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SÔNIA GUAJAJARA

Indígena é candidata à copresidência brasileira

Proposta é montar governo participativo entre ela e Guilherme Boulos com poder decisório direto da população

Rodivaldo Ribeiro

Editor-adjunto

28/06/2018 08h00 | Atualizada em 28/06/2018 16h40 3 comentarios

Nascida em uma comunidade indígena arariboia de Amarante do Maranhão, Sônia Bone Guajajara fez 44 anos em março deste e tornou-se, meses depois, a primeira pré-candidata indígena à Presidência da República da história do Brasil. Formalmente, é vice de Guilherme Boulos pelo PSOL, internamente, classificam a chapa como uma só, pois comandariam o governo em pé de igualdade, em sistema de coparticipação.

“Sou candidata à copresidência, não serei figurativa. Vice? Só na nomenclatura oficial”, diz. É uma das maiores lideranças dos povos autóctones do país. Em torno dela, convergem pelo menos 305 etnias, agregadas na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), da qual é coordenadora executiva. Formada em letras e em enfermagem, é especialista em educação especial pela Universidade Estadual do Maranhão.

Sua militância em ocupações e protestos começou na Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos indígenas no Maranhão (Coapima), de onde foi para a Apib. Também é parte da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Entre seus feitos estão a entrega do prêmio Motosserra de Ouro para a senadora Kátia Abreu (MDB), em 2010, e autoria de várias denúncias às Conferências Mundiais do Clima (COP) entre 2009 e 2017. Já subiu no palco do Rock in Rio, ao lado e a convite de Alicia Keys. Leia abaixo os principais trechos da entrevista que ela concedeu ao Circuito Mato Grosso quando esteve por aqui, mês passado.

Circuito Mato Grosso: Como vai funcionar essa copresidência na prática?

Sonia Bone Guajajara: A gente já faz isso na prática, durante a campanha. Estamos com uma agenda totalmente compartilhada e todas as nossas atividades estão sendo decididas conjuntamente. Aonde um vai, tudo que o outro faz, é definido conforme a demanda. Não é mais importante estar o candidato a presidente (Guilherme Boulos) ou a copresidente.

CMT: Mas caso ganhem, Boulos pegará a faixa, não?

S.B.G.: Claro. Ele pega a faixa porque há um sistema que é regulamentado dessa forma, mas o que estamos dizendo é que na prática a iniciativa vem das bases como uma forma de apresentarmos uma alternativa de maior participação. Porque historicamente os vices têm sido figurativos ou só pra compor. Estamos com uma iniciativa totalmente participativa e vamos levar isso dessa forma. Sabemos que legalmente há os padrões a serem seguidos, mas é uma forma também de irmos rompendo com essa velha forma do sistema político. Dando certo, com certeza haverá muitas outras adesões e é uma forma de a gente apresentar uma mudança a partir de iniciativas populares.

CMT: Como vão governar, caso ganhem, com um Congresso como aquele?

S.B.G.: Um Congresso altamente conservador, centralizado nas mãos de poucos interesses? Sim. Há bancada ruralista, a que vende uma segurança pública que na verdade, da forma como eles querem, é insegurança pública, e dos evangélicos, bem conhecida como bancada BBB [bala, boi e Bíblia]. Mas o que nós apresentamos é uma proposta de governar com o povo. Hoje, o poder de decisão é muito centralizado na mão desses parlamentares. Foram eleitos pelo povo para estar lá e representar, só que quando esses parlamentares não conseguem contemplar toda essa diversidade da população, atender aos interesses do povo, essas decisões deles precisam sim ser questionadas. Nossa proposta é governar com o povo, por meio de plebiscitos, de referendos. E isso não é invenção nossa, já existe e é regulamentado pela Constituição Federal. Outros países fazem isso regularmente, com muito mais frequência. Precisamos adotar um jeito que possibilite a participação do povo não só na hora de votar, mas também na hora de tomar as decisões.

CMT: Quantos indígenas ainda vivem no Brasil?

S.B.G.: Somos 817.900. Basicamente 900 mil, segundo o último censo do IBGE. Esses 817.900 falam 305 línguas diferentes e temos ainda quase 100 grupos, chamados pelo Estado brasileiro de povos isolados, que vivem na Amazônia. Mato Grosso é um estado que tem áreas indígenas e a presença de “povos isolados”, que nós chamamos de povos autônomos, porque eles estão lá por decisão própria, porque querem ficar lá, mantendo seu modo de vida, e não somos nós que vamos obrigar ao contato. Temos que respeitar a decisão deles de continuar vivendo assim. Pra poder garantir a sua existência, seu modo de vida, o que cabe a nós, enquanto movimento indígena organizado, que luta pela defesa e manutenção de direitos territoriais, é lutar por esses territórios, para que eles consigam viver dentro de seus ambientes.

CMT: Sabe quantos desses vivem em zonas de conflito?

S.B.G.: Eu não tenho um número de cor quando se trata de povos isolados. Mas, no total da população brasileira, há o seguinte: como eles não têm contato nenhum com a sociedade, são muito mais vulneráveis, porque dependem de nós pra fazer essa proteção e fazer essa garantia territorial pra eles. Agora, entre os que já estão em movimento, lutando por seus direitos e fazendo sua própria defesa, estamos presentes no Brasil inteiro. Mas a pressão é muito maior no Nordeste, no Sul do país e sobretudo em Mato Grosso do Sul que é o estado que tem a maior visibilidade da questão dos conflitos fundiários, porque todos os territórios tradicionais indígenas foram entregues nas mãos de fazendeiros. E foram entregues pelos militares, na época da ditadura militar, pelo próprio Estado, assim como na Bahia foi por títulos de posse. Hoje nós indígenas fazemos um processo de retomada. Ou seja, sabem onde ficam as áreas tradicionais e entram nesses territórios para poderem retomar seu espaço. Quando fazem esse processo, são vistos como invasores. Isso é inverter o processo: ao invés de tirarem os invasores, quem está ocupando território indígena, estão arrumando um jeito de criminalizar os indígenas.

CMT: Falando em criminalização indígena, uma senhora Kamayura é acusada de praticar infanticídio. Antropólogos dizem que é uma minoria a praticar isso nos dias que correm, mas evitam falar sobre. Como funciona isso hoje em dia entre os povos?

S.B.G.: Dizem que ela é filha de criança sem pai. Ela não é sem pai, é de pai ausente. Os direitos são negados já a partir daí, de se colocar a culpa nas costas da mulher. Se é uma mulher indígena, querem pegar um caso e generalizar toda a situação, como se todos os povos praticassem casos como esse. Pra nós, é totalmente abominável, venha de onde vier. Casos como esses não podem ser tolerados, não se pode enterrar ninguém vivo, mas a mídia também não pode se utilizar disso para colocar os indígenas como assassinos de crianças. Não quero de jeito nenhum justificar isso, mas vivemos sempre um genocídio. Somos mortos, assassinados, pelo próprio Estado brasileiro e até hoje em muitos casos acontece isso, às vezes por desespero, de não ter sequer terra regularizada, que leva a alto índices de suicídio, por causa de falta de esperança. Repito: não quero justificar, mas o que a família disse a respeito é que a avó, a priori, imaginou que a criança estivesse morta. Fez o ritual de enterro como são as práticas fúnebres. Temos que ter cuidado, não podemos pegar como base para a acrítica uma prática habitual de todos os povos, há que se ter outra abordagem.

CMT: Caso não cheguem ao segundo turno, vão caminhar com outros partidos de esquerda?

S.B.G.: Estamos num amplo debate hoje com a esquerda para uma unidade que luta contra a injustiça, fortaleça a democracia e combata as desigualdades. Isso agora, mas pra um processo eleitoral, cada partido tem seus pré-candidatos já lançados e a gente segue junto com nossa pré-candidatura, mas o que vai acontecer no segundo turno ainda é um debate que precisamos fazer para ver como chegaremos lá. Mas com certeza a unidade de esquerda é fundamental.

CMT: Foi injusta mesmo a prisão do Lula ou ele devia sim responder pelas acusações e crimes imputados a ele?

S.B.G.: Olha, nós temos muitas divergências com o governo Lula e com o governo Dilma. Muitas. Mas todos nós do movimento indígena, na pré-candidatura e o partido, o PSOL, apostamos a postura de defender o direito dele ser candidato, porque nossas divergências não podem de maneira nenhuma serem confundidas com injustiça porque essa prisão dele é totalmente arbitrária e é uma forma de mandar um recado para nós todos que somos de esquerda e estamos ocupando os espaços. A direita jamais iria deixar ter continuidade um governo de esquerda. Consideramos sim arbitrária essa prisão e lutamos para que ele possa de fato concretizar sua candidatura.

CMT: Foi algo sintomático então, um passo a passo para sufocar a esquerda?

S.B.G.: Sim. Foi passo a passo, primeiro arquitetaram e executaram o golpe e agora os efeitos dele continuam em curso. Não tenho dúvida de que é sim pra sufocar a esquerda. O próprio assassinato da Marielle é um exemplo disso. Muitas coisas aconteceram nos últimos tempos que são etapas relacionadas ao golpe: a prisão arbitrária do Lula, a execução da Marielle, o ataque às caravanas do Lula quando ele ainda percorria o Brasil, agora a tentativa de colocar uma ditadura militar, com muita gente defendendo isso. Então acho que estamos num momento muito perigoso, muito grave e que exige de nós uma resposta e ela é reorganizar a esquerda, trazer a população, fortalecer os movimentos de base para podermos apontar outro rumo.

CMT: Um Brasil com uma direita organizada, como acontece nos EUA, a senhora já vê aqui no país, com grupos de poder financiando as ações?

S.B.G.: Sim, tem muito financiamento para bancar essa política da direita institucional. Tanto que quando se elegem não têm nenhum compromisso com o povo, que pra eles não importa, pois a conta deles é com os empresários que os financiaram. Eles tentam responder a eles e atender aos interesses deles e só deles, não aos do povo. Com certeza no Brasil a direita está muito articulada, o setor empresarial, o agronegócio, a mídia tradicional e os políticos tradicionais. Todos juntos. Desde o momento do golpe os três poderes estão muito articulados, com o Judiciário tomando partido desses pontos de vista ao fazer uma justiça seletiva. Pretendem dominar mesmo todo o sistema político e só cabe a nós fazermos nossa luta de baixo pra cima, com o povo.

CMT: A senhora tem alguma proposta como copresidente para melhorar a saúde indígena?

S.B.G.: A saúde indígena hoje tem uma secretaria e um sistema próprio a Sesai (Secretaria de Saúde Indígena), vinculada direto ao Ministério da Saúde e à SEI (Secretaria Especial Indígena), mas falta a princípio uma adequação melhor desde o atendimento da base, multidisciplinar, até o Ministério da Saúde, em que se centralizam os recursos. E há quantitativo suficiente que daria para atender, mas o que falta – sempre faltou em toda a história – é uma gestão comprometida, de qualidade, para poder usar esses recursos. Hoje o que falta é isto: compromisso de fato, principalmente nos últimos anos de golpe, quando tudo foi entregue a partidos políticos. As pessoas lá colocadas não têm nenhum compromisso com a saúde dos povos, mas com o deputado que o colocou lá, o recurso da saúde indígena está sendo muito mal gerido e indo pelo ralo por atender a outros interesses que não a saúde. Tem que haver uma auditoria para ver como estão sendo aplicados os recursos e porque eles não chegam. Tinha que haver uma destinação direta para o bom atendimento da saúde dos povos indígenas, porque esse sistema como é hoje prevê fortalecimento dos conselhos, do atendimento de parteiras, de valorização da medicina tradicional, mas na prática isso não acontece. O que falta mesmo é execução por parte de gente comprometida.

CMT: No Maranhão há um problema grave com o agronegócio, como aqui?

S.B.G.: Tem demais, no Maranhão é onde começa o grande projeto do Matopiba, a exploração, a liberação de partes do cerrado do Maranhão, Tocantins e Bahia para o agronegócio. O que contabilizamos não são só povos indígenas, mas tradicionais, ribeirinhos, toda a população que está ali naquele corredor entregue à exploração desenfreada. O que acontece hoje lá é o que já aconteceu e continua acontecendo aqui e em Mato Grosso do Sul que é entregar os territórios para exploração, seja pra expansão da pecuária, da soja, da cana-de-açúcar, do eucalipto, das monoculturas que vêm sempre segundo o projeto de desenvolvimento deles: explorar, produzir para poder resolver a “crise econômica”. O problema é que pode até gerar lucro hoje, mas o futuro ninguém garante. Nós não vamos muito longe se continuarmos com esse modelo predatório, dessa forma.

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