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A DROGA DA DESTRUIÇÃO

Conheça trajetória da cocaína fumável na baixada cuiabana

Crack apareceu em Mato Grosso em 1990 e foi gradualmente substituído pela pasta-base, mais potente. Poder público tenta lidar com epidemia

Jefferson Oliveira

Jornalista

19/04/2018 07h00 | Atualizada em 19/04/2018 07h34

De acordo com estudos do advogado membro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-SP Caio Rivas, o primeiro relato de uso de crack no Brasil se deu em 1989, na cidade de São Paulo. Em Mato Grosso, a droga foi introduzida já nos anos 90 e foi descoberta quando a Polícia Federal realizou a prisão do boliviano Robin Rosales Agreda. Ele trazia 200 quilos de crack e também era dono de um laboratório de refino de cocaína.

Na época da introdução da droga no país, Mato Grosso era usado como principal porta de entrada do então novo entorpecente, que partia da Bolívia e da Colômbia e era armazenado no estado para em seguida ser distribuído aos grandes centros, como Rio de Janeiro e São Paulo.

A droga surgiu como uma solução encontrada pelos traficantes para o problema do preparo e refino da cocaína, quando toda a sobra da pasta-base ficava armazenada (grudada) nos fundos dos tambores de batismo da droga. Para não perder dinheiro, os traficantes passaram a vender pequenas pedras desse resto raspado dos tambores, o crack, por um preço bem baixo.

De acordo com o delegado da Delegacia de Repreensão a Entorpecentes (DRE) de Cuiabá, Vitor Chab Domingues, os efeitos iniciais do crack e da pasta-base são mais rápidos e intensos do que o de outras drogas e geralmente vicia o usuário em apenas duas ou três vezes de consumo. A duração dos efeitos do crack é muito curta, em média três a cinco minutos.

Em agosto de 2017, o Circuito Mato Grosso esteve no Morro da Luz e conversou com alguns dependentes da droga que haviam se mudado para o local, durante a demolição da Ilha da Banana, em Cuiabá.

Cristina Silva, 34, entrou no mundo das drogas aos 14 e desde então os problemas com a família a levaram a morar na rua e se virar para manter o vício. Vinda de Cáceres (212 km de Cuiabá), ela contou que a primeira droga ilícita que experimentou foi o crack e que não a largou mais.

“Um dia, ao sair da escola com uma amiga minha, fomos para a casa dela, os pais dela usavam droga e ela também. Começamos a beber, eu nunca havia bebido e aí experimentei, fiquei bêbada e fumamos a pedra (crack e ou pasta-base), e não larguei mais”, disse Cristina.

“Eu trabalhava, já fui vendedora em loja, sei ler e escrever, mas depois comecei a só pensar em droga, abandonei tudo e comecei a viver de vez na rua. Faz 20 anos que saí de casa. No começo, ainda conseguia viver e usar drogas, hoje, vivo pela droga”, completou.

Ao longo de quase 30 anos, as polícias vieram trabalhando para erradicar o uso do crack no estado. Desde a primeira prisão, em 1990, de membros da falange boliviana e traficantes colombianos, o crack foi deixando de ser consumido em Cuiabá, e o Estado de Mato Grosso hoje é utilizado apenas como rota de exportação.

Vitor Chabe conta que a droga tem sido o mal do século e de difícil combate. “Infelizmente, a droga é um mal do século que vem abastecendo as festas e locais públicos e temos o número de usuários crescendo, mas o saldo da nossa unidade tem sido positivo no combate às drogas”.

Substituição do crack pela pasta-base

Vitor Chab Domingues contou ao jornal que em Cuiabá não se tem mais o uso de crack como no Rio de Janeiro em São Paulo e que os usuários da região metropolitana do estado fazem o uso de pasta-base de cocaína, que praticamente tem o mesmo princípio ativo do crack.

A pasta-base ganhou popularidade durante e depois da crise econômica da Argentina (1999 - 2001) e espalhou-se pelos países vizinhos, principalmente o Brasil, onde a droga chegou e teve um efeito devastador nos usuários. A pasta-base, também conhecida como lixo da cocaína ou crack americano de segunda linha, é uma variante da pasta-base de cocaína transformada em cigarro. Seu preparo requer poucas instruções e é feito com instrumentos caseiros.

A pasta é obtida através da maceração das folhas de coca, cujo percentual não ultrapassa os 10%, misturadas a ácidos convencionais e até fibra de vidro moído (incluindo tubos de lâmpada fluorescente) com ácido bórico, lidocaína, fermento e solventes, como querosene, parafina, benzina ou éter, o que reforça o caráter de dependência rápida devido ao efeito intenso, apesar da curta duração de cada dose.

O delegado explica que, pela longa fronteira seca, o acesso à pasta-base é mais comum no estado.

“A pasta-base e cloridato de cocaína são oriundos em grande parte da Bolívia e, pelo valor de venda ser mais alto que o da maconha, por exemplo, os traficantes têm realizado a compra da droga em consórcio, com cinco, seis a dez traficantes que se reúnem, dão a quantia em dinheiro para fazer a compra do entorpecente e quando a droga chega, cada um pega a sua parte e faz a destinação individual, seja exportando ou abastecendo as bocas de fumo da Baixada Cuiabana”.

O delegado conta que a porta de entrada dessa droga geralmente é por rio, através de caminhões, carros escoltados por batedores e fazendas clandestinas. “Vila Bela da Santíssima Trindade, Porto Esperidião, Pontes e Lacerda são as rotas preferidas, pois a Bolívia é a terceira maior produtora de coca do mundo, perdendo somente para a Colômbia (2º) e o Peru (1º), e entra por ali na região de fronteira já produzida nos laboratórios clandestinos. Algumas porções de pasta-base e cloridato ficam em Cuiabá”.

“O cloridato de cocaína tem como alvo o consumidor com um poder aquisitivo maior, é a droga mais pura, já a paste-base, assim como a maconha, é usada pela classe mais baixa. Uma pedra de pasta-base de cocaína geralmente custa em média de R$ 10 a R$ 15; o usuário faz uso e tem a alucinação de minutos”, explica.

“Ali no Morro da Luz e outros locais, a maior parte dos usuários faz uso de maconha e pasta-base; em Cuiabá, não há consumo de crack como no Rio e São Paulo”, completou.

O delegado revela que a droga mais consumida na região metropolitana ainda continua sendo a maconha, que traficantes conseguem realizar a compra por um valor bem mais em conta, “Hoje, no Paraguai, você, na safra ruim, compra a maconha por R$ 60 o quilo e vende aqui em torno de R$ 1.000, já no cloridato de cocaína o traficante desembolsa geralmente R$ 10.000.00 para comprar e com o batismo, utilizando cal e ácido bórico, transforma um quilo em dez quilos”, explicou.

Combate ao tráfico

A DRE vem realizando diversas operações no combate ao tráfico, seja de maconha ou de pasta-base, e, como destaque, o delegado citou três operações: Halitus, Campo Minado e Babilônia.

Em abril de 2017 a Polícia Civil desencadeou a operação Halitus, na qual foram cumpridas 46 ordens judiciais de busca domiciliar e prisão contra traficantes na região metropolitana de Cuiabá.

Ao longo dos nove meses de investigações, a Delegacia de Entorpecentes apreendeu duas toneladas de drogas, sendo a maioria maconha, e efetuou a prisão de 37 membros da organização criminosa. Também foram apreendidos 10 veículos e grande quantia em dinheiro. Além disso, foram mapeados dezenas de pontos, locais de funcionamento de bocas de fumo.

Já a Operação Campo Minado cumpriu 42 mandados de prisão preventiva e 70 mandados de busca, além de serem apreendidos R$ 6.613, em espécie, seis veículos, um revólver 38, com numeração raspada, 24 munições calibres 38 e 22, e mais 15 quilos de maconha, além de 65 porções de maconha, nove porções de cocaína, 34 porções de pasta-base, duas porções de crack e um rádio HT.

A principal detida na operação foi Yulli Carla Macedo, mulher do ex-traficante Enatel dos Santos Albernaz, 37, conhecido por Maninho e que foi morto em 2015. Com a morte do marido, Yulli assumiu, segundo a polícia, mais de 50 pontos de venda de drogas e o dinheiro passou a financiar o Comando Vermelho em Mato Grosso. Mais de 2,5 toneladas de drogas foram apreendidas pela polícia durante a operação.

Em dezembro foi desencadeada a operação Babilônia, que cumpriu 24 mandados de prisão preventiva e foram apreendidos mais de 10 quilos de drogas. Os traficantes investigados movimentavam o comércio de drogas em bairros periféricos, como Pedra 90, Tijucal, Osmar Cabral e região. Do total de mandados, 90% estão direcionados a pontos de distribuição de entorpecentes de Cuiabá. Os demais são para algumas localidades de Várzea Grande.

De acordo com o delegado Vitor Chabe, o fator socioeconômico influencia o tráfico em determinadas regiões, como pode ser observado na Operação Babilônia. “O crime nós sabemos que ele migra; por exemplo, no Jardim das Américas, Boa Esperança, há muito roubo, pois são casas visadas, de moradores de classe média alta, já os bairros onde a classe é menos favorecida, há um maior número de tráfico, porque a pessoa desse bairro é cooptada para realizar o tráfico e ganhar dinheiro de maneira ‘fácil’, sem precisar trabalhar como o cidadão de bem, tendo a vida fácil e dinheiro na mão, há a falsa ilusão de se dar bem, pois no mundo do crime sempre tem o lado ruim”.

“Onde os índices de criminalidades são maiores, com certeza o tráfico doméstico conhecido como formiguinha existe. É o caso de bairros como Doutor Fábio, Pedregal, região central. É difícil combater esse tráfico doméstico, em que existe uma espécie de cracolândia, de quem frequenta ali, mas estamos trabalhando para coibir todo e qualquer tipo de tráfico”, completou o delegado.

Nesta quarta-feira (18) em uma coletiva realizada na Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp) foi apresentado um balanço do trimestre e em relação à apreensão de pasta-base no estado. Os números mostram esse aumento no consumo e consequente tráfico.

Houve aumento de 120% na apreensão de pasta-base no primeiro trimestre de 2014, houve a apreensão de 286,93 quilos da droga em Mato Grosso, já no mesmo período de 2018, mais de meia tonelada de pasta-base foi apreendida. As forças de segurança tiraram das ruas 609,32 kg da droga de circulação.

O delegado ainda explica que não há diferença de penas de traficantes conforme a droga, somente quando se muda de tráfico para narcotráfico. “Só quando é provado o tráfico internacional, que já é atribuição da Polícia Federal, que há um aumento na pena, mas para o tráfico interestadual ou doméstico a pena é a mesma”.

Responsável pela DRE, o delegado disse também que o trabalho da unidade conta com a parceria e ajuda da população e que a população pode continuar ajudando a polícia anonimamente.

“Nesses primeiros três meses do ano, somente na Baixada Cuiabana já desarticulamos mais de 30 pontos de vendas de entorpecentes, apreendemos quase 500 quilos de maconha, 5 quilos de cocaína e, pelo nosso número reduzido de policiais, nós temos realizado um trabalho de excelência, com ajuda da população que liga, denuncia ponto de venda de drogas, denuncia traficantes, por isso contamos com a ajuda da sociedade no combate à comercialização de drogas”, afirmou.

Para o cidadão que queira ligar e contribuir, os canais de denúncia da Polícia Civil é o 197, ou pelo WhatsApp da Delegacia de Repreensão a Entorpecentes: (65) 99989-0071. As mensagens e o anonimato são garantidos. A Polícia Militar também dispõe de dois números para a denúncia anônima: 190 e 0800 65 3939.

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