PUBLICIDADE
PRECARIZAÇÃO

Hospital Universitário Júlio Muller tem déficit de 12 milhões e passa pior fase

Instituição enfrenta, nos últimos anos, situação de decadência total, resultado do baixo orçamento, estrutura precária e falta de pessoal

Karollen Nadeska

Jornalista

24/08/2017 06h07 | Atualizada em 24/08/2017 08h44

Hospital Universitário Júlio Muller tem déficit de 12 milhões e passa pior fase

Reprodução/Internet

O Hospital Universitário Júlio Muller segue enfrentando grave crise financeira, reflexo da crise que também abala a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). O déficit, de acordo com o superintendente da instituição, Hidevaldo Monteiro Fortes, está em R$ 12 milhões e sem grandes perspectivas de uma solução no curto prazo.

Hidevaldo Monteiro Fortes

“O Júlio Muller está em um momento de transição, de expectativa de um hospital de pequeno porte para médio porte, e enfrentando uma série de dificuldades. A primeira delas, obviamente é a situação financeira. Nós encontramos uma dívida de R$ 12 milhões com prestadores e serviços terceirizados, não em função da administração, mas sim da carência de recursos para o próprio hospital”.

Ao ser questionado sobre essa renda insustentável, Hidevaldo explicou que uma das fontes de recursos é a contratualização entre o hospital e o município de Cuiabá baseado na tabela SUS, que nem sempre corresponde ao valor gasto para cada um dos procedimentos executados, muitos deles deficitários. A segunda fonte é composta pelo Ministério da Educação e o Ministério da Saúde, que é o Rehuf [Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais].

Segundo o superintendente, quando o HUJM foi criado, a verba era quase que 100% aplicada nas datas dos anos respectivos. No entanto, sem a regularização do serviço e/ou a falta de manutenção do contrato, as prioridades passaram a ser revisadas de acordo com a forma de pagamento.

“Inicialmente se investiu um volume um pouco maior, mas nesses três últimos anos o recurso foi ficando cada vez menor e não temos regularidade nesses procedimentos governamentais, porque geralmente eles costumam ser divididos em duas ou três parcelas anuais. Porém, você não tem como programar em cima disso justamente por causa dos valores”, detalhou.

Falta de mão de obra é um dos grandes entraves

Outro fator preocupante é a questão da mão de obra sobrecarregada, principalmente porque, com o passar dos anos, o serviço ofertado tornou-se referência para os demais municípios, inclusive estados e países como a Bolívia.

“Quando o hospital passou para a administração da EBSERH (Hospitais Universitários Federais) há três anos, foi feito um dimensionamento de pessoal um pouco aquém da realidade e com essa mão de obra mais qualificada que a EBSERH proporcionou, houve um aumento da demanda. Isso gera muitas dificuldades porque sobrecarrega os funcionários”.

Estrutura física é um grande gargalo

Segundo o superintendente, o Hospital Universitário Júlio Muller foi construído em uma área não planejada e que inicialmente serviria de sanatório.

“O terceiro gargalo é a estrutura física. O Júlio Muller não foi construído para universitários, foi um local que iria servir como sanatório para tuberculosos, reformado ainda na primeira turma de Medicina da UFMT. E como eles não tinham hospital, a estrutura foi cedida pelo governo. E a partir daí ele foi construído de forma totalmente irregular”, relata.

Em virtude dos problemas estruturais, condições insalubres, o professor cita alguns problemas apontados pela Vigilância Sanitária e o que pode ser feito de imediato tomado como medida.

“Quando assumimos a superintendência, em março, tínhamos uma situação da dívida e vários apontamentos da Vigilância e do Ministério Público que indicavam o fechamento de alguns setores. Diante dessas dificuldades resolvemos pensar de outra maneira. Fizemos levantamento dos problemas relatados e também apresentamos proposta de melhorias e entregamos aos órgãos que estavam nos cobrando”, explica.

Geikelly Souza

Avaliação dos pacientes

Geikelly Souza, gestante de aparência jovem, está fazendo acompanhamento pré-natal de hemoglobinopatias – diagnóstico de anemia falciforme. Ela é natural de Rondonópolis (215 km ao Sul) e mudou-se recentemente para Cuiabá.

Na sua avaliação, o HUJM faz um trabalho brilhante e não há do que reclamar quanto às consultas, exames de rotina e demais procedimentos gestacionais.

“Estou de 38 semanas e acho o atendimento aqui ótimo. Só tenho a agradecer, mesmo”, afirmou.

O Circuito Mato Grosso também ouviu o indígena Isaías Prowe, da etnia Xavante (região de Água Boa / Barra do Garças). A esposa dele, Maura Prowe, está grávida e faz acompanhamento no Júlio Muller por conta da suspeita de hanseníase.

Na opinião de Isaías, os profissionais do hospital deveriam ser mais valorizados pelo tanto que trabalham em favor da saúde pública.  “Os doutores se formam para tratar dos doentes, mas a gente vê todo dia nos noticiários que faltam materiais, medicamentos, recursos... Entendemos que esses problemas não estão nas mãos dos médicos e nem dos enfermeiros, mas nas mãos dos governantes. Isso é vergonhoso”, reclamou Prowe.

“Adote o Júlio Muller”

O projeto Adote o Júlio Mulher foi implantado em junho deste ano e já resultou na inauguração de três enfermarias clínicas pediátricas.

A proposta é conquistar empresários dos diferentes ramos de negócios em busca de parcerias para recuperar e fazer melhorias no espaço de saúde, pesquisa e extensão do hospital.  Além disso, o HUJM já está contando com apoio dos Ministérios Público Estadual, Federal e do Trabalho – cada qual com setor específico para custear. A Assembleia Legislativa é outro órgão que também se responsabilizou a atendê-los através dos recursos.

Marcial Francis Galera

Há cerca de 20 dias, mais uma unidade reformada dentro da unidade será reinaugurada graças à atenção especial de uma empresa de Brasília. O investidor desembolsou quantia elevada para cobrir os custos d o Programa Nacional de Triagem Neo Natal, em que serão feitos todos os testes de pezinho do Estado. Ou seja: todo cidadão mato-grossense será encaminhado. Também é o único a ofertar esse tipo de serviço especializado.

“Nesse novo momento do projeto Adote o Júlio Muller, um dos primeiros setores que a serem contemplados com essa doação foi o teste do pezinho. Essa era uma obra que já estava em banho-maria há tempos e agora a empresa resolveu arcar com os gastos”, disse o pediatra e geneticista, gerente de Atenção à Saúde, Marcial Francis Galera.

Estão entre os quatro projetos adotados o Laboratório de Análises Clínicas pela empresa SK/Ulti Lab (R$ 210 mil), a Triagem Neonatal – Teste do Pezinho pelo Ministério Público do Trabalho (R$ 171 mil), o projeto de eficiência energética pela Energisa para trazer medidas de economia em todo o hospital (R$ 1,7 milhão), a Anatomia Patológica e SVO pelo Governo do Estado (R$ 195 mil reais).

Isto, além de outros projetos que já têm orçamento, como a Unidade de Tratamento Intensivo e Laboratório de Pesquisas – prédio inacabado na frente do hospital, o que dará ao hospital mais leitos da UTI. O projeto está orçado em R$ 16,7 milhões.

UFMT enfrenta rombo de R$ 14 milhões e instituição vive fragilidade

Estudos realizados pela Pró-Reitoria de Planejamento (Proplan) da UFMT indicam que a Instituição precisará de R$ 14 milhões para honrar os compromissos com os pagamentos de custeio (manutenção) até dezembro de 2017.

Em nota, a Reitoria da UFMT afirma que o dia a dia na administração da Universidade é escolher despesas que serão pagas: “Os recursos disponíveis são sempre insuficientes para cobrir todas as obrigações”.

A publicação no site da UFMT cita que de 2014 para cá, em termos orçamentários, a UFMT perdeu 50% dos recursos de capital para obras e aquisição de equipamentos e 20% dos

recursos de custeio para manutenção e despesas básicas, sem levar em conta a inflação. “Hoje temos uma situação em que, com o orçamento aprovado, mesmo sendo defasado, não está sendo liberado integralmente”.

Segundo a Reitoria, na medida em que os recursos começam a não vir, os problemas vão se acumulando. “Obras estão em passo mais lento porque não há como honrar os compromissos. No custeio, os cortes afetam áreas como manutenção, vigilância, iluminação, limpeza e outras necessárias e essenciais para as atividades regulares da instituição”.

Um dos atuais desafios, em meio a esta crise, é a necessidade da UFMT consolidar a expansão, que inclui o Campus de Várzea Grande e dois novos cursos de Medicina, em Rondonópolis e Sinop. Porém, de acordo com a Reitoria, os repasses estão diminuindo e as novas vagas de professores e técnicos da expansão estão retidas, sem autorização para concurso público.

“Precisamos sensibilizar a comunidade universitária e a sociedade para a importância do que está acontecendo, pois lá na frente, quando perceberem que a universidade pública é fundamental, provavelmente não teremos a capacidade que deveríamos ter para atender as demandas”, alerta a Reitoria.

A nota ainda observa que a universidade pública, um patrimônio valioso para a sociedade brasileira, está fragilizada e em risco. “Nós formamos mão de obra de alto nível, cientistas, gestores e lideranças do país. A expansão trouxe para dentro das universidades grupos sociais que estavam excluídos do ensino superior, inserindo pessoas de baixa renda, indígenas, negros, quilombolas no mundo universitário. O sucesso dessa política só vai acontecer quando conseguirmos formar, e formar bem, esses alunos”.

Assistência estudantil

Outra questão destacada na nota é que o Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) é insuficiente para o tamanho da demanda. Na UFMT são atendidos apenas cerca de 20% de estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica: “Não se trata de um gasto a mais, é um investimento em uma área que decide qual vai ser o seu futuro. Nós pagamos muito mais caro cada vez que descontinuamos o investimento em educação, ciência e tecnologia. Sem esses investimentos, o país nunca chegará à condição de enfrentar os nossos próprios problemas”.

Saídas

A Reitoria da UFMT aponta duas saídas emergenciais para amenizar o caos. Uma delas é conseguir que os Ministérios da Educação (MEC) e do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão (MPDG) liberem integralmente os recursos de 2017 – que já seriam insuficientes, e conseguir aprovar, para 2018, um orçamento que recomponha os valores de 2015 e 2016, no mínimo corrigidos pela inflação.

De acordo com a UFMT, a reitora Myriam Serra está em Brasília, junto a reitores de outros estados, em busca de recursos.

 

Comente, sua opinião é Importante!

PUBLICIDADE