PUBLICIDADE
ESPECIAL CUIABÁ 300 ANOS

A Baianinha, tradicional loja de produtos religiosos de Cuiabá, completa 50 anos

No ano em que Cuiabá chega ao tricentenário, A Baianinha completa 50 anos de atividade no bairro do Porto

Sandra Carvalho

Editora

20/01/2019 11h00 | Atualizada em 07/04/2019 10h56

A Baianinha, tradicional loja de produtos religiosos de Cuiabá, completa 50 anos

Sandra Carvalho

20 de janeiro de 1968.  Há exatamente 50 anos surgia na Rua Joaquim de Albuquerque, bairro do Porto, em Cuiabá a Baianinha Artigos Religiosos e a Baianinha Pesca e Pscicultura. Duas empresas familiares tradicionais da Capital mato-grossense, que em abril completa 300 anos de fundação.



Bartolomeu Pereira de Sena veio da Bahia para Cuiabá em 1920.

O empresário Willian Roberto de Sena lembra com orgulho como nasceram estas duas empresas. Nos idos de 1920 seu avô Bartolomeu Pereira de Sena veio da Bahia para Cuiabá em busca de oportunidades e atraído pelo garimpo. “Não se ele pé, de charrete.. é pau rodado”.

Em 1928, Bartolomeu se casou com sua avó Adelina Cerqueira de Sena, na época com 14 anos.  Da união, nasceram quatro mulheres. Eurídice Pereira de Sena, a Baianinha, uma mistura de negros e indígenas, nasceu no dia 8 de agosto de 1934, no bairro do Porto.

Nas décadas de 40 e 50, Bartolomeu tocou comércio. Tinha um bolicho em frente ao colégio Coração de Jesus, na Comandante Costa. “Meu avô era dono de praticamente toda aquela área ali”, conta Willian. Porém, como o avô era muito boêmio, o negócio acabou não vingando e ele foi para Guiratinga onde abriu uma frente de garimpo e um pequeno comércio.



Em 1960 a filha Baianinha mudou-se para o Rio de Janeiro, onde morou e trabalhou de doméstica por oito anos e de lá mandava dinheiro para ajudar os filhos que ficaram em Cuiabá. De volta, em 1968, abriu um comércio no bairro do Porto junto com o padrasto de Willian, Cristiano Barbosa.

“Ela emprestou três garrafas de pinga, uma geladeira, comprou uma caixa de cerveja fiado e começou a vender cabeça de boi assada”. Era o dia 20 de janeiro, há 50 anos.

O negócio prosperou e em 1971 a Baianinha e seu padrasto, que havia se aposentado da Tramontina, abriu, então, o Bazar São Jorge, em frente a Praça da Lagoa onde também havia uma feirinha. Caminhoneiros paravam ali para fazer escambo com a carga de mantimentos que não conseguiam vender na cidade.

O bazar vendia de tudo. De bananinha a linha de costura, fio elétrico, botão, tecido entre outros.

Certo dia, Baianinha recebeu a visita de um amigo com quem tinha uma relação muito próxima no Rio de Janeiro. “Quando o amigo entrou no bazar, logo disse: Baianinha, esse lugar aqui está muito carregado de energia negativa. Vamos fazer um trabalho espiritual para harmonizar este ambiente”.

O casal, então, fechou o bazar mais cedo para o amigo fazer o trabalho espiritual. Durante a sessão, ele passou uma lista de produtos necessários para o descarrego, porém, nenhum foi encontrado em Cuiabá. “Quem poderia ter esses produtos era Seo Tingo, que tinha um comércio ali na Bica D’Água, na Prainha com a Getúlio Vargas. Mas, ele morreu e os filhos não quiseram tocar o bolicho”.

Cristiano acabou comprando os produtos em São Paulo, onde ele e a Baianinha iam de tempos em tempos em busca de produtos para repor as prateleiras do bazar. “Meu padrasto, vendo a dificuldade em comprar o material para o trabalho espiritual em Cuiabá, teve a ideia de trazer uma quantidade a mais para colocar a venda no bazar”.

Conta Willian, que um caminhoneiro entrou cedo no comércio e viu na prateleira vários frascos de “banho de descarrego” e comprou todos. Seu padrasto e a Baianinha trouxeram dezenas de caixas dos mais variados produtos religiosos de São Paulo. A notícia se espalhou pela cidade. Animado, o padrasto de Willian mandou imprimir vários blocos do tipo receituário e saiu distribuindo nos terreiros para que os pais de santo anotassem suas encomendas.

O casal de comerciantes viu ali uma grande oportunidade e logo passaram a vender apenas produtos religiosos. Um ano depois, compraram a casa do lado para onde se mudaram, em 1972.

Em 1983, a Baianinha avisou que iria vender a loja fiado para uma pessoa de Aparecida do Taboado, em 10 vezes. Como iria vender fiado, propôs o mesmo negócio para os filhos. Willian, que era professor de Matemática e tinha um cargo no Estado e ainda dava aula no Colégio São Gonçalo e do Padrão, então com 28 anos. Ele ficou deixou os empregos nas escolas particulares e assumiu a parte dos produtos religiosos. A irmã Marisela Barbosa Viana ficou com a parte da pesca.

Willian trabalha com a esposa Marina Sena, com quem se casou em 1981 e teve as filhas Esthefane, Ludmila e Caroline.

A família também criou uma fábrica de velas. Todas as velas vendidas na loja são produzidas nessa fábrica.

Após viver um longo período de preconceito e intolerância religiosa, a família hoje comemora a mudança por que passa a sociedade. Muitos clientes que antes tinham vergonha de entrar na loja para comprar os produtos agora chegam e saem tranquilamente.

Esthefane

Hoje, aos 85 anos, continua morando na Travessa São Joaquim, também no bairro do Porto, em uma casa da família construída em 1800, enquanto Willian e a família administram a loja de produtos religiosos tradicional. Mesmo sucesso tem a loja de produtos de pesca, que nasceu a partir do olho clínico da Baianinha sobre o Rio Cuiabá, que antes era só fartura.

Esthefane Sena, uma das filhas de Willian, fala de sua paixão pela loja. Aos 12 anos ela já ajudava os pais e ali cresceu tomando gosto e cuidado com muito carinho do negócio. No ano passado, deixou a loja para seguir um novo projeto de vida. “Foi bastante difícil me desvincular. Chorei muito e por um bom tempo passava várias vezes por dia enfrente a loja”, descreve Esthefane.

Nesse meio tempo ela teve um filho especial que passou por 48 internações no primeiro ano de vida, várias delas em leito de UTI. “Recebi o apoio da família e muitas, muitas orações de clientes e amigos”.

Umas das grandes experiências que teve na loja foi justamente com a fé . “Vi muitos chegarem aqui com depressão, dependentes químicos, vi curas espirituais, pessoas com depressão que encontraram a paz na fé, reencontros, e eu me ergui na fé também”.

Esthefane também lembra que viveu muitas situações curiosas. Uma delas, há três anos quando uma equipe de futebol profissional de Cuiabá, que estava disputando um campeonato estadual, fez uma sessão de descarrego lá perto da Baianinha, para espantar a “urucubaca”. “E não é que deu certo. Eles ganharam”, conta Esthefane, sem revelar o nome do time famoso.

.


Comente, sua opinião é Importante!

PUBLICIDADE