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ESPECIAL CUIABÁ 300 ANOS

Uma história contada pelas enchentes de Cuiabá

Falta de planejamento da capital intensificou efeitos de fenômenos naturais que marcaram a cara da cidade

Reinaldo Fernandes

Repórter

22/12/2018 11h00 | Atualizada em 06/04/2019 09h54

Uma história contada pelas enchentes de Cuiabá

Reprodução/Internet

A enchente do rio Cuiabá havia iniciado cinco dias antes quando a água chegou à farmácia de Uver da Silva Resende. Ele morava na avenida XV de Novembro, no bairro Porto, e acompanhou o drama de milhares de famílias retiradas do bairro Terceiro por causa da subida do rio. Às 23h do dia 18 de março, o rio Cuiabá atingiu 10,87 metros.



Uver da Silva, hoje com 85 anos, morava
na XV de Novembro, no Porto.

“Comboio de carros vinham tiravam as famílias que tiveram as casas invadidas pela água. Fiquei na minha casa quatro, cinco dias de depois que o rio começou a subir. As pessoas dizem que não ia chegar na minha casa, mas chegou”.

Hoje, com 85 anos, Uver da Silva diz que a casa foi praticamente encoberta pela água. Mas, não foi exatamente o lento progresso da enchente que entrou. “Os caminhões de comboio que passam pela rua faziam aquela ‘maré’, e depois as pessoas foram saindo, não tinha o que parasse a água”.

Ele morava com a família numa casa geminada com outro prédio, onde estava instalada a farmácia. O modelo seguia para outras moradias da área. À casa do senhor Uver da Silva estavam ligadas outras duas, onde moravam seus dois irmãos com suas famílias.



“Eu não podia quebrar o muro para vazar a água porque ela entraria para a casa dos meus irmãos, e como não tinha porta para saída pros fundos da casa, a água subiu ao teto”.

Izabel de Maria Campos tinha pouco mais de 20 anos no ano de enchente e morava numa casa de adobe próximo ao Clube Náutico, em Várzea Grande, com outras quatro pessoas – pai, mãe, e duas irmãs. Ela conta que sua casa foi invadida por água do esgoto que corria pelo córrego Mané Pinto.

“A água que entrou na nossa casa não foi do rio. Muitas pessoas pensam que foi o rio que transbordou, mas não foi. O foi o esgoto que subiu muito entrou nas casas”.

Transporte improvisado para a travessia em áreas inundadas (Acervo Francisco Chagas)

A casa onde a família morava ficava a alguns quilômetros da casa do senhor Uver da Silva, e de modo semelhante ela viu moradores sendo retirados de casas nos bairros ribeirinhos nas primeiras semanas de março de 1974. A Defesa Civil diz que 24 mil famílias, divididas em seis bairros, foram atingidas.

“Elas foram colocadas na área onde hoje é parque de exposição, no Centro Educacional Nilo Póvoas e outras locais que davam para receber mantimentos e abrigar essas pessoas”, a assistente social aposentada, Vanilse Terezinha Cardoso, 66 anos.

Ela encerrara sua graduação pela UFMT no mesmo ano e o trabalho de reforço feito no atendimento os “flagelados” serviu como trabalho de estágio.

“Lembro que foi uma experiência muito triste. Lembro como se fosse hoje, as pessoas lutando para conseguir lugar, alimentos para os flagelados, como a gente chamava na época. O governo convocou todo mundo para ajudar, e como eu estava terminando o curso de Serviço Social entrei para o grupo de apoio”, conta.

 Escolas tiveram o início do ano letivo retardado, o carnaval que havia terminado algumas semanas antes foi quase esquecido – o Cordão do Coração da Mocidade, tradicional grupo carnavalesco da época teve as atividades afetadas.

‘Terceiro de Dentro e Terceiro de Fora’

A área mais atingida formava grande parte do bairro Terceiro. Era uma área que concentrava tanto pessoas que chegavam à Cuiabá quanto os naturais. Bloco de carnaval, personagem histórica circulavam pelos bairros.

Pessoas ilhadas na região do Porto, um inundação que levou quase uma semana
para alcançar seu nível mais alto 

“Lembro que havia o bloco Coração da Mocidade que desfilava no carnaval. Havia uma senhora que chamávamos de Tereza Boleira, que era quem havia os bolos famosos em Cuiabá”, diz Vanilse Cardoso.

O tamanho gigantesco do bairro gerou a alcunha de Terceiro de Dentro e Terceiro de Fora, para criar referência mais próxima para os locais. “Era uma área muito grande que ia do bairro Porto até onde hoje é Jardim Europa. Era uma área muito tradicional de Cuiabá”, complementa.

Á área tradicional, que hoje ainda tem alguns prédios da primeira metade do século XX, havia recebido alguns projetos de modernização. O historiador e deputado Wilson Santos diz que há trinta anos, a primeira ponte que liga Cuiabá à Várzea Grande havia sido construída pelo governador Júlio Müller. A avenida Getúlio Vargas havia sido expandida morro acima, o Cineteatro foi instalado num processo que o historiador chama de “choque de modernização”.

“O Júlio Müller era parente do Filinto Müller, que era confidente de Getúlio Vargas, muito próximo ao presidente. Isso possibilitou que uma grande arremessa de dinheiro fosse enviada para Cuiabá para obras de modernização. A capital teve um choque de modernização”.

Com as chuvas intensas de 1974, a cara da cidade foi modificada novamente. Bairros como Novo Terceiro e Santa Izabel foram improvisados para acolher os moradores de Terceiro. Outros foram unidos (Várzea Ana Poupina, Gambá, Morro da Colina) para formar o Dom Aquino.

Uma cidade de escasso planejamento

Córrego da Prainha (Reprodução do livro Historicidades de Moisés Martins)

O escritor Moisés Martins diz que Cuiabá foi fundada a partir da necessidade do governo do País de assegurar as capitanias hereditárias. A busca era por mão de obra para fazer funcionar locais de movimento econômico no litoral brasileiro.

“Mas, ao chegar aqui, os bandeirantes encontraram ouro no rio e passaram a explorar isso ao ponto de chegar da necessidade da produção agrícola, houve uma época de falência de alimento nessa época”, explica.

A expansão para além da margem do rio Cuiabá aconteceu por ocasião. A concentração populacional na área do hoje Centro Histórico foi um resultado, inicialmente, da exploração mineral. E os problemas se intensificaram com o boom populacional a partir de 1970.

O arquiteto e gerente de urbanismo Márcio Pulga, superintendente Instituto de Planejamento Urbano de Cuiabá, diz que o problema dificulta o cotidiano. “Por exemplo, a rua Barão de Melgaço, e não só Barão, te uma largura menor do que a necessária para a circulação de frota que hoje temos em Cuiabá. As casas eram construídas muito próximas da rua, isso permanece. O hoje se pensa Cuiabá para daqui 50 anos, quando as construções terão que recuar até uns 15 metros nos próximos anos”.

Casa em adobe da dona Izabel Campos que foi destruída pela
enchente (Acervo Francisco Chagas)

Problemas graves estão no surgimento de bairros. O superintendente afirma que a capital tem hoje mais de 110 bairros registrado, quase um terço do anunciado como existentes, em 2016, pela Secretaria de Planejamento. São áreas com loteamento que tenta seguir o plano diretor da cidade. Um controle que possibilita a instalação de serviços de saneamento e energia elétrica.

Na enchente de 1995, o rio Cuiabá subiu para 10,50 metros, e a enchente desabrigou mais de 40 mil famílias. Na subida do rio em 1974 havia chovido 300,7 milímetros no início da temporada das chuvas, no final de 1973. Em novembro deste ano, a quantidade foi de 409,8 milímetros. Enchente não ocorreu por causa da barreira do Manso. Os dados são da Defesa Civil. A população ribeirinha sempre foram as mais atingidas pelas subidas de rio e córregos.

“Na cidade planejada há áreas com tamanhos determinados para a construção de espaços públicos. Como praças, locais de áreas de preservação ambiental. São elementos pensados para tornar o ambiente mais agradável, completa o arquiteto.

Os problemas sanitários se transferem para os serviços da saúde. Hoje, áreas com entraves de calamidade na Capital tanto por sua própria expansão quanto pela demanda de outros lugares.

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