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CONTOS, PROBLEMAS E TRADIÇÕES

Cuiabá 300 anos, muito prazer!

É cidade verde, terra quente, sotaque puxado, cheia de causos e inspirações, banhada pelo rio e na beira dele um grupo levanta poeira ao rodopiar as saias

Juliana Alves

Jornalista

08/04/2019 07h12 | Atualizada em 08/04/2019 08h46

Cuiabá 300 anos, muito prazer!

Alan Cosme

É o centro geodésico da América do Sul e a cidade verde. Porta de entrada da floresta amazônica, tem o cerrado e tem o Pantanal. É vizinha de Chapada dos Guimarães, Santo Antônio do Leverger e também de Várzea Grande. Está localizada à margem esquerda do rio que leva seu nome e tem as suas particularidades, sua cultura, seus mistérios, suas cores, danças, canções, seu ritmo próprio e seu linguajar único. Ela é Cuiabá e você precisa conhecê-la.



Para andar pela Capital, ultimamente, o cidadão precisa estar com pelo menos um guarda-chuva, uma canoa e ter habilidades de natação. Porém, os períodos quentes e secos, são tenebrosos. É pele ressecada, respiração ruim, sede, suor e um termômetro registrando 41° C. Por outro lado, frio em terras cuiabanas é muito difícil. É um tira-casaco e põe-casaco que ninguém aguenta, mas para o “cumpadre” e a “cumadre” é assim, 22°C já é frio demais.

Cuiabá é muito mais do que a temperatura elevada. Praticamente desconsiderada pelas gestões municipais, ela enfrenta grandes problemas estruturais. O título de “Cidade Verde” é ilusório. Árvores foram arrancadas, muita coisa destruída, por conta de uma famosa lenda. Diziam que a Capital de Mato Grosso seria contemplada com o famoso Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) para a Copa do Mundo, no Brasil, de 2014. Já teve Copa da Rússia, o mundo já se encaminha para a competição de 2022 e o cidadão cuiabano deixou de acreditar nessa história.

Mas para que você conheça melhor a cidade que é o Centro Geodésico da América do Sul, é importante rebobinar a história e chegar a 1718. Era tudo mato. Pascoal Moreira Cabral chega pelas margens do rio, encontra os índios e trava uma batalha com o povo coxiponés, em busca de escravos. Mesmo saindo com a derrota resolve ficar e acaba descobrindo uma riqueza.



Por esse chão em que mais de 607 mil pessoas caminham hoje, já houve muito ouro. Escavaram e remexeram em todo o território, levando suas preciosidades embora. Uma lenda diz que próximo ao córrego da Prainha, onde hoje está situada a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e a capela de São Benedito, haviam escravos trabalhando no garimpo, até que um deles encontrou uma pepita de ouro. Não querendo quebrá-la, com o objetivo de retirá-la inteira, continuou escavando. Quanto mais escavava em volta do objeto, mais pessoas queria aquela peça que tinha o formato de uma alavanca.  Era grande demais. Eles cavavam e cavavam, até que em algum momento a terra cedeu e desabou sobre eles, soterrando-os. Dizem que é por isso que a capela e a Igreja foram construídas nesse local.

Existem diversas histórias que os cuiabanos mais velhos compartilham com amigos e parentes. Algumas delas são os segredos que o rio guarda em sua correnteza.  

Um dos causos que alguns cuiabaninhos cresceram ouvindo é o da origem do nome da cidade. Entre suas diversas versões, há a de uma índia que caminhava próxima às águas do rio, com uma cuia em mãos. Porém, a mulher deixou o objeto cair na água e fez um grande barulho. “BÁ” era o som. E assim a Capital mato-grossense ganhou seu nome, Cuiabá.

Ainda falando sobre água, o município tem diversos córregos, sendo banhado principalmente pelo rio que leva seu nome e o Coxipó. Por conta do calor que sempre “tá de mata”, alguns ainda se arriscam ir se banhar nas águas pantaneiras, mas que fique avisado, é importante tomar cuidado com o grande monstro.

Ele é enorme e suas cores são em tons de verde, seus grandes olhos vermelhos encaram suas vítimas enquanto suas presas os devoram. Nas águas do rio Cuiabá vive um ser monstruoso. Quando chega à noite, o Minhocão, como é conhecido, agita as águas, vira canoas e aterroriza os pescadores, até mesmo os próprio peixes. Há quem garanta que a Igreja Matriz da Capital jamais poderá ser reformada ou sequer restaurada, pois a criatura está refém e presa ali, pelos fios de cabelo de Nossa Senhora.

Essas águas pantaneiras guardam outros mistérios. Após a fundação da cidade, o fluxo de imigrantes aumentou e mesmo após 300 anos, diversos povos vivem chegando nas terras cuiabanas. É gaúcho, carioca, paulista, nordestino, boliviano, haitiano e venezuelano. Em Cuiabá cabe todo mundo.

Existe uma história antiga que talvez explique o motivo de tanta gente de fora ficar nesta cidade. Muito abundante no rio Cuiabá, o peixe pacu tem um sabor que dá água na boca. A superstição diz que a pessoa de fora da cidade que comer a cabeça dessa espécie de peixe, jamais deixará Cuiabá. Se for homem solteiro, vai casar com uma moça da terra. Se já for casado, viverá até seu último dia na Capital mato-grossense.

Refestelar é sorrir, vamos passear pelo quintal das flores

“Tchá por Deus”. O cuiabano tem seu próprio linguajar. As palavras típicas têm uma mistura de várias línguas e dialetos. Nesse meio tem resquícios do português arcaico, o falar chiquitano da Bolívia e o falar dos índios que viviam nesta terra.

“Ixpia lá”. O sotaque cuiabano tem um tom próprio e puxa o som para o x, são palavras com “tch”. Palavras como “catcho” que significa namoro, “lonjura” é sobre distância, “moage” é frescura e chamar alguém na “txintxa” é algo sério. Falar “pranchei de banda” é porque escapei de algo e quando um cuiabano chegar falando “eai, xô mano”, ele te considera um amigo.

Pegar um ônibus e passear pela cidade significa passar por diversos locais que se deve “ixpiar”. Tem o marco do centro geodésico, a praça Ipiranga, a praça da República e tem a Alencastro, em frente a prefeitura. Ali é o centro histórico, onde tem também a primeira rua da cidade, chamada Beco do Candeeiro, porém é um local de extrema violência e marginalização, tendo sido até mesmo cenário de chacina.

Tem também muita igreja para conhecer. Tem a Matriz, a Senhor dos Passos, a Nossa Senhora do Bom Despacho e muitas outras que os boatos dizem terem sidas construídas com ouro, pura história.

O centro é cercado por casarões antigos, mas alguns desabaram por falta de cuidados e desrespeito a cultura. Uma coisa importante para se ressaltar é que, com o tempo, parte da cidade se modernizou. O centro se tornou multicultural com diversas opções de lojas e culinárias. Conheça a rua 24 de outubro, ela que ainda tem paralelepípedos em alguns trechos e em outros muita comida diferente.

Na cidade também tem o Palácio da Instrução e onde fica o Museu de História Natural e Antropologia e a biblioteca pública. Além disso, existe o museu histórico de Mato Grosso que guarda um acervo de documentos, maquetes e registros desde a ocupação do território, passando pelo período colonial, imperial e chegando aos dias de hoje.

Para falar em arte, a Orla do Porto é o lugar. Tem artesões locais que buscam inspirações na natureza. Tem artesã que produz objetos aproveitando flores, sementes, frutos, cascas, raízes e tudo é encontrado na região. Assim, não se pode deixar de falar da bijuteria artesanal, que são produtos leves e reciclados que se transformam em brincos, colares e pulseiras. Tem até brinco feito de osso da bochecha de peixe.

Entre tanto acervo cultural, mais antiga que a própria cidade, a comunidade ribeirinha de São Gonçalo Beira Rio é a primeira fundada na região, às margens do rio Cuiabá. Ali é o lugar certo para conhecer, respirar e se encantar pela cultura local. Desde a culinária, passando pelas danças, canções e as cores.

Em Cuiabá, temos doces típicos como o de caju - fruta típica da região - produzido por pessoas como a Dona Joana. Aqui também se come Maria Isabel (carne seca com arroz), farofa de banana da terra, os peixes de todas as formas possíveis e a carne seca também com banana da terra. Lá no São Gonçalo Beira Rio tem a Rota do Peixe e podemos encontrar pacu, piraputanga, bagre, dourado, pintado e até mesmo jacaré. Tem mojica, tem pirão, ensopado, cozido e peixe assado recheado com farofa de couve. A culinária encanta.

Para encerrar, é bom lembrar que Cuiabá tem muitos grupos de siriri e é um quintal de flores. No Flor do Atalaia, o ensaio começa com a batida do mocho e o som do ganzá. “Minha linda Cuiabá, terra de ouro aluvião. Siriri dança com pé e bate na palma das mãos. Segura menina no balanço do ganzá. Só quem é de Chapa e Cruz sabe dançar, sabe dançar...”, o início de um ensaio, uma brincadeira, cheia de erros e acertos que encantam quem assiste. Enquanto isso, no quintal localizado na primeira comunidade da região, “tchá por Deus”, o Flor Ribeirinha tem cantado e encantado o mundo com a cultura cuiabana.

É final de tarde, na beira do rio, e eles se juntam para uma apresentação. “Toca viola de cocho, bate no mocho. Prepare moçada que o siriri vai começar! Simbora Flor Ribeirinha! Eiii”, eles recitam e gritam antes do show começar. As meninas descalças, levantam poeira com o balançar das longas saias coloridas. Ao som dos instrumentos regionais, entre eles a típica viola de cocho, eles seguem um ritmo de batidas, sem deixar o largo sorriso de fora do rosto.

Eles giram e balançam, um grito uníssono dos rapazes com suas calças pretas e camisas coloridas, combinam com os trajes femininos. Eles seguem um ritmo de palmas e batidas dos pés, fazendo com que os olhos de quem assiste fiquem maravilhados a cada girada de saia que levanta poeira. Todos se juntam e a cantoria começa. “Canta e dança nandaia! Ihul! Viva a cultura popular, esse é o nosso siriri e com o amor do nosso povo vamos todos nandaiar [...] Bate tão forte coração, com a viola de cocho, dançando com o mocho da nossa tradição”.

 

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