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RENATO SANTTANA

Candidato pela primeira vez, Santtana acredita em independência do eleitor

Atuando nos bastidores da política desde os 14 anos, Santtana foi um dos fundadores do partido Rede em Mato Grosso

Cintia Borges

Repórter

11/09/2016 13h30 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

Foto Ahmad Jarrah



Com Reinaldo Fernandes

Sem nunca ter se candidatado a cargos eletivos, o historiador Renato Santtana encabeça pleito, pelo partido Rede Sustentabilidade, à prefeitura de Cuiabá (MT). Natural de Coxim, Mato Grosso do Sul, ele se mudou para Cuiabá há sete anos e, mesmo com pouco tempo na cidade, se diz preparado para gerir a capital mato-grossense.

Atuando nos bastidores da política desde os 14 anos, Santtana foi um dos fundadores do partido Rede em Mato Grosso. A candidatura para as eleições de Cuiabá apareceu como um desafio em sua carreira. “Neste ano nós tínhamos algumas candidaturas que, por motivos pessoais, não foram para frente. Os companheiros acharam que eu poderia transmitir a mensagem. As pessoas estão desencantadas com a política, mas é apenas com política que as coisas se resolvem”, diz.



Para o novo candidato, a falta de envolvimento efetivo das pessoas na gestão municipal é a principal falha política da atualidade. “A população não decidiu se queria o VLT. A má gestão também é resultado dessa burocracia do século passado do Poder Público. O administrador público atual ainda pensa na era analógica, da máquina de datilografia, mas nós já saímos da era dos computares desktop para a era dos smartphone, celular de última geração. Por que não podemos fazer uso disso para deixar as coisas mais transparentes, para ouvir o público?”, indaga.

Confira entrevista na íntegra

Circuito Mato Grosso: Quais as principais ações do candidato para levar ao eleitor as propostas?

R.S.: Nós somos um partido pequeno, não temos representatividade no Congresso para participar dos debates, por exemplo. Como somos um partido de diálogo, nós vamos sentar com as outras candidaturas para, primeiro, convece-las que é necessário fazer um debate, trazer para o centro da mesa política algumas temas, como saúde preventiva, política de saneamento.  A gente vem tentando fazer mídia social, talvez, não na velocidade que queríamos, mas estamos trabalhando.

Circuito Mato Grosso: Como o senhor vê a pesquisa que aponta o procurador Mauro em primeiro lugar na intenção de votos?

R.S.: Nós superemos o conceito de esquerda e direita, o nosso partido não encara mais com isso. Na minha vida principalmente, está muito claro eu me constituir em cima de várias leituras e fui formando que no século XXI não cabe mais reviver a Guerra Fria [disputa entre capitalismo e comunismo], estamos na modernidade líquida. Por exemplo, uma empresa e existe hoje, amanhã não existe mais. A profissão de cobrador [de transporte público], por exemplo, não existe mais. Não estou falando que vou voltar com a profissão de cobrador, mas a profissão sumiu e o Estado precisa criar mecanismos de integrar essas pessoas às novas profissões que estão surgindo. O capitalismo não é mais o mesmo que conhecemos na juventude, ele está passando por uma mudança, que foi semelhante que foram os burgos para a época do feudalismo. Talvez em trinta, 40 anos não haverá mais essa capitalismo, e Poder Público precisa estar antenado, mostrar o caminho para a sociedade. Eu vejo que candidatura do Psol ainda está olhando para um Estado muito grande. Tem uma concepção de estatizar o transporte coletivo, mas não cabe mais, o orçamento da prefeitura é inviável. Mas as pessoas veem o seguinte: o que está aí está tão desgastado que acabou sendo uma opção, já é a sexta campanha dele, seguida. Então Qualquer voz que destoasse do que estava aí acaba virando opção. Também não vejo que vá se consolidar e se consolidando, não vejo que conseguirá cumprir o mandato, porque é uma candidatura que tem pouco diálogo com a sociedade. E ninguém governa sozinho. Eu quero governar com a sociedade. Um dos principais projetos da minha gestão é criar um aplicativo para que sociedade possa realmente participar da gestão. Você pega, por exemplo, o orçamento participativo surgiu no Brasil nos anos 80, e o Brasil meio que abandonou o orçamento participativo, que você colocar nas mãos do cidadão, quem realmente paga as contas. Em Cuiabá, fizeram orçamento participativo por fato de marketing, não foi nada executado.

Circuito Mato Grosso: Um exemplo de onde poderia ser aplicado o orçamento participativo hoje?

R.S.: Quem sabe a qualidade do transporte coletivo é de quem usa, em frente da minha casa o ônibus é novo, mas só tem 50, segundo informação da imprensa. Eu não posso mensurar os ônibus pelos que passam em frente a minha casa, seria falso isso. Nós temos que ouvir os cidadãos. E como fazer isso? Pelo celular, todo mundo tem celular. E quem vai fazer esse aplicativo? Nós cuiabanos. Podemos ter uma indústria de software, não é caro fazer, é barato fazer. É mais barato que trazer uma indústria. Na indústria você gastar bilhões de reais para gerar 500 empregos. Na indústria de software, não. Nós vamos gastar milhares de reais para manter a estrutura básica, e você põe lá alguns professores para treinar a juventude, daí é mente. Precisamos ter um novo marechal Rondon. Ele está aí em nossos bairros, precisa ser fomentado. Poder público precisa ser fomentador, falta oportunidade para nossos jovens, e quando falta oportunidade, a criminalidade toma conta. 

Circuito Mato Grosso: Qual sua proposta para melhorar o trânsito?

R.S.: Fazer mobilidade urbana é fazer saúde. Hoje temos 400 mil veículos circulando em Cuiabá, de cuiabanos. Esses veículos emitem gases poluentes, que causam problema respiratório. Mais, aumenta a sensação térmica. Se fizer um transporte público de qualidade, não vamos reduzir o número de usuários de veículos. Como fazer um transporte público de qualidade? É executar o contrato, vale o que está escrito. Hoje qualquer veículo deprecia rapidamente; com cinco anos deprecia totalmente, e está pago. Então, a cada cinco anos deveria ter um veículo novo, não deveria? Temos que executar o contrato, aumentar as linhas de ônibus e ouvir se o atendimento está de qualidade. O cidadão quer pagar pelo serviço e receber o serviço.  

Circuito Mato Grosso: E no caso da CAB?

R.S.: Está judicializado. Se justiça devolver para a prefeitura, eu tenho uma forma de fazer esgoto. Queremos fazer um inventário de carbono, de gases poluentes emitidos por Cuiabá, cobrar [os emissores] e investir o dinheiro para fazer esgoto, recuperando o meio ambiente, principalmente o rio Cuiabá. 22% do esgoto de Cuiabá são coletados e tratados. Mas estamos na segunda década do século XXI em uma cidade com quase trezentos anos. Isso significa que estamos atrasados.  A última gestão, que vai concluir no dia 31 de dezembro, fez 4% [de serviços de saneamento], 1% ao ano. Se continuar nesse ritmo, parado do jeito que está, nós vamos levar 78 anos para concluir. Falta planejamento da cidade, isso impacto direto nos cofres públicos e quem paga o preço somos nós. São pequenas coisas que estão trazendo para debate, estamos fazendo um ‘estranhamento’ da cidade.  Nós não podemos esperar trezentos anos para dar o primeiro passo, precisa ser dado agora.

Circuito Mato Grosso: A continuidade da construção do novo pronto-socorro está em seu projeto de campanha?

R.S.: Nosso projeto de governo é sucinto, três páginas, porque queremos construí-lo com a sociedade. E não propomos nenhuma construção nova. Para nós, temos que terminar de construir o que está parada, em andamento. Se o pronto-socorro estive concluído hoje já estaria obsoleto. A demanda é muito grande. Por isso a gente fala em fazer mobilidade, saneamento e educação para a saúde. Desde a creche precisamos ensinar as crianças a comerem para evitar obesidade, prevenção em casa para evitar doenças tropicais (dengue, zika vírus, chikungunya), e com isso vamos formar uma nova geração. É em quatro anos? Não, em vinte, trinta anos, mas alguém tem que começar. Imagina daqui vinte, trinta anos nós sermos referência para o Brasil em saúde, para o mundo. É difícil fazer isso, demanda dinheiro? Não; é preciso vontade política. 

Circuito Mato Grosso: Você é favorável as PPP (Parcerias público-privadas)?

R.S.: Vou te dar uma resposta de forma diferente. Existe hoje um instrumento na lei de uso de solo chamado Operação Urbana Consorciada, que quem dita regra é o Poder Público, quem põe dinheiro executa as obras é o setor privado, quem envolve efetivamente no dia a dia e ajuda o Poder Público são os moradores.  Isso pode ser utilizado para revitalizar o Centro Histórico de Cuiabá, por exemplo.  Eu sou a favor incluir a iniciativa privada também. Não podemos dizer que o Poder Público vai fazer tudo. O cidadão quer que funcionem as coisas, se é publico ou privado não importa. Poder ser público e não funcionar. Ele quer pagar o imposto e ter o serviço. .

Circuito Mato Grosso: O candidato tem proposta para assistência social?

R.S. Sim. Nós falamos em assistência social de terceira geração. A terceira geração é não tornar as pessoas dependentes da assistência social, nós temos que fazer assistência social que liberte as pessoas depois. Você vai fazer emergencial, tem que formar ela [pessoa assistida] para efetivamente se libertar através da empregabilidade, gerando renda. Aí, vem a economia criativa, que é a economia do século XXI. É ela que pode trazer Cuiabá da era extrativista, porque Cuiabá não passou pela era industrial; passou, mas não entrou. Nós somos uma cidade de prestação de serviços. Nós temos que dar um salto para a era tecnologia, gerar renda.

Circuito Mato Grosso: Cuiabá tem problemas graves com a atenção básica, onde está o entrave?

R.S.: O entrave está em levar informação para as pessoas, fazer as pessoas a vivenciar essa informação. Não podemos criar uma campanha de marketing, com distribuição de panfleto, mas trabalhar dia e noite e voltar a dar educação para a saúde. Nossa campanha é educadora. Temos que agir para dar qualidade de vida.

Circuito Mato Grosso: Existe necessidade de cortes por causa de orçamento escasso?

R.S.: Não sei se existe gordura [no orçamento público]. Às vezes, o Brasil faz muito escândalo com o problema da corrupção, e o principal problema do Brasil não é a corrupção, é a má gestão. Se você tiver boa gestão não haverá corrupção. Você pode pegar o caso das obras da Copa [ do Mundo de 2014]. O maior exemplo de má gestão que podemos ter. Faltou dinheiro? Não faltou dinheiro, faltou gestão. Eu não me lembro de uma obra que não teve problema. Agora estamos com quase todas as obras inacabadas, os gringos vieram para andar de VLT e não andaram. Cortaram a [avenida] Rubens de Mendonça para fazer o VLT, estão gastando, se não me engano, R$ 13,5 milhões para refazer os canteiros. É um absurdo de má gestão. 

Circuito Mato Grosso: Essa má gestão que senhor aponta é por falta de quê?

R.S.: Falta de envolver as pessoas efetivamente, trazer as pessoas para o debate. A população não decidiu se queria o VLT. A má gestão também é resultado dessa burocracia do século passado do Poder Público. O administrador público atual ainda pensa na era analógica, da máquina de datilografia, mas nós já saímos da era dos computares desktop para a era dos smartphone, celular de última geração. As pessoas fazem isso disso, e por que não podemos fazer uso disso para deixar as coisas mais transparentes, para ouvir o público? 

Circuito Mato Grosso: Como avalia a gestão Mauro Mendes?

R.S.: As pessoas estão tão acostumadas com pouco que quem faz alguma coisa vira rei. Ele fez uma gestão, têm pontos positivos, pontos negativos. Mas vou dizer que eu esperava mais, fazer mais com o que tem. Politicamente, ele fez algo importante, fez um deputado ligado a ele, isso facilita para angariar emenda parlamentar. Não sei se ele está fazendo isso, mas do ponto de vista da política é positivo. 

Circuito Mato Grosso: O atraso do Executivo significa necessidade de restruturação?

R.S.: Eu não diria só do Executivo, é uma necessidade de restruturação do modelo político atual. Demanda mais de vontade do que de dinheiro. Se falar que demanda de dinheiro passa um ano, dois anos, quatro anos, chega uma nova campanha e não fez nada. 

Circuito Mato Grosso: Os gargalos do serviço público passam pela falta de vontade?

R.S.: Eu digo que é o status quo. Algumas coisas ficam naturais. É natural você pagar imposto e não receber serviço. Você paga por segurança e não tem segurança, então tem que pôr cerca elétrica, câmeras e outras coisas... Quem está pagando o serviço é você. Está pagando duas vezes. Você paga taxa de iluminação pública todo mês, mas sai para rua e está escura. Paga imposto para ter saúde, educação, e na hora que seu filho precisa, você coloca o filho no ensino privado. Se precisa de saúde, paga plano de saúde. Está pagando duas vezes. É necessário mudar a postura do político, de quem está ditando a regra. Não tem salvador da pátria, as pessoas têm que se envolver.

Circuito Mato Grosso: É viável a prefeitura instalar o VLT em Cuiabá?

R.S.: A prefeitura tem que cobrar de quem é de direito fazer a obra. O prefeito não pode ser omisso. Tem que chamar o Ministério Público, o Poder Judiciário, chamar BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social), as empreiteiras, e dizer: ‘Oh, já foi gasto muito dinheiro. Não podemos rasgar o dinheiro do povo. Precisa concluir’. A prefeitura vai ditar a regra da tarifa. Até está tendo uma omissão, poderia ter um ação mais direta.  Não só no VLT, nas outras obras também. Já terminou a Copa, já passou pelas Olimpíadas e já estamos chegando na Copa da Rússia (2018), e nada.

Circuito Mato Grosso: Em possível segundo, em que o senhor não entre, para quem iria seu apoio?

R.S.: Primeiro, nós acreditamos até vamos para o segundo turno. Eu digo que é um turno de  cada vez. Mas, caso a gente não vá para o segundo turno, primeiro, queremos sentar com todos para dizer que é preciso fazer melhor, aí queremos que tudo mundo debata as questões que estamos debatendo. Nós viemos para descolocar o modelo político atual da zona de conforto, porque está em zona de conforto. O camarada prometa que vai mudar saúde educação e segurança e não eleição seguinte só muda a ordem – segurança, educação e saúde. Mas não entrega nenhuma das coisas. Por isso que eu falo que falharam os modelos capitalista e comunista, porque prometeram fazer as coisas e fizeram. O futuro depende da ação de hoje. Nós vivemos para ter qualidade vida, queremos ter vida e vida em abundância. 

Circuito Mato Grosso: Quanto às políticas de assistência social? Cuiabá tem problema com assistência a idosos.

R.S.: Quem ama cuida. Quem estiver com idade de trabalho, tem que trabalhar, gerar rendas. Eu acredito que as pessoas não querem ficar tuteladas o todo o tempo pelo Estado. As pessoas têm orgulhoso. Mas hoje eu vejo que o Estado quer tutelar as pessoas; é vantajoso por questões eleitorais, não tem outro motivo. Uma política do coronelismo que foi reinventada.  ‘Tudo muda no Brasil de forma a permanecer como está’. O modelo de assistencialismo foi criado para deixar as pessoas dependentes.

Circuito Mato Grosso: Qual é sua proposta?

R.S.: Justamente se utilizar das novas tecnologias, se utilizar da economia criativa, colaborativa, que é nova economia. 50% das vagas de hotelaria no Rio de Janeiro [durante as Olimpíadas] não foi da indústria hoteleira, foi através das pessoas. Isso é gerar renda diretamente nas mãos das pessoas. Temos que construir a cidade para as pessoas, isso pressupõe a qualidade de vida.  A cidade não está preparada para receber as pessoas. São coisas básicas que precisam ser feitas, e eu acredito que são possíveis porque já exemplo. Nós não estamos falando em inventar a roda.

Circuito Mato Grosso: Como você vê a economia de Cuiabá?

R.S.: Nossa vocação é prestar serviços. Nós temos uma riqueza muito maior que não se traduz em moeda que é a nossa cultura. Explorar muito melhor a cultura, transformar em dividendos para o povo. Nosso turismo é pouco explorado.  Nós temos o centro geodésico da América Latina aqui, temos o Marechal Rondon, patrono da comunicação. Devemos trazer as pessoas de todo o Brasil conhecer nossa cultura. Criar um grande epicentro de comunicação. Temos igrejas históricas, criar a rota das igrejas históricas em Cuiabá. Difundir isso para todo o Brasil, que movimentará a hotelaria, o comércio. Estamos perdendo o ‘insight’. 

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