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ESPECIAL CUIABÁ 300 ANOS

Luiz Mário, ícone do jornalismo policial, relata morte de assassino de taxistas

Criador do programa Ronda Policial na Rádio Difusora Bom Jesus de Cuiabá, que foi líder absoluto de audiência por mais de 10 anos

Jefferson Oliveira

Jornalista

31/03/2019 13h00 | Atualizada em 06/04/2019 09h53

Luiz Mário, ícone do jornalismo policial,  relata morte de assassino de taxistas

Jefferson Oliveira - CMT

O Circuito Mato Grosso, fez uma viagem na história do jornalismo policial em Cuiabá ao conversar com o jornalista e radialista Luiz Mário, criador do programa Ronda Policial na Rádio Difusora Bom Jesus de Cuiabá, líder absoluto de audiência por mais de 10 anos.



Nascido em Cáceres (225 km de Cuiabá-MT), a paixão pelo rádio e com desejo de entrar para a comunicação, fez com que o radialista Luiz Mário, se mudasse para Curitiba (Pr), onde fixou residência na juventude. Depois foi morar no Rio de Janeiro para realizar seu sonho na Radio Globo nos anos 70. Lá foi repórter do programa "A cidade contra o crime" que posteriormente mudou de nome para "Globo patrulha".

Com um futuro promissor na capital carioca, Luiz Mário decidiu largar tudo e voltar para o seu estado natal. De volta a Cuiabá, estreou um dos programas policiais de maior audiência de Mato Grosso até hoje, o "Ronda policial".

“Eu voltei porque deu muita saudade daqui. Eu disse para o diretor artístico da rádio na época que iria voltar para minha terra, para Cuiabá. O diretor me perguntou:  você vai deixar essa vida que você tem aqui, para ir para o mato? Nessa hora eu zanguei e respondi a ele, eu sou do mato e por isso eu vou para o mato”, revelou ao Circuito Mato Grosso.



Em 1975 Luiz Mário começou a trabalhar na Radio Difusora Bom Jesus de Cuiabá, que era dirigido por Aurora Chaves de Vasconcelos, irmã do arcebispo de Cuiabá Dom Orlando Chaves.

“Quando iniciei, eu fazia o noticiário de hora em hora, quando ela (Aurora) pediu para eu apresentar por um tempo, o programa Rotativa no Ar. Um jornalístico das 07h às 08h, e com o tempo, eu que sempre quis ser repórter policial ou correspondente de guerra, criei o programa Ronda Policial na Rádio Difusora, que começou a ser rodado com 15 minutos, das 07h45min até às 08h”.

Com o tempo o programa foi crescendo e ganhando audiência, quando Luiz Mário passou a criar uma novela policial, contando os fatos que acontecia no estado de maneira diferente e jamais vista por aqui. Devido a esse jeito único, Luiz foi convidado para trabalhar na Rádio Cultura, onde ficou por 20 anos.

“Após três anos a difusora, e com um ibope muito bom, a Rádio Cultura me chamou para trabalhar lá e me ofereceu um programa das 08h às 10h. Devido a grande audiência, pela manhã eu apresentava o Ronda Policial na rádio, e o Adelino Praeiro diretor do Diário de Cuiabá me convidou para ser redator do jornal e eu tinha uma página inteira para falar das notícias policiais, com o mesmo nome do programa da rádio”, contou Luiz Mário.

Luiz conta que ficou três anos no jornal e inclusive recebeu elogio do então diretor Adelino, “O Adelino quando eu saí de lá e encontrei ele posteriormente, ele me disse, - olha nunca vendi tanto jornal quanto na sua época que escrevia pra gente”.

O jornalista líder de audiência teve passagens pelas emissoras, A Voz do Oeste e Rádio Industrial. Além do sucesso na rádio, as matérias escritas por Luiz Mário, também faziam sucesso no jornal impresso, o que fez com ele tivesse passagens pelos jornais Diário de Mato Grosso, Diário de Cuiabá, O Estado de Mato Grosso, Correio da Imprensa e  Tribuna Cuiabana.

Luiz Mário - Foto: Jefferson Oliveira - CMT

Ao lado do radialista Lucas Neto, Luiz apresentava e comentava as matérias feitas por quatro repórteres. Para conseguir as informações, Luiz Mário percorria todas as delegacias e ainda fazia rondas no Pronto-Socorro de Cuiabá.

“Com o tempo fui fazendo amizade com os policiais, e ai eles acabavam ligando para passar as informações, e só dizia, "Luiz, tem 'presunto' no pedaço", e aí depois eles me passavam as informações. Sempre tive minhas fontes na delegacia, só que hoje está muito mais fácil com os grupos no whatsapp, aconteceu a notícia já chega na hora”.

O radialista conta que nunca inventou notícia, sempre teve o jeito especial de fazer as matérias, mas nunca inventou nada, sempre prezou pela verdade e acredita que esse é a melhor maneira de fazer sucesso, dizer a verdade sem omitir nada.

“A verdade vai ser sempre verdade, agora se a notícia for tendenciosa ou mentirosa, ela não vai se sustentar, ali ela já perde a credibilidade. A verdade nunca muda, ela é uma só”.

História marcante

Entre os anos de 1977 e 1978, Luiz Mário lembra da incidência de homicídios contra taxistas em Cuiabá, praticados por Dario Ferreira de Amorim, conhecido como ‘O Matador de Taxistas’.

“Nós tivemos um ponto nevrálgico em Cuiabá, que foi de 77 a 78, de muita violência contra taxistas. Tudo começou quando Dário estava preso no destacamento da Polícia Militar, em Rosário Oeste. Quando pulava o muro para fugir, foi visto por um taxista que o denunciou. Com isso ele foi recapturado e ficou sabendo que havia sido denunciado por um taxista. Quando saiu da cadeia,passou a matar taxistas”.

O jornalista relembra que foi uma barbaridade muito grande na época, e Dario espalhou o terror em Cuiabá. O repórter policial acompanhou todos os homicídios praticados por Dario, sendo que uma das vítimas era morador do Cristo Rei, em Várzea Grande, pai de nove filhos.

“Na época, foi uma verdadeira caçada para localizar Dario. Chegava uma denúncia, Dario está em tal lugar, a polícia ia, mas quando chegava ele já tinha fugido. Os comparsas de Dario na época, identificados como Sidney e Fátima, foram os primeiros a serem presos”.

“Com a prisão dos comparsas, Dario de uniu a um matador conhecido pelo apelido de ‘Sinega’ que foi morto com 16 tiros em confronto com a polícia. Sinega era audacioso, andava com dois revólveres e quando o pessoal perguntava pra ele se ele não tinha medo de nada, ele respondia: "Olha, eu sei que vou viver pouco, mas vou viver do jeito que eu quero".

Depois de muito tempo de fuga, a polícia conseguiu chegar a Dario por meio de um bilhete que o criminoso havia escrito para a sua mãe pedindo um dinheiro para fugir para a Bolívia ou Paraguai.

A polícia descobriu que Dario estava escondido em um sítio em Bom Sucesso, Várzea Grande. “No momento que Dario foi preso, nós não acompanhamos, mas rapidamente a informação chegou e fomos imediatamente para a Central de Flagrantes, que ficava na Avenida Fernando Correa da Costa ao lado da Trêscinco. Lá ferveu de taxistas e curiosos”, conta com detalhes o jornalista.

No dia da prisão, Luiz Mário explica que Dario foi interrogado pelo delegado Joaquim Ramalho dos Santos, mas na oitiva o acusado permaneceu o tempo todo calado, apenas gesticulando com a cabeça, sim ou não.

Reprodução Francisco das Chagas Rocha.

“O interrogatório de Dario terminou por volta de 1h da manhã, quando o delegado disse aos investigadores, podem levá-lo. Eu ouvindo aquilo perguntei ao policial, vocês vão levar ele para onde, e o policial disse: "para o mesmo lugar onde o pegamos”.

Junto com fotógrafo Osmar Cabral 9que morreu na queda de uma avião) com quem trabalhou por muitos anos, Luiz foi seguindo os policiais até o local onde o assassino seria solto.

“Eu falei com Osmarzinho, vão empurrar o Dario, e aí vamos nessa? Lembro até hoje o que o Osmar me disse: 'Já que estamos no meio do rio, vamos acabar de atravessar, então'. Entramos na Brasília e seguimos os policiais que estavam em um veraneio e em fusca”.

E pela primeira vez, Luiz revela o fim de Dario que acabou sendo executado pelos policiais que o levaram de volta ao sítio.

“Era duas e pouco da manhã, quando tiraram o Dario do carro algemado e um policial virou para ele falou: 'Você não é o valente? Onde está a sua valentia?' E aí foi a única vez que vi o Dário falar alguma coisa. Ele virou para esse policial e disse: 'Quer ver se eu sou valente, tira essa algema dos meus braços que você vai saber se sou valente ou não', e nesse momento o policial deu uma coronhada no rosto de Dario e o empurrou contra a viatura e em seguida deu o primeiro tiro, e os demais também efetuaram os disparos executando o assassino de taxistas".

Em um acordo com os policiais na época, o jornalista revela que foi autorizado a acompanhar os policiais, mas não poderia registrar e nem fotografar nada. “Quando o Dario caiu, ai eu falei com o Osmar para registrar e, no último suspiro de Dario, o Osmar conseguiu fazer a foto dele caído e alvejado. Acredito que no acervo do Diário de Cuiabá ainda deve existir essa foto, e esse foi o fim de Dario, executado”.

Ameaças de morte

O jornalista revela que pode parecer ironia, mas a maioria das ameaças de mortes que sofreu e tentativas de homicídio foram praticadas por policiais.

“Eu nunca aceitei covardia, e quando sabia de casos assim eu denunciava e aí os policiais ficavam revoltados e queriam me matar. Sofri uns quatro atentados de morte, mas sempre andava armado naquela época e sempre enfrentei de frente as ameaças”.

“Um dia, apresentando o programa na rádio, um policial amigo meu me ligou dizendo que um policial que eu havia denunciado havia prometido me levar para o portão do inferno e que eu estaria atravessado na garganta dele”, complementa Luiz.

Ao terminar o programa, Luiz foi atrás do policial que o ameaçou e tirou as devidas satisfações, “Que história é essa que você disse que está comigo atravessado em sua garganta? Ficar na garganta de homem não vale não, ou você me engole ou me vomita, e isso perto da sala do secretário de segurança na época Oscar Travassos. Ele negou e recuou a ameaça”.

Entre os atentados, o jornalista recorda quando o criminoso passou deu um tiro em direção ao veículo de Luiz dirigia pela Avenida Historiador Rubens de Mendonça (CPA) e fugiu, e mais um atentado que sofreu na Avenida XV de Novembro na capital.

“Lembro que parei no semáforo e havia uma fila de carro - antigamente uma ia e outra voltava - hoje onde é o mercado Comper. Estava eu lá parado quando olhei para o lado, uma caminhonete marrom, o passageiro com um revólver 38 mirando em minha direção, e não tinha como fugir, cheguei a sentir gosto de sangue neste momento, quando ouvi o tiro. Em seguida os criminosos fugiram acelerando”.

Quando Luiz desceu do carro, conta que por sorte o autor da tentativa de homicídio errou o disparo, e ele nunca soube quem foi o mandante.

Luiz Mário hoje em dia

O jornalista revela que ainda recebe convites para voltar às rádios e até apresentar programas de televisão, porém aguarda uma boa proposta. “Tenho convites da Radio a Voz do Oeste, da Record News Cuiabá que tem um horário pra mim de duas horas, mas ai pra mim não dá mais. Agora, se compensar financeiramente eu aceito uma hora diária, estou dentro”, revela descontraído o jornalista.

Luiz ainda detalha que se voltar a televisão pretende abranger mais áreas, além das ocorrências policiais.

Para finalizar, o jornalista, que marcou época em Cuiabá, indica aos jovens e novos jornalistas que trabalharem sempre com a verdade, sem temor.

Dario,o matador de taxista. Foto: Reprodução Francisco das Chagas Rocha.

 

 

 

 

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