PUBLICIDADE
PROBLEMA CRÔNICO

Ensino médio de MT fica entre piores no ranking do país

Índice Geral do Ideb 2017 divulgado semana passada aponta que escolas estaduais ficaram na 21ª colocação

Da Redação

Equipe

13/09/2018 07h30 | Atualizada em 13/09/2018 10h02 1 comentario

São mais de 10 quilômetros do centro até chegar ao bairro Dr. Fábio, periferia de Cuiabá, onde fica a Escola Estadual João Crisostomo de Figueiredo. Com cerca de 1.000 alunos nos três períodos, a instituição alcançou apenas 2.0  no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2017, o pior da capital.

Com voz embargada, a coordenadora Cristiane Inês Stimamilio, que é professora de Biologia e efetiva do estado há cinco anos, diz que foi muito triste receber a notícia do Ideb, que causou uma comoção entre os professores. Ela atribui o fracasso principalmente ao alto índice de rotatividade dos educadores, que até o ano passado eram contratados, e à falta de motivação dos alunos.

“Estamos numa região em que as histórias de vida desses jovens pesa muito, alguns dizem em sala de aula que ‘são burros e não conseguem aprender’. Apesar de termos conseguido este ano seis professores efetivos, o que vai ajudar, ainda precisamos de muito mais apoio do Estado para conseguir reverter esse quadro, que é triste”.

A professora de Química, Rosimeire Rocha Araújo, de 38 anos, vem se dedicando à educação pública há 10 anos e se sente desanimada, como se todo esforço fosse em vão. “Lidamos com alunos agitados, indisciplinados e com pais que só vêm à escola se o filho reprovar. Hoje nos falta estrutura física e pedagógica para oferecer atividades que despertem mais interesse nos jovens”.

Na capital, entre as 37 unidades estaduais, só oito tiveram os resultados calculados. O melhor desempenho é da Escola Estadual Antônio Epaminondas, do bairro central Lixeira, com 4.3. Já o pior resultado  no estado é de Cocalinho, a 960 km da capital, já na divisa com Goiás, que alcançou 1.8. Entre as escolas públicas da Baixada Cuiabana, como Várzea Grande (2.7), Acorizal (2.7), Rosário Oeste (2.7), Santo Antônio de Leverger (2.5) e Barão do Melgaço (2.5), os índices também são baixos.

O próprio ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva, avalia as desigualdades entre as escolas brasileiras como absurdas e diz que o ensino médio está no “fundo do poço”; e os números refletem isso, pois nenhum estado atingiu a meta do Ideb 2017. Apesar da pujança na produção agrícola e na pecuária, Mato Grosso está entre os cinco estados brasileiros que tiveram redução nos índices, ficando em 21º no ranking nacional.

O desempenho alcançado pelas escolas públicas mato-grossenses foi de 3.2, valor 1.2 abaixo do Ideb projetado para o ano no Brasil, de 4.4, e 0.7 a menos que a meta estadual de 3.9. Em 2015, o resultado de 3.0 também estava abaixo da meta de 3.5. O que era ruim conseguiu ficar pior.

Mesmo a rede privada está aquém do esperado, com índice de 5.6, bem abaixo dos 6.4 projetados, pouca coisa maior que os 5.3 de 2015. Quando incluídos os números de escolas públicas e particulares, a queda em relação ao restante do país é maior, descendo para o 22º lugar no ranking, atrás apenas de estados como Paraíba, Sergipe, Amapá, Rio Grande do Norte, Pará e Bahia no Ideb do ensino médio.

Mas o problema no ensino do estado é crônico, e com índices que variaram no ensino médio (escolas públicas) entre 2.6 e 2.9, nos anos de 2005 e 2009, no governo do atual ministro da Agricultura e Pecuária, Blairo Maggi; e 2.7 no período do seu sucessor, o ex-governador Silval Barbosa, que está preso desde 2015 por liderar esquemas de fraude e corrupção.

Apesar dos discursos políticos anunciarem quase sempre a educação como prioridade, na prática os números mostram o contrário: os alunos estão saindo do ensino básico sem saber ler, escrever e fazer contas básicas. O gigante na economia demonstra que não vem fazendo o dever de casa e assim reprovando no quesito mais básico para o desenvolvimento da nação.

 

No fundo do poço

Oriundo do ensino público de Goiás, Wilsley Pereira, o coordenador gral de Ensino Médio do Ministério da Educação (MEC), conta que é nascido de um lar de mãe e pai separados, foi criado pela avó analfabeta e entende o drama à qual passa educação. “Eu ia pra escola de chinelo de dedo preso com um grampo e caderno dentro de um saco plástico de açúcar, sei como é difícil, mas alguém me disse que eu conseguiria, eu acreditei e é disso que nossos alunos precisam”.

 Ele admite que os índices divulgados na semana passada pelo MEC são um desastre para o Brasil e reforçam a necessidade urgente da reforma proposta pela Lei 13.415, aprovada em fevereiro do ano passado e que ainda está em fase de discussão. Outra medida importante é investir em escolas de tempo integral, atualmente, das 18 mil unidades escolares do país, apenas 900 – menos de 1% - oferecem jornada estendida e obtiveram mais de R$ 1 bilhão em investimento do ministério.

“Estamos apostando na implantação desse novo ensino médio, que não vai desempregar ninguém, nem extinguir disciplinas como filosofia ou sociologia, pelo contrário, vai estender a carga horária de 2.400 horas anuais (ou 200 dias letivos) para 3.000 horas. Também propõe uma metodologia que visa a formação integral e estimule o estudante a ter um projeto de vida. Além de estudar as matérias básicas, vai  se dedicar a disciplinas eletivas e optativas, como ocorre nos Estados Unidos”.

Após três edições consecutivas sem alteração, o Ideb do ensino médio avançou apenas 0,1 ponto em 2017. Apesar do crescimento observado, o país está distante da meta projetada. De 3,7 em 2015, atingiu 3,8 em 2017. A meta estabelecida para 2017 é de 4,7. O crescimento é considerado inexpressivo pelo ministro, que classificou a notícia como ‘trágica’.

Até 2015, os resultados do ensino médio, diferentemente do ensino fundamental, eram obtidos a partir de uma amostra de escolas. A partir da edição de 2017, o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) passou a ser aplicado a todas as escolas públicas e, por adesão, às escolas privadas. Pela primeira vez o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) passou a calcular Ideb para as escolas de ensino médio.

Conforme o MEC, o Ideb é um indicador de qualidade educacional que combina informações de desempenho em exames padronizados (Prova Brasil ou Saeb) – obtido pelos estudantes ao final das etapas de ensino (4ª e 8ª séries do ensino fundamental e 3ª série do ensino médio) – com informações sobre rendimento escolar (aprovação).

 

Sim, é permitido sonhar

Ana Julia Silva de Pontes, 17 anos, é aluna do 3º ano do ensino médio na Escola Estadual João Crisostomo de Figueiredo, mas, mesmo diante das dificuldades sonha em cursar Direito na universidade. Apaixonada por poesia, ela diz que seus escritores preferidos são Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa. Com meta de ter notas acima de 8.0 em todas a provas, ela vem se dedicando nos últimos meses. “Muitos colegas meus não acreditam que vão conseguir ir muito longe, já desistiram, mas eu quero sim ser advogada, estou me esforçando”.

 

O mesmo diz o sorridente Celso Douglas Santos Araújo, de 15 anos, morador de Várzea Grande, e aluno do 1º ano do ensino médio da Escola Estadual Ulisses Cuiabano, no bairro Jardim Cuiabá, que tem um objetivo ousado: passar para Medicina. “Quero ser cirurgião ortopedista e meu irmão (gêmeo) também”. Se considera um leitor assíduo, com média de mais de 5 livros por mês e desde o ensino fundamental cuida para que as notas estejam sempre entre as melhores.

“Gosto da minha atual escola porque tem muita disciplina, projetos extras e os professores incentivam bastante a gente. O Clube de Leitura é um estímulo porque além de ler as obras, também fazemos comentários e compartilhamos o que aprendemos”. Ele não se importa de levantar todos os dias por volta das 5h da manhã, pegar dois ônibus para chegar à aula. “O sacrífico vale a pena”.

Para o diretor da instituição, o professor Dimas Antônio da Silva, que também preside o Colegiado de Diretores de Cuiabá e Vale do Rio Cuiabá, o principal desafio principalmente nesta faixa etária entre 11 e 18 anos é despertar a motivação para estudar. Após receber os resultados do Ideb, ele disse que se reuniu com os professores, que se sentem despedaçados com os baixos números.

“Chegamos à conclusão que sozinhos não temos como avançar, é preciso mais apoio do governo e da família, porque escola não é creche nem depósito de aluno, cabe aos pais, por exemplo, criar os filhos de modo que saibam conviver socialmente e também participarem do processo educacional, impondo regras, metas, estimulando, deve ser uma parceria casa-escola-governo”.

 

Ele reclama da Secretaria de Estado de Educação (Seduc) que vem sistematicamente atrasando repasses importantes para a manutenção da escola, o que expõe o diretor ao constrangimento. Este ano, dos quatro repasses, por enquanto foram depositados apenas dois. Além disso, ele critica a forma como é ofertado ensino integral pelo Estado, que não dispõe ainda de um projeto que realmente ofereça ‘algo a mais’ ao aluno.

“Compro fiado, no meu CPF, então, a dívida é minha. Vamos vivendo assim, sempre na corda bamba, fazendo milagres, malabarismo. O professor é crucificado pelos baixos índices, mas é preciso mostrar o outro lado, de como a gente vive aqui na ponta, das desigualdades sociais, regionais, dificuldades, porque lidamos com muito mais que ensinar, nós lidamos seres humanos que muitas vezes estão com suas vidas esfaceladas”.

A escola, apesar de ter média de 4.0 no Ideb, tem conseguido promover seus alunos a várias universidades. Neste ano, 20 foram aprovados, dos quais 12 na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), um deles para Medicina. “A gente se mexe, faz aulão do Enem no sábado voluntariamente, convida professores para palestra, faz atividades extras, não tem como ficar parado”, acrescenta Dimas, que já circulou pelos shoppings de Cuiabá e Várzea Grande para arrecadar livros para a biblioteca.

 

Foco na disciplina

 Aos 34 anos, o capitão da Polícia Militar Jeferson Mascarenhas pela primeira vez está à frente da coordenação de uma escola. Ele se mudou de Barra do Garças para Confresa (a 1.180 km da capital) com a missão de contribuir com o futuro dos alunos da Escola Estadual Militar Tiradentes Cabo José Martins de Moura, onde estudavam no ano passado 180 alunos.

 

Mesmo com nota de 6.7 no Ideb, ele não está satisfeito, diz que para o ano que vem quer ultrapassar 7.5 ou 8. “Nosso foco não é apenas a melhoria do aluno, mas da família e da sociedade, por isso o estudante para ter acesso faz um processo seletivo e os pais, no ato da matrícula, assinam um termo de compromisso de que vão participar ativamente, vir a todas as reuniões e acompanhar o filho”.

 Aliás, a educação militar da rede estadual ocupou as melhores colocações nos anos finais do ensino fundamental no estado. Individualmente, as unidades militares de Juara, Nova Mutum e Sorriso alcançaram 6.5 pontos e, a de Cuiabá 5.9, a melhor nota alcançada entre todas as escolas estudais na Baixada Cuiabana, um total de 60.

 Este ano a situação está um pouco diferente, o que segundo ele aumenta o desafio, porque a escola está com 10 turmas e um total de 300 alunos, mas está com uma estrutura reduzida, a começar pelo número de coordenadoras pedagógicas, que eram duas e agora é apenas uma. “Nós já cansamos de pedir mais uma profissional junto à Seduc e até agora nada, temos receio que isso impacte nos nossos resultados”.

Para ele, a disciplina é a chave para acessar melhores condições de ensino. Mas sem motivação nenhum dos estudantes consegue avançar, já que a atual geração de crianças e jovens dispõe de vastas possibilidades de diversão e distração. “Também cobramos uma postura diferenciada da família, implantamos um método em que o pai ou a mãe precisa vir até a escola assinar um TAC – Termo de Ajustamento de Conduta se comprometendo a auxiliar na melhora do comportamento da criança ou do adolescente”.

As cinco escolas militares que fizeram as provas do Ideb somam 2.489 estudantes e estão com as inscrições abertas até o dia 10 de outubro para o próximo para o processo seletivo de 2018. 

Para o governo

 Esse é o melhor momento da Educação em 10 anos”. Por meio de nota, a Seduc afirmou que o Estado está fazendo a sua tarefa e avançando, e que o Ideb não tem a proposta de ranking. A rede estadual conta com 40 escolas integrais, sendo 39 Escolas Plenas e a Arena da Educação (foco no esporte). Também é outro ponto apontado como importante para os avanços a reformulação do ensino médio, que está sendo discutida.

 Sobre recursos aplicados, a secretaria disse que neste ano está investindo R$ 7.604,54/aluno, contra R$ 6.140,52 (2016) e R$ 7.028,00 (2017). A rede estadual de ensino é formada por 767 unidades e 387 mil estudantes. Anualmente são feitos quatro repasses referentes ao Projeto Político Pedagógico (PPP) / Programa de Desenvolvimento da Escola (PDE) – conforme o número de alunos de cada unidade.

 Dois repasses já foram feitos. Os valores podem ser investidos em produtos de material permanente ou de consumo. Os outros dois repasses estão programados para setembro e dezembro. No total, em cada parcela, são investidos em torno de R$ 10 milhões.

 É importante lembrar que a Seduc é alvo de um das maiores investigações por fraudes e o ex-secretário de Educação Permínio Pinto está preso desde 2016, por participar de um esquema de corrupção para desviar verba da educação e seria para quitar dívidas de campanha do governador Pedro Taques (PSDB).

 

.

1 COMENTÁRIO

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

  1. É muito ruim saber que não basta tanto o esforço dos profissionais da área para melhorar a educação do nosso país, a melhoria vem desde o crescimento, como já diz o Diretor "Chegamos à conclusão que sozinhos não temos como avançar, é preciso mais apoio do governo e da família, porque escola não é creche nem depósito de aluno, cabe aos pais por exemplo".

Comente, sua opinião é Importante!

PUBLICIDADE