PUBLICIDADE
ESPECIAL CUIABÁ 300 ANOS

Cuiabá carrega problemas de infraestrutura desde o 'boom' de 1970

A ocupação que resultou na fundação do bairro 1º de Março, há 27 anos, ilustra muito bem essa fase.

Reinaldo Fernandes

Repórter

08/12/2018 11h07 | Atualizada em 06/04/2019 09h55

Cuiabá carrega problemas de infraestrutura desde o 'boom' de 1970

Drone Cuiabá

 

O Circuito Mato Grosso abre, neste sábado (8), a série Especial Cuiabá 300 anos que segue até abril de 2019. Vamos abordar os mais variados aspectos que convergiram para o desenvolvimento da Capital mato-grossense nesses três séculos desde a fundação em 1719. Nesta primeira reportagem, o Circuito volta ao bairro 1º de Março para lembrar a fase de expansão demográfica provocada por um conflito de ideologias com outros países que se desdobrou na Marcha para o Oeste. Em termos de população, a década de 1970 é o marco do início vertiginoso do aumento populacional. Uma mudança não acompanhada pela administração da cidade ao longo dos 300 anos, refletindo a falta de planejamento urbano.  



A vala que amanheceu em chamas media 10 por 10 aproximadamente e tinha sido preenchida com pneus durante a madrugada. Servia de barricada para impedir que policiais e funcionários da mineradora forçassem a saída das pessoas, que haviam entrado na área há cerca de oito dias. Era 7 de março e seria o dia mais intenso da primeira semana do mês, em 1991.

Cerca de 800 pessoas agrupadas em vinte famílias entraram na área da Colonizadora Paraná no dia 1º de março, em Cuiabá. A idade e a origem delas eram diversificadas. “A maioria vinha de outros Estados ou de cidades do interior de Mato Grosso. Ela não tinha pra onde ir, ou não tinha como continuar a pagar o aluguel e precisava de um lugar para construir sua casinha”, diz o advogado Leonel Mesquita.

À época ele era um rapaz de 20 anos que liderou a invasão – termo usado por ele – e resistiu à força policial. Na foto em que saiu na imprensa do dia 8 de março, ele aparece em close com filete de sangue escorrendo pelo rosto.



Mais de 800 pessoas se reuniram para enfrentar policiais militares na tentativa de despejo (Reprodução Diário de Cuiabá)

A invasão aconteceu em 1º de março e a data deu nome ao bairro que se formou. Nos meses seguintes outras invasões aconteceriam, dando volume ao aglomerado de bairros hoje conhecido como a região do Grande CPA. Na história de Cuiabá, era mais um marco para a expansão da cidade em saltos largos na escala demográfica. O boom populacional teve início na década de 1970 com o projeto Marcha Para o Oeste engendrado pelo governo militar.  E cerca de vinte mais tarde, Cuiabá mantinha traços de um vilarejo do período colonial.

“A área aqui [do 1º de Março] era toda esburacada, era um local de exploração de minérios que estava desativado. Era perigoso até andar por aqui por causa dos buracos enormes que tinham, nós que fomos mudando isso, acertando para formar terreno”, diz Leonel Mesquita.

Hoje advogado, Leonel Mesquita liderou a ocupação do 1º de Março e chegou a ficar ferido no confronto com
policiais militares dia 7 de março de 1991 (Foto: Sandra Carvalho/CMT)

Ele conta que os primeiros habitantes da área vinham de bairros em torno da rodoviária, que servia de referência para quem chegasse à capital pelas rodovias.  Antes da implantação do terminal, também a área tinha concentração de pessoas e ficou conhecida como Quarta-Feira, hoje o bairro Alvorada.

A área invadida pelas vinte famílias ficava a alguns quilômetros do CPA, uma área residencial que foi planejada pelo governador José Fontanilas Fragelli, em meados da década 1970. Serviria para a moradia de servidores públicos, e seu nome foi alcunhado pela associação aos prédios administrativos – Centro Político Administrativo (CPA).

A extensão se tornaria, no olhar da engenharia, uma ilha rodeada pelo espaço urbano que crescia de modo caótico, que guarda vínculo até os dias atuais com perímetro urbano de Cuiabá. Por coincidência histórica ou por proximidade com o CPA, os bairros ao redor tiveram melhor sorte que a capital.

No início da década de 1990, havia clima de entusiasmo pela entrada em vigor da Constituição Federal de 1988, que previa uma série de mudanças no Brasil, com foco no desenvolvimento da cidadania – tanto que ficou conhecida como a Constituição Cidadã. Uma das questões é a apresentação do Plano Diretor.

“Oito, nove meses depois já tinha água, luz elétrica aqui. O transporte demorou mais um pouco para chegar. Essas coisas chegaram do jeito que davam para chegar, não eram mil maravilhas. Mas, o Dante [Martins de Oliveira, prefeito de Cuiabá] e o Jayme Campos [governador] abraçaram a causa conseguiram acelerar as coisas para nós”.

O boom populacional

No início da década de 1970, a disputa política envolvendo agentes internacionais mudou o cenário de ocupação do território brasileiro. À época, a França articulava a ideia de uma Amazônia pertencente a vários países, e a presença de Che Guevara na Bolívia assombrava, na visão dos militares, pelas chances da presença do comunismo no meio do território nacional. Teve início pelo governo federal a Marcha para o Oeste.

 

Vista aérea de Cuiabá. Centro pouco habitado até a década de 1960. Ao centro da foto, a Praça da República, e no lado direito o Palácio da Instrução (Acervo Misc)

Foi o contexto que colocou Cuiabá no mapa brasileira. A capital tinha até o fim da década de 1960 uma média de 100 mil habitantes, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os decênios seguintes, a população cresceria vertiginosamente na casa dos 100%.

No início da década de 1960, 56 mil pessoas moravam na cidade. Vinte anos mais tarde, este volume estava em 213 mil, nos anos de 1990 chegou a 400 mil, e hoje, conforme dados divulgados em agosto deste ano pelo IBGE, a população está acima de 600 mil.

Ao fundo, a Igreja do Rosário, construção de marcação do circuito central da cidade. Em primeiro plano, a Ilha da Banana (Acervo Misc)

“Essa corrida para ocupar o Centro-Oeste colocou Mato Grosso na rota do país, estradas que ligavam Goiânia à Cuiabá e Cuiabá Rondonópolis foram asfaltadas. Mas, é Cuiabá era um local no meio do caminho que ligava Brasília à Amazônia”, diz o analista político, Onofre Ribeiro.

No mesmo período foram projetos alguns bairros que tem escasso planejamento de construção. A primeira etapa do CPA, com menos de 100 moradias foi projetado para a habitação de pessoas ligadas ao Centro Político, do início de 1970 que foi construído a cinco quilômetros do então centro da cidade. Na passagem da década as outras etapas foram surgindo.

Início do bairro CPA, na década de 1970, um dos poucos com planejamento. Hoje, nas quatro etapas moram mais de 200 mil pessoas

No outro lado da cidade, a região de mata começou a ser aberta para a implantação do bairro Tijucal. A área ficara mais de dez anos como um ponto habitado e isolado em Cuiabá – o Pedra 90 só começaria a se tornar bairro em 1992.

Falta de planejamento

O aumento da população dos últimos 50 anos, não foi acompanhado pelo planejamento habitacional. Desde 1970, Cuiabá vive fases de surgimento de áreas de grilagem. Em 2016, havia mais de 100 registradas pela Secretaria de Ordem Pública. À época, a administração de Cuiabá tinha registro 118 bairros, mas a estimativa é que mais de 300 estão realmente instalados.

O problema de desordenamento aparece no número de bairros que iniciaram sua instalação no período da explosão populacional e segue na ilegalidade. Na prática, isso significa que o plano diretor tem baixa eficácia.  Segundo a Secretaria de Meio Ambiente de Cuiabá, há bairros que ultrapassam 40 anos de ocupação e estão sem regularização fundiária. Exemplo dos Santa Izabel e Alvorada.

 

.


Comente, sua opinião é Importante!

PUBLICIDADE