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ANDRÉ D’LUCCA

“Sei dos perigos que corro”, diz ator ao Circuito MT

O ator, um dos mais irreverentes comediantes mato-grossenses que utilizam a comédia como palco para a paródia da cena política, diz estar consciente dos riscos

Vinícius Lemos

Jornalista

14/04/2018 07h30 | Atualizada em 14/04/2018 10h23

“Sei dos perigos que corro”, diz ator ao Circuito MT

Divulgação

Os riscos da profissão estão evidentes para o ator André D’Lucca. Um dos poucos artistas mato-grossenses que alfinetam políticos e autoridades do Estado, o ator afirma ter sido atacado diversas vezes. Utilizando-se da comédia, com personagens clássicos como Almerinda, ele afirma não temer as represálias dos poderosos.

Formado em Direito, D’Lucca deixou a profissão para seguir aquilo que ama desde a juventude: a atuação. Aos 40 anos, ele afirma estar orgulhoso dos caminhos que escolheu e não pensa em deixar de morar em Cuiabá. “Sempre achei que minha carreira seria no Rio de Janeiro, em São Paulo ou morando fora do país. Sempre pensei que eu deveria trabalhar em grandes centros. Porém, me sinto tão acolhido aqui que comecei a pensar que eu tenho um papel em Cuiabá”, afirma.

Além das críticas que faz caracterizado como seus personagens, o artista também tem feito publicações de cara limpa, em suas redes sociais.  O governador Pedro Taques (PSDB) e o prefeito Emanuel Pinheiro (PMDB) são alvos constantes das críticas de D’Lucca. No passado, o ex-governador Silval Barbosa  chegou  a processar o ator.  D’Lucca conversou com o Circuito Mato Grosso sobre a carreira, confessou que se considera o ‘bobo da corte’ do Estado

CMT: Como iniciou sua carreira? Por que decidiu seguir pela arte?

André D'Lucca: Comecei aos 14 ou 15 anos. Foi meio que acidental. Eu sabia desde a infância que queria trabalhar com atuação. Era 1990, mais ou menos, quando entrei para a Escola Técnica [atual IFMT] e assisti à primeira peça de teatro, com luz, som e em um palco. Me apaixonei, cheguei em casa empolgado, mas minha mãe não me apoiou e disse que eu era criado para fazer medicina. Ela falava que ator é tudo "viado, maconheiro e boca-suja". Depois disso, entrei no [Grupo de Teatro] Ânima, que era coordenado pelo Gilberto Nasser, por três anos. Mas eu não podia participar muito, porque os atores eram divididos em três grupos, conforme avaliação do coordenador, e eu estava no grupo dos piores. Em 1995 vi uma faixa de teatro no Cena 11, me interessei e fui convidado para fazer parte. Depois, em 2000, percebi que Cuiabá havia ficado pequena para mim e decidi ir para o Rio de Janeiro. Nesse período, trabalhei em produções da Globo, onde tive diversos personagens em humorísticos da emissora. O meu maior papel foi como um dos principais personagens em um episódio do extinto ‘Sob Nova Direção’, em que peguei um papel que seria do Lázaro Ramos, que não poderia gravar porque estava fazendo um filme. No período fora de Cuiabá, também fui pra São Paulo e pra Portugal, onde fiquei um ano e meio. Depois, voltei para Mato Grosso por causa da morte do meu irmão. Vim fazer uma temporada de teatro no Sesc e ele foi assassinado. O meu irmão foi assaltado e, para roubarem R$ 35, tiraram a vida dele. Eu resolvi passar um tempo aqui e acabei ficando.

CMT: Você já sofreu muito preconceito por ser negro?

A.L.: Sempre. No Brasil, todo negro sofre preconceito. Desde criança, eu passava por isso. A minha mãe era professora e, mesmo sendo pobre, eu estudava nos melhores colégios de Cuiabá. Geralmente, éramos os únicos negros. Era um inferno, porque era um ambiente de criança branca e de classe média. Depois de adulto, também passei por situações em que fui alvo de preconceito.

CMT: Você assume um viés mais politizado na comédia. Por quê?

A.L.: Eu acredito que todo artista tem que ter uma assinatura e ter determinada bandeira. Eu gosto de humor. A minha mãe sempre disse que eu era engraçadinho e metido a palhaço. Eu tinha uma identificação com os quadros que o Jô Soares fazia, que eram muito relacionados à política. Também me identificava muito com os personagens do Chico Anysio, que apesar de muitas vezes ter um texto racista e estranho, ele também falava de política.

A comédia entrou de um jeito meio acidental em minha vida. Quando eu estava no grupo Cena Onze, uma atriz que fazia uma freira não pôde fazer a peça e eu tive que fazer no lugar dela. A galera morreu de rir e eu fiquei com o papel. Quando eu entrava em cena, a plateia ia abaixo, porque ria muito. Eu gostei daquela adrenalina, de ter aquela resposta imediata da plateia e a partir de então comecei a fazer comédia.

CMT: Quando começou a vertente política?

A.L.: Em Almerida, em 2000, quando comecei a falar de Arcanjo, que ninguém falava na época. Depois, comecei a falar de políticos como o Blairo e os Campos. As pessoas ficavam chocadas. Nessa época, só o Liu Arruda fazia isso. Muitas pessoas falavam que eu imitava o Liu, diziam que a Almerinda era uma cópia da Comadre Nhara [personagem criada por Liu]. Elas não têm nada a ver, apenas falam de política. Hoje em dia, faço as duas, porque presto uma homenagem ao Liu.

CMT: Você já recebeu algum tipo de ameaça?

A.L.: Desde o início. Falar sobre política é algo perigoso, está aí a Marielle [Franco, vereadora morta no Rio de Janeiro] para provar. Quando faço uma piada política, por mais que seja verdadeira, não estou ofendendo somente o político, estou atingindo também a família dele, os assessores, os puxa-sacos e parte dos eleitores dele. Então, às vezes perco muita coisa com uma piada boba. Mesmo quando estou falando sobre algo que está nos jornais, não é nenhuma novidade, as pessoas levam pra esse lado.

Já deram quatro tiros na porta da casa da minha mãe e eu tive que mudar da casa dela. Um homem armado já entrou na casa dela falando que era meu amigo, tomou café e me ligou falando que ia matar a minha família inteira. Já seguiram meu carro em Cuiabá. No interior, um prefeito ligou no hotel e no teatro e me ameaçou, se eu fizesse alguma piada dele. Eu fazia somente uma piada na apresentação, mas depois disso fiz umas dez. Ameaças e processos não me intimidam. Eu me sinto fazendo o meu trabalho e vou continuar fazendo. Já recebi dezenas de ameaças de processo, mas somente dois se concretizaram, da Roseli Barbosa [ex-primeira-dama do Estado].

CMT: E que fim tiveram os processos movidos pela esposa do Silval Barbosa?

A.L.: Não deram em nada. Propuseram um acordo, no qual me passaram a perna. A cópia que me deram para ler era uma e as que estavam embaixo eram outras. Eu assinei o acordo e saiu na mídia que eu tinha me vendido, porque no texto falava que eu pedia perdão e me comprometia a nunca mais citar o nome dos Barbosa. Eu fui à Justiça e consegui cancelar o acordo. Pra grande parte da população, ficou parecendo que eu tinha me vendido por R$ 1 milhão. Depois que cancelei o processo, continuei falando deles. Um tempo depois, ela conseguiu validar o acordo, com um magistrado que era vizinho dela. Então eu fui informado que não poderia mais falar sobre eles no meu espetáculo nem nas minhas redes sociais. Depois, a Almerinda gravou uma música criticando eles. A partir disso, eles perceberam que era melhor deixar isso de lado e nunca mais me perseguiram. Quando a Roseli foi presa, recebi mais de 300 mensagens de pessoas me falando que todas as minhas denúncias eram verdadeiras.

CMT: Você se considera o ‘bobo da corte’, aquela figura clássica que se utiliza do humor para criticar os poderosos?

A.L.: Sim, me considero. Na época, o ‘bobo da corte’ era o único que podia fazer piadas, inclusive com o rei, e não perdia a cabeça. A minha cabeça ainda está aqui. Mas eu sei dos perigos e dos riscos que corro com o trabalho que faço. Além disso, perco muito dinheiro, porque meus patrocinadores todos caem fora. Por exemplo, na época do Silval, todos me deixaram por causa das denúncias que eu fazia. A perseguição é grande quando se fala em política. Eu tenho mais a perder do que a ganhar. Porém, muitas pessoas dizem que eu dou voz a elas com as minhas declarações. Então, prefiro continuar assim, independentemente das ameaças.

CMT: Há algum político com o qual você se identifica e tece menos críticas?

A.L.: Não, não há nenhum político no qual eu confie. Descobri que não existe santo na política, assim como não existe virgem no puteiro. Fui notando que com o sistema político que está aí, não adianta. Vão trocando os cachorros, mas a coleira é a mesma. Parece que eles têm que seguir um padrão e quem não segue isso é eliminado. Então, eu realmente perdi as esperanças.

Por exemplo, seria bem mais fácil eu fechar os olhos para as falhas do Pedro Taques, que são muitas, como o Gilberto Nasser. É como se eu só enxergasse as coisas boas que acontecem, que são poucas, e não ver as coisas ruins. Eu elogio as coisas boas, mas ele mais erra do que acerta.

CMT: Atualmente, como é sua relação com o governador Pedro Taques (PSDB)?

A.L.: Nenhuma. Ele foi o único candidato ao governo nas eleições passadas que não aceitou dar entrevista para a Almerida. Não sei se é medo do que ela pode perguntar ou se ele teme perder as estribeiras comigo. Enfim, acho que ele é muito covarde por não ter coragem de falar com a minha personagem.

CMT: Com que base você fazia as denúncias contra o casal Barbosa?

A.L.: Eu recebia informação privilegiada de fontes próximas a eles. Tenho muitos amigos. Quando eu estava em São Paulo, morreu uma criança dentro do Lar da Criança. Os funcionários me ligaram, falaram que ninguém queria falar sobre o assunto, nenhum veículo tinha noticiado. Então, fiz um post no Facebook. Teve juíza e promotor me desmentindo. Falaram que eu estava inventando. Até que eu consegui o laudo, publiquei no Facebook e teve milhares de compartilhamentos. Foi ali que a casa dele começou a cair. Hoje, eu recebo muita denúncia diariamente, mas também tem muita mentira. Eu sempre apuro para ver o que é verdade ou não.

CMT: Como você avalia a atual situação política do Brasil?

A.L.: É complicado, porque está tudo em uma velocidade muito rápida. Então, não dá pra entender o que vai acontecer. É um momento em que eu, realmente, não sei o que vai acontecer. Não sei se vamos repetir a história de 64

CMT: Como você avalia a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)?

A.L.: Eu não posso fechar os olhos e dizer que isso não é uma prisão política. É óbvio que é uma prisão política. A Justiça não funciona tão rápido assim nas prisões de políticos. Se o Poder Judiciário fosse tão rápido como está sendo na questão do Lula, Aécio, Temer e vários outros bandidos estariam presos. Inclusive os nossos governantes atuais também estariam. Mas ok, eles têm foro privilegiado. Mas vamos ver se quando eles perderem esse benefício, se também serão presos.

Eu acho que se o Lula realmente desviou e aceitou corrupção ele deve ser preso e tem que pagar. Mas isso não pode valer só para ele e para o PT.

 

Os políticos por André D’Lucca

Pedro Taques (PSDB)

O Pedro Taques é uma grande mentira e uma grande farsa. Ele deveria ter continuado no ramo judiciário e não ter ido para a política. Ele é um grande mentiroso e sem-noção, porque não percebe quanta vergonha passa como governador.

Eu era aluno do Taques e tinha esperanças nele, quando ele foi candidato a senador. Ele falava que estava entrando no Senado Federal para desmascarar o Blairo, que era governador. Mas uma das primeiras atitudes do Taques, quando virou governador, foi se aliar ao Maggi.

Emanuel Pinheiro (MDB)

O Emanuel Pinheiro era um deputado que chegou a me oferecer Moção de Aplauso na Assembleia Legislativa. Fora da política, considero o Pinheiro um amigo. Já conversei com ele algumas vezes. Ele não recebeu a Almerinda depois do incidente do paletó, porque agora está sempre ocupado. Eu acredito que ele vai conseguir chegar até o fim de sua gestão. Se a gente fosse um país sério, se nossos vereadores fossem sérios, o Emanuel não chegaria até o fim do seu mandato. É subestimar nossa inteligência falar que o dinheiro que ele recebeu do Silval não era propina. O próprio ex-governador já assumiu que o dinheiro era fruto de corrupção e o Pinheiro não fala sobre o assunto e enrola a imprensa.

Silval Barbosa (sem partido)

O Silval achou que o governo era um garimpo que ele poderia explorar. Nada contra garimpeiros, até porque o meu pai também era e tenho um respeito muito grande pela profissão. Mas o Silval achou que o governo era um grande garimpo e que a verba pública era diamante e ouro que ele poderia pegar. Ele desviou mais de R$ 1 bilhão. É um dos grandes corruptos da história mato-grossense.

Blairo Maggi (PP)

O Maggi foi quem colocou o Silval no poder. Mas o Blairo consegue escapar, não sei se é pelo poder dele ou pela rede de contatos que possui. Ele é um político muito forte. Não dá pra negar que ele fez muito enquanto governador, porém está envolvido em muitos escândalos. Uma hora a casa dele tem que cair. No entanto, ele é um dos homens mais ricos do Estado e tem um poder muito forte. É a família dele que tem ditado as regras aqui. Foram os Maggi que colocaram o Taques no poder, porque colocaram muito dinheiro na campanha dele. Então, todo o desastre político de décadas pra cá tem dedo do Blairo.

Selma Arruda (PSL)

A Selma Arruda é uma grande decepção. Enquanto juíza, ela tinha uma postura enérgica e firme. Agora, ela se une a Victório Galli, que pra mim é uma grande piada na política. Me incomoda muito político que usa a Bíblia. Isso para mim é escroto. São falsos profetas. Para mim, o Galli é um grande exemplo de fariseu e psicopata, porque ele é totalmente desequilibrado. As declarações que ele dá não têm nexo. Aí a juíza se filia ao PSL e se alia ao Galli e ao Jair Bolsonaro [pré-candidato à Presidência]. Pelo amor de Deus, ela quer passar vergonha.

Mauro Mendes (DEM)

O Mendes mentiu bastante. Ele foi um bom prefeito para Cuiabá, se olharmos todos os anteriores, porque só tivemos porcaria. Ele poderia ter feito muito mais e ter cumprido suas promessas, como a de entregar o novo pronto-socorro de Cuiabá. Ele mentiu muito, porém fez um pouquinho. Entre ele e o Taques, daria uma chance ao Mendes. Mas não o considero um ótimo político. Longe disso.

José Geraldo Riva (sem partido)

É o maior ficha-suja da nossa história. É um cara que ficou vinte anos no poder, revezando com o [Humberto] Bosaipo. Eu não escuto falarem muito do Bosaipo. Mas os dois realizavam os esquemas e dividiram a presidência da Assembleia por praticamente 20 anos. O Riva é, sem dúvida, o maior corrupto de Mato Grosso na realidade. Não entendo porque as pessoas falam que eu o protejo. Eu dou esses tipos de declaração, mas o cumprimento normalmente quando o encontro. Só que ele é um político corrupto.

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