isso, correr atrás”, demonstra Venâncio.

O professor também foi coordenador do projeto “Arte Suave – Caminho da Sabedoria”, patrocinado pela Petrobrás. Por três anos consecutivos o projeto fez diversos campeões e qualificou professores para trabalhar com as crianças carentes do município. No entanto, o apoio por parte da petroleira foi cancelado, após o envolvimento na Operação Lava Jato.

Venâncio acrescenta que com essa atividade, crianças e adolescentes de oito bairros distantes de Rondonópolis eram atendidos. Ainda oferecia lanches para as crianças que não tinham condições e um grupo de trabalho multidisciplinar com psicólogos e pedagogos. “Era muito complexo no início, mas se tornou mais leve depois de certo tempo e muitos resultados positivos apareceram, mas infelizmente acabou”, lamenta o Sensei Venâncio.

Xadrez faz campeões em Campo Novo do Parecis

Incluir as crianças em situação de vulnerabilidade na sociedade, esse é o objetivo da Associação de Xadrez de Campo Novo do Parecis, que ensina crianças a jogarem o game de tabuleiro, que é também esporte Olímpico. Segundo o professor de educação física Cleiton Marino Santana, 33 anos, o objetivo agora é expandir o projeto para outras cidades do Estado.

Cleiton disse que era atleta de futsal e atletismo, mas desde que um amigo o ensinou a jogar Xadrez, não quis fazer outra coisa. Segundo ele, teve desempenho acima da média em algumas competições, então resolveu focar apenas neste esporte e repassar o conhecimento adquirido.

Mais de três mil crianças já passaram pelo projeto e hoje Campo Novo do Parecis tem nove campeões estaduais de Xadrez, dentre 12 categorias. “O Xadrez ajuda as crianças no raciocínio, na escola e ajuda a pensar antes de agir. Essas aplicações do jogo são transferidas para a vida da criança”, defendeu Marino.

Após participar de gangues, professor sonha em deixar legado

Participava de gangues quando mais jovem até que um professor o chamou para fazer parte do Jiu-Jitsu. Este relato é do professor de artes marciais Marcos José de Souza, 37 anos, mais conhecido como Marcão. Agora ele trabalha para transformar a vida de milhares de jovens com o “Projeto Renovar”, com sede na cidade de Campo Verde e filial em oito cidades do Estado.

O Renovar atende crianças a partir de quatro anos e ensina Jiu-Jitsu e Muay Thai. Apenas em Campo Verde são 200 alunos de Jiu-Jitsu e 300 de Muay Thai, de onde já saíram lutadores profissionais, pilotos e advogados.

Marcão esclarece que o objetivo do projeto é formar cidadãos e tirar crianças de situações de vulnerabilidade. “Nós temos parceria com o Conselho Tutelar, então essas crianças que estão dando trabalho na sociedade nós buscamos para colocar dentro do projeto”, conta.

O projeto começou em 2002 e tem o apoio da Prefeitura de Campo Verde desde 2006. Marcão conseguiu implantar o projeto em mais sete cidades de Mato Grosso, que são: Nova Olímpia, Tangará da Serra, Arenápolis, Campo Novo do Parecis, Jaciara e Primavera do Leste.

O Sensei sonha em deixar um legado quando chegar à velhice. “Lá na frente, quero olhar para traz e falar que fiz algo para mudar a vida de alguém. Mesmo sem condições financeiras e passando tantas dificuldades, eu quero deixar um legado”, finaliza Marcão.

Outros projetos

Também se destacam em Mato Grosso, projetos como o da Secretaria de Segurança Pública, Rede Cidadã, “Bola de Meia, Bola Gude”, em Chapada dos Guimarães, Casa do Atleta, em Barra do Garças, Instituto Vicente Lenilson, de atletismo, em Cuiabá, Instituto David Moura, Vôlei Kids, Karatê Esporte e Cidadania dentre outras iniciativas de sucesso. 

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