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LILIANE COELHO

Qualquer coisa

A gente vai misturando tudo o que vê, ouve e sente e, ao unir as partes que gostamos mais com aquelas que não conseguimos deixar de fora, vamos nos fazendo. Um dia de cada vez.

23/09/2020 17h10 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

Muitas coisas têm o poder de nos transformar. E, quando estamos vivendo o momento em si, nem sempre temos consciência disso. Não sabemos o que ficará gravado, nem de que forma.



Uma frase repetida várias vezes. Uma música que alguém cantarolava sem perceber. Um livro que estava sempre ao alcance das vistas. Uma foto na parede. Um presente inesperado. Uma viagem que não prometia ser grande coisa. Um perfume guardado sempre no mesmo lugar. Um dia que poderia ter sido igual a todos os outros.

Quando olho para quem eu sou e para o que estou me tornando, o caminho que percorri não é claro. Nunca houve um mapa, uma receita, nenhum manual e, por muito tempo, saber disso me preocupava bastante.

Eu esperava que houvesse algum tipo de marco e que, em algum momento da vida, alguém me contasse tudo o que eu precisava saber, antes de me tornar adulta. Não foi assim. Os adultos não tinham esse tempo e também estavam em busca de si mesmos. Então, fui inventando uma vida para mim.



Entendi que isso seria possível em vários momentos e a partir de referências diferentes. Uma delas foi “Forrest Gump”.

Era um domingo. Dia em que o namorado da minha irmã costumava almoçar em casa e, dessa vez, ele trouxe um vídeo cassete. Colocou um filme, disse que tinha uma trilha maravilhosa e pediu: “prestem atenção na estória”. Eu e minha irmã gêmea assistimos, no início achando que seria mais uma daquelas coisas chatas que nos fariam dormir ou ter vontade de mudar o canal. Mas não foi.

Vi um garoto tímido e fraco descobrir a própria força. Superar o bullyng, encontrar o amor, se tornar motivo de orgulho para a mãe, viver momentos incríveis, mas, especialmente, encontrar a paz. Um lugar no mundo onde ele cabia direitinho.

Eu estudava em uma escola perto de casa, trocava papéis de carta na hora do intervalo e era muito inocente para entender as metáforas e ironias do roteiro, mas percebi o que considerei essencial na época: enquanto pode, a mãe de Forrest havia feito tudo por ele. Até que chegou a hora de fazer por si mesmo.

Como também não tinha mapa, ele correu. Sempre em frente. E, por causa disso, foi tão longe que um dia sentiu vontade de voltar. Na vida de Forrest, muito foi obra do acaso. Um acaso fantástico sendo levado a outro até que ele se tornasse uma pessoa importante e bem-sucedida, sem saber o motivo, mas, ironicamente, por ser exatamente quem era. Por fazer o que fazia.

Entendi que a vida poderia ser um pouco daquele jeito: uma página em branco que ninguém escreveria para mim e, que, mesmo se eu pedisse, não seria desenhada como eu gostaria. Minha vida só tinha uma escolha possível, então: eu.

Sou um pouco quem sou graças a isso. Graças às escolhas e responsabilidades que tomei para mim. Sempre que pude, escolhi o meu caminho. Com medo de estar errada, é claro, mas com uma profunda sensação de liberdade e de autonomia.

Quando olho para trás, vejo que me tornei quem sou graças à minha família, aos (poucos) bons professores e às dificuldades que encontrei pelo caminho, mas também, graças às pequenas (e grandes) lições que fui colecionando. Um a um, escritores, roteiristas, músicos e tantos outros artistas que não tinham a pretensão de me ensinar nada, me ensinaram muito, mesmo assim.

Por causa deles, entendi que, um dia, até as mães morrem como em “Bambi”; que ser diferente pode ter o seu valor como em “Dumbo”; que mulheres podem ser fortes como “As Panteras”; que ter amigos verdadeiros é divertido, como na “Turma da Mônica”; que ser criança para sempre também tem seus perigos, como em “Peter Pan”; que a gente pode inventar um mundo mais bonito para nós mesmos como em “Peixe grande e suas histórias”; que um lugar triste e árido pode ser transformado por alguém com disposição para começar, como em “Bagdá Café”.

Tantas coisas me transformaram. Tantas músicas. Tantas frases soltas em entrevistas. Tantos trechos de livros. Tantos conselhos expressos ou não planejados. Hoje só consigo pensar que viver é juntar palavras que um dia serão livros. Cenas banais que podem virar filme. Tecidos soltos em colchas de retalhos. A gente vai misturando tudo o que vê, ouve e sente e, ao unir as partes que gostamos mais com aquelas que não conseguimos deixar de fora, vamos nos fazendo. Um dia de cada vez.

O tempo é a cola que junta tudo. A arte é o que nos inspira a escolher o que existe de mais bonito. E assim a gente vai se encontrando. Em qualquer coisa, mas não em qualquer lugar.

 

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