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JÚLIO CAMPOS

‘O DEM quer chegar ao poder’

Juliana Arini

Editora

12/07/2018 07h30 | Atualizada em 12/07/2018 15h11 1 comentario

É o que afirma um dos políticos mais experientes de Mato Grosso, que praticamente exerceu quase todos os cargos possíveis do Legislativo e do Executivo.  Nas últimas quatro décadas, o engenheiro agrônomo de 72 anos foi vereador, prefeito, deputado federal, governador de Mato Grosso e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.  Atual secretário estadual do partido Democratas (DEM), Júlio Campos falou com exclusividade ao Circuito Mato Grosso sobre as Eleições 2018, os erros e acertos do governo de Pedro Taques, a possível aliança com o MDB para a disputa majoritária e o seu futuro político em busca de um cargo ainda não conquistado, uma cadeira na Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

Circuito Mato Grosso: Recentemente houve uma brincadeira do atual governador sobre sua lealdade para com ele. Como é sua relação com Pedro Taques hoje?

Júlio Campos: O relacionamento institucional é razoavelmente bom. Não tenho nada contra a sua pessoa, mas partidariamente estamos separados.  O Democratas tem um projeto de crescimento no Estado e de chegada ao poder.

CMT: Como seria esse crescimento?

J.C.: O DEM sempre foi forte em filiação, tínhamos 54 mil filiados e hoje temos 57 mil, mas havia pouca representação política, com só um deputado estadual (Dilmar Dal Bosco). Hoje somos o maior partido do estado com a vinda de novos deputados, federal e estaduais, como o Eduardo Botelho, o federal Fabio Garcia, o Professor Adriano e a filiação do ex-prefeito de Cuiabá Mauro Mendes.  O partido se reforçou substancialmente e até para seguir a orientação do diretório nacional, que lançará Rodrigo Maia (deputado federal e líder da Câmara dos Deputados) para um projeto de Presidência da República, decidimos seguir um rumo próprio.

CMT: Houve uma ruptura política com o governador Pedro Taques também, não?

J.C.: Já tínhamos comunicado no ano passado que iriamos nos afastar nesse segundo mandato. Inclusive o deputado Dilmar Dal Bosco entregou em março a liderança do governo na Assembleia por conta dos nossos planos.  Esse também foi um governo em que o partido nunca teve participação em termos de cargos.

CMT: O partido ficou ressentido com o esse isolamento?

J.C.: Causou um pouco de mágoa e ressentimento nas bases políticas. No momento em que você ajuda a eleger um governador, como nós ajudamos em 2014, acreditamos que tínhamos direito de ter pelos menos um ou dois companheiros como secretários ou diretor de órgão e participar da administração. E isso o Pedro nunca permitiu, ele concentrou toda a força política nele e alguma coisinha em termos do PSDB, partido dele, no PSD do ex-vice-governador Carlos Fávaro e do PP, o partido do Blairo Maggi. Nós não tivemos nada, não havia por que continuar a querer ser força secundária em um projeto de governo como o do Pedro.

CMT: Quando exatamente começou esse afastamento oficial?

J.C.: Foi ano passado, depois que houve um encontro na casa dele, uma feijoada que ele fez.  Pedro comunicou que era candidato à reeleição e também disse que o Fávaro estava certo como o seu vice e os dois senadores seriam o Blairo Maggi e a segunda vaga seria do Nilson Leitão.  E ainda disse que o Jayme Campos e o DEM se virassem para conseguir uma “suplência” ou algo assim. Um partido aliado dele de primeira ordem ser reduzido a uma suplência? E nós já estávamos no entendimento com Fabio Garcia e todo esse pessoal para vir para o partido, foi sinal que ele não fazia tanta questão de nosso apoio na sua possível reeleição.

CMT: A que o senhor atribui tanta atração dos políticos para se filiarem ao DEM?

J.C.: Foi um dos partidos menos sujos na estrutura na política brasileira. Nós não tivemos, graças a Deus, envolvimento nesses escândalos de Lava Jato, Petrolão, Mensalão. Nos últimos dez anos petistas e dilmistas, houve muita corrupção enlameando muitos partidos. Até o PSDB que era de oposição tem vários líderes enlameados com a corrupção do último governo. Aqui em Mato Grosso também, as lideranças do DEM não estão envolvidas no processo de corrupção do Silval Barbosa da Ararath e Rêmora e todos esses processos. O único é o deputado (Mauro) Savi, que é recém-filiado e trouxe essa carga pesada, porém suas ações não foram feitas enquanto filiado ao DEM. Logo, hoje somos um partido bom moralmente para receber filiações. Não vou dizer que todo mundo é virgem imaculada, mas perto do que houve aí o DEM saiu-se muito bem. Além disso, temos dois nomes fortes que são o Jayme Campos e o Mauro Mendes.

CMT: Como foi essa decisão entre Jayme e Mauro para governo?

J.C.: Fizemos duas pesquisas e os melhores quadros para a disputa são os de Mauro para governo e Jayme para o Senado.

CMT: O senhor tem muita experiência na máquina pública. Qual avaliação faz do governo Pedro Taques?

J.C.: Faltou valorizar os companheiros. Pedro se isolou muito também, é um governo absolutista. Começou o isolamento bem logo após a eleição, imediatamente ele fez uma reunião e comunicou aos partidos que o apoiaram que não iria querer nenhum deles na formação de seu secretariado. Lançou um secretariado exclusivamente de gente nova, tecnocratas e sem experiência administrativa. Acabou dando nessa descontinuidade administrativa. Um dos grandes erros do governo Pedro Taques foi essa mudança contínua de secretários. Nesses três anos e meio de governo ele já mudou 33 secretários.  É muita gente. Dá uma média de 11 secretários por ano.  A Casa Civil, nem se fala, está no quinto secretário. A Secretaria de Saúde, até já perdi a conta, é a pasta mais grave.

CMT: Uma das grandes críticas ao governo Pedro Taques é esse grande número de pessoas sem experiência de governo. O senhor concorda?

J.C.: Não tem gestão. Ele mesmo é fraco, pois não é do ramo.  Ele é da área do Ministério Público, mais experiente em representar, vem da área repressiva e não da área construtiva.  Passou esses anos todos só olhando pelo retrovisor e vendo o que Silval Barbosa fez e aprontou o que aconteceu no passado, e esqueceu-se que governar é avançar, é modificar, é melhorar.  Tem muita verba parada, falta terminar o Veículo Leve sobre Trilhos, o Hospital Universitário e o Rodoanel. Passou o tempo e não fez nada disso.

CMT: O senhor foi senador, governador, deputado e esteve em várias áreas do Legislativo e Executivo, foi conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Qual seria o cargo mais complexo dessas esferas?

J.C.: Sim, fui quase tudo, deputado, prefeito, governador, são 37 anos de carreira pública. Acredito que ser prefeito é o mais difícil. A população cobra diretamente, pois você está na base, em contato frente a frente com o povo. Ainda mais eu que fui prefeito de um município como Várzea Grande na década de 1970, que tinha muita dificuldade de recurso. E eu modernizei a cidade apesar disso. E olha que eu fui prefeito com 25 anos, e muito jovem já tinha sido líder estudantil, presidente de grêmio e diretório acadêmico, já tinha experiência política.  

CMT: Como foi essa modernização de Várzea Grande?

J.C.: Eu montei uma equipe de assessores. Consegui apoio do governador da época, o saudoso José Fragelli, e pedi para que ele me cedesse os melhores técnicos. Montei uma equipe com técnicos cedidos pelo governo (e pagos por ele) e transformei Várzea Grande, que era uma cidade-dormitório, em uma cidade industrial. Através de incentivo fiscal, trouxe Sadia Oeste, Coca-Cola, indústrias madeireiras e levei todas as empresas comerciais para Avenida da FEB que eu dupliquei. Eu era muito habilidoso e sempre me entrosava muito com os governadores, e isso ajudava muito.  Assim fui considerado um prefeito revolucionários, o que me levou para o Legislativo e depois para o governo.  Fiz quase 2.500 quilômetros de asfalto em dois anos de governo e incentivei os sulistas para ocuparem o interior.

CMT: Foi o senhor o ‘culpado’ por trazer o Blairo Maggi para cá?

J.C.: Foi mesmo (risos). Mas foi assim: com a construção da hidrelétrica de Itaipu, houve uma desapropriação muito grande entre os proprietários rurais no Oeste do Sul do país e muita gente recebeu indenização, mas perdeu as terras. Eu fui lá convidar esse povo que estava capitalizado, que tinha estrutura e experiência montada em termos de agricultura, para vir para cá. Eles falavam em soja e aqui ninguém sabia o que era isso. Criei incentivos de terras e financiamento do Banco do Brasil, do Estado de Mato Grosso e até dos privados, via Banco Bamerindus, por exemplo. O Bemat (Banco do Estado) tinha uma carteira de crédito rural muito forte.  Depois aproveitei que consegui visibilidade com o presidente da República (João Figueiredo) e fiz um programa habitacional criando o CPA, Santa Amália e um monte de novos loteamentos.

CMT: O senhor foi um prefeito e um governador jovem. Como explica essa capacidade de realizar projetos complexos em quatro anos, se hoje não conseguem nem terminar um asfaltamento...

J.C.: Equipe bem formada. Quando fui eleito prefeito, fui à Universidade Federal de Mato Grosso e chamei alguns técnicos, como Gabriel Novis e Edson Miranda, e criamos um plano de governo. Até o meu discurso de posse de prefeito já falava de coisas modernas, em 1973, eu já falava da conexão entre Várzea Grande com Nova Iorque. Olha só isso, hoje, como eram as coisas. Eu sempre gostei de conversar com pessoas mais inteligentes do que eu e tive a humildade de escutar. Tanto que saí da prefeitura de Várzea Grande pré-candidato ao governo, mas não tinha idade para isso, pois estava com menos de 35 anos, daí fui para Brasília como deputado federal mais votado da história, com 21% dos votos.

CMT: Sobre votação. O senhor acredita que essa saída de Blairo Maggi da cena política tira voto e afetará a reeleição de Pedro Taques?

J.C.: Vai ter uma dificuldade maior. E outra: mesmo se Blairo estivesse na política, a candidatura do Mauro complica, pois ambos são muito próximos e isso deixa Maggi neutro. Seria difícil ele (Blairo) entrar no palanque contra (Mauro), ainda mais que o (Adilton) Sachetti é compadre dele.

CMT: A proposta da chapa Mauro Mendes para governo e Otaviano Pivetta como vice não assusta um pouco, já que essa chapa perdeu para prefeito de Cuiabá em 2008 e para governo em 2010?

J.C.: Em 2010 foi simbólico, Mauro e Pivetta disputaram o governo e com Pedro Taques para Senado. Elegeram o Taques e perderam a eleição, mas isso foi porque o Wilson Santos tirou 17% dos votos e polarizou o cenário.  Mas hoje os tempos são outros. Tem gente que tem superstição, eu acho que o momento é muito favorável para o Mauro, primeiro porque ele mudou de partido. Saiu de um partido bem representado, mas que não tinha base de apoio. Segundo, porque o Mauro vai disputar com um governador com um índice de desgaste muito grande. As pesquisas mostram o índice de rejeição do Pedro Taques superior a 40%.

CMT: O senhor acha possível ele se reeleger com esses números?

J.C.: Nenhum cientista político afirma que uma pessoa com índice de rejeição acima de 25% a 30% consegue se reeleger. Se você tiver uma rejeição de 30%, você já entra em uma possiblidade de que de cada 100 eleitores 30 te rejeitam e assim só resta disputar o voto de 70. É muito pouco para a porcentagem eleitoral. A rejeição tem que ser menor. Um caso recente foi do Aécio Neves, que decidiu esta semana disputar a Câmara Federal, porque embora na pesquisa ele estivesse com 21 e Dilma Rousseff com 24 para o Senado Federal, o índice de rejeição dele é muito grande em Minas Gerais, logo ele optou por sair para deputado.

CMT: Existe alguma chance de o DEM compor com o MDB em uma chapa para o governo?

J.C.: Se houver segundo turno em Mato Grosso. Se sair quatro ou cinco candidatos é quase certo que haverá segundo turno, pois não temos nenhum supercandidato.  Nesse caso, a tendência natural é os partidos de oposição se unirem contra o governo atual.  O normal será Wellington e Mauro unirem forças, talvez até o PSOL, o procurador Mauro, em um projeto novo de governo.

CMT: E o senhor? Vai sair candidato a deputado estadual?

J.C.: Meu nome está em discussão no partido, mas estou com um problema de ordem familiar. As minhas filhas são contra, por conta da minha saúde. Acabei de ganhar a bênção, que foi o sucesso do transplante bem-sucedido. Elas questionam a razão de voltar a ter uma vida estressante e são contra. Mas ainda não decidi. Segundo uma pesquisa, encomendada pelo prefeito Emanuel para sondar a receptividade do filho dele, para estadual aqui em Cuiabá melhores nomes são Júlio Campos e Janaina Riva.

1 COMENTÁRIO

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